Orgulho de ser PUC?

Assembléia geral na Prainha da PUC-SP discute nomeação de Anna Cintra à reitoria, cadidata com menor número de votos nas eleições de agosto desse ano

Por Maria Shirts

Ontem, dia 13/11, por volta das 18 horas, a comunidade puquiana ficou chocada com a seguinte notícia, divulgada no site oficial da universidade: “Anna Cintra é a nova Reitora da PUC-SP”. Para os que ainda não sabem, vou explicar o motivo do choque.

Há 30 anos a PUC-SP iniciou um processo de votação para o cargo de reitor da faculdade. Pela primeira vez na história deste país, alunos, professores e funcionários de uma universidade puderam escolher seu candidato de preferência para “tocar o barco”. O processo, em vigor até hoje, é simples: os eleitores escolhem, a cada quatro anos, o seu candidato por meio de uma cédula de votação. Os três mais votados irão compor uma lista que, por sua vez, é enviada ao Grão-Chanceler da universidade. Cabe a ele nomear e homologar o reitor.

Desde o início desse processo – que, salvo engano, começou nos anos 80 -, essa “autoridade mor” da instituição escolheu o candidato mais votado pelos eleitores. Até ontem. Até ontem os alunos, professores e funcionários da PUC-SP tiveram o seu direito de escolha respeitado pelo Grão-Chanceler. Tiveram um processo eleitoral, para a escolha do reitor, democrático e legítimo.

No entanto, fomos todos surpreendidos, nessa terça-feira chuvosa, pela última instância da universidade. O atual Grão-Chanceler da PUC-SP, o cardeal Odilo Pedro Scherer, deliberou contra a opção da maioria. O candidato escolhido pela comunidade puquiana, nas eleições do dia 31 de agosto deste ano, não foi a nomeada Anna Cintra, mas sim o atual reitor da faculdade, Dirceu de Mello. Aliás, a candidata em questão foi, na verdade, a terceira colocada nesta eleição. E, bacana lembrar: essa mesma candidata assinou um termo, redigido pelo movimento Roda Viva, de que não aceitaria qualquer nomeação para o cargo de reitora, caso não fosse a mais votada. Será?

Acredito que, neste momento, muitos dos leitores destas mal traçadas já viram a reação do alunato puquiano através da grande mídia. Nos reunimos na famigerada “Prainha”, cenário de inúmeras de nossas reuniões, para discutir o que fazer. Foi votado pela ação de um “cadeiraço”, em protesto, e então colocamos todas as carteiras no âmago de nossa universidade, o Pátio da Cruz. Também optamos, como forma de protesto, iniciar uma greve e ocupar a reitoria da universidade.

Em quatro anos de PUC-SP, vi reivindicações acontecerem. Já presenciei uma ocupação de reitoria, no ano de 2010. Mas a adesão, até então, nunca foi tão significativa e poucos alunos abraçavam as causas propostas.

O que testemunhei ontem, entretanto, me emocionou. Vivi uma reivindicação plural, sólida e, mais do que qualquer outra coisa, muito bonita. Professores com 30 anos de casa; funcionários que ajudaram a por os tijolos naquele “prédio novo”; alunos do Direito, da Economia, da Letras, da Ciências Sociais, de Relações Internacionais, et alli; todos nós bradamos, nesse 13 de novembro, pela cotninuação da tradição democrática dentro da Universidade. Pelo nosso direito de escolha, que sempre fora legitimado. Direito que conquistamos há muito tempo e que, num súbito ato autoritário, nos foi retirado. E, pior, numa manobra ardilosa e trapaceira: minutos antes de um feriado, que é pra ninguém encher o saco.

Mas quem esteve na Prainha, no Pátio da Cruz, na reitoria, em qualquer instância daquele campus Monte Alegre pôde (e continuará a) afirmar: a comunidade ainda vai encher muito o saco. A comunidade vai continuar defendendo o nosso direito de escolha, a nossa democracia, a nossa vontade política. A comunidade vai se consolidar cada vez mais seja na voz dos alunos, dos professores, dos funcionários, e de todo mundo junto.

Por essas e outras posso dizer que, pela primeira vez em quatro anos, eu tive MUITO ORGULHO de ser PUC.

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O que esperar de Fernando Haddad prefeito?

Por Leonardo Calderoni

Pode-se votar 13, 45, branco, nulo ou até boicotar as eleições. Muitos outros dirão que tanto faz o que se faça ou se deixe de fazer. De qualquer modo, a campanha está chegando ao fim e no domingo conheceremos o novo prefeito de São Paulo. A menos que alguma tragédia ou milagre (a depender do ponto de vista) sem precedentes na história das eleições paulistanas ocorra, Fernando Haddad será eleito. E o que se deve esperar de uma (muitíssimo provável) gestão Haddad? Longe de esgotar a questão, tentarei aqui iniciar uma reflexão sobre essa iminente possibilidade.

Consumada, a eleição de Haddad representará a terceira prefeitura do PT em São Paulo. No entanto, não deve representar uma repetição do passado. As experiências das prefeituras petistas de Luiza Erundina (1989-1992) e Marta Suplicy (2001-2004) servem como parâmetros de comparação importantes, porém bastante limitados. Os contextos e os atores são diferentes nos três casos.

Por que afirmo isso? No primeiro caso, é bem simples: quando Erundina surpreendeu o país ao eleger-se prefeita nas eleições de 1988, o PT era um partido muito menos forte e muito mais de esquerda (esquerda com E maiúsculo e ninguém duvidava disso). Como era de se esperar, ela teve enormes dificuldades para governar: foi boicotada virulentamente por empresários, pela mídia e pelo resto da classe política.

Para piorar, o país se encontrava no final da década de 1980 em uma situação caótica: o crescimento econômico estava lá embaixo e a inflação nas alturas. Em outras palavras: se já não bastasse ser boicotada por todos os lados, havia para Erundina uma natural dificuldade arrecadatória e administrativa pelo contexto da época. Ainda assim, diz-se que a sua gestão foi corajosa e marcada por importantes realizações sociais, uma das razões pela qual se explicaria o fato da ex-prefeita, até os dias hoje, ter bastante força política nas periferias da cidade.

Ao pensar no governo de Marta Suplicy, também marcado por realizações sociais importantes e no qual o próprio Haddad trabalhou, a comparação talvez tenha mais sentido. Contudo, é preciso tomar alguns cuidados. O PT no início dos anos 2000 já era um partido mais forte do que na década de 1980. Mas não tinha a força e sustentação que adquiriu após a chegada de Lula na presidência a partir de 2003 (e em especial a partir de seu segundo mandato). De maneira distinta em relação à Erundina, Marta também teve consideráveis dificuldades de governabilidade e problemas de cunho arrecadatório e administrativo.

Convém lembrar que ela recebeu uma prefeitura arrasada pelos 8 anos de corrupção desenfreada das péssimas gestões de Paulo Maluf (1993-1996) e Celso Pitta (1997-2000). Ademais, o Brasil, no período que vai do final do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso ao início do primeiro mandato de Lula, não estava lá muito bem das pernas economicamente. Nas eleições municipais de 2008, Marta cansou de dizer  que, caso fosse eleita e tivesse uma nova chance, poderia fazer muito mais que em sua gestão anterior. Segundo a ex-prefeita, ela teria 10 bilhões de reais a mais para investir.

É importante perceber que a situação de Fernando Haddad ao (muitíssimo provavelmente) iniciar sua gestão na prefeitura ano que vem será bastante diferente das de suas predecessoras. O PT hoje em dia é um partido muito mais forte. Com a sua reconfiguração político-ideológica, sustentado por alianças questionáveis (porem não desprezíveis) e com a promessa de ajuda maciça do governo Dilma Rousseff, Haddad governará sob marcos diferentes dos de Erundina e Marta.

Se esses novos marcos implicam em limitações sob a óptica do poderíamos chamar de “enfrentamento ideológico de grandes interesses”, também significam grandes potencialidades do ponto de vista administrativo. Não se pode esquecer que o país também vive outro momento econômico. Nossa economia pode até dar uma patinada aqui e acolá, mas o contexto atual é indubitavelmente bem melhor do que os dois anteriores. No ano que vem, São Paulo terá um orçamento recorde e acima do previsto de mais de 40 bilhões de reais.

Trocando em miúdos: a despeito de todas as limitações, Haddad e o PT estão com a faca e o queijo na mão para mostrarem ao que vieram na cidade de São Paulo. Não têm condições de romper magica e revolucionariamente paradigmas de longa data, mas têm, sim, todas as condições de promover relevantes realizações. Adicionalmente, é importante dizer que a campanha do petista teve forte apoio nas regiões mais pobres e carentes da cidade, da juventude em geral e de muitos movimentos sociais (e isto não é juízo de valor; é uma constatação factual). Portanto, a expectativa em relação ao governo Haddad não será alta. Será altíssima. Sua própria candidatura ajudou a edificá-la ao contrapor-se de maneira veemente aos inúmeros destemperos da gestão Kassab e, principalmente, ao tratar de modo pormenorizado algumas das complexas problemáticas da cidade que estão aí há muito tempo.

Passado o momento eleitoral, será preciso analisar cada vez mais atentamente os enormes desafios que se colocam para o próximo governo e as suas ações subsequentes. No caso de um governo Haddad, estou convicto de que, caso a sua gestão não consiga realizar pelo menos parte significativa das promessas de campanha, ele o PT terão enormes problemas nas eleições paulistanas de 2016. E então não importará quão alto seja o sucesso relativo do Partido dos Trabalhadores no plano federal e em outros rincões do Brasil. Sampa, a terra da garoa, é um mundo à parte.

Democracia: festa ou farsa?

Seria rude de minha parte tentar fazer diferente de meus colunistas predecessores e não me apresentar. Sou Leonardo Borges Calderoni e estudo Relações Internacionais na USP (aquela que o cidadão em geral acredita que é a melhor universidade do continente e, simultaneamente, dominada por maconheiros-rebeldes-sem-causa). Mais importante do que isso: considero-me de esquerda, por paixão e opção. E muito menos importante do que aquilo: sou judeu, com 13 anos fiz Bar Mitzvah, mas não sou como o sujeito desse vídeo aqui.

Pois bem, a última estreia da primeira semana da Esparrela é minha. Estou feliz com o pertencimento a essa equipe, ainda que desconfie que aqui esteja mais por acidente e generosidade alheia do que por qualquer outro motivo. Seja como for, já que aqui estou e as eleições aí estão, vamos falar de São Paulo? Pensando bem, tive uma ideia melhor: vamos falar de política em termos mais amplos e menos particularistas. Tentarei desmontar uma tese frequente (e quiçá predominante) que a nossa geração reproduz como verdade-quase-absoluta sobre a nossa democracia e o nosso país.

Quem nunca ouviu um amigo de bom coração falar ou mesmo nunca proferiu, após ver algum escândalo político de qualquer natureza ou um comportamento indesejado de nossa classe política, algo como: “essa democracia [representativa] é uma farsa!”. Em época de eleições então, onde há aquelas propagandas piegas do TSE ou aqueles discursos-clichê sobre a “festa da democracia”, ouvir frases como essas se torna uma rotina quase insuportável.

Mas afinal de contas, vivemos em um dos países mais desiguais do mundo, temos uma lista interminável de escândalos e falcatruas inacreditáveis envolvendo nossos políticos. Ah, os nossos políticos. Como suas atitudes muitas vezes são pouco exemplares, não é mesmo? Assim, para que serve esse lixo de democracia, senão como uma farsa para ludibriar o povo e o cidadão bem intencionado? E você ainda quer defendê-la? Não seja um idealista idiota, senhor Leonardo! Agora basta! Pare de romantizar a democracia! O Brasil é um(a) merda porcaria farsa lixo vergonha país-de-babacas (sic)!

Muito bem. Se você ainda não desligou o Esparrela ou jogou seu computador pela janela, então há esperança de que talvez eu mude essa opinião (caso você se identifique com ela). Em primeiro lugar, gostaria de dizer que creio que o raciocínio que descrevi acima é perfeito. Perfeito se, como pressupostos deste raciocínio, temos nossos ideais utópicos ou normativos sobre como uma democracia ou uma sociedade devem ser. Em outras palavras: em termos absolutos, nossa democracia e nosso país são realmente uma grande porcaria.

Agora, se tivermos a humildade de tentar pensar o Brasil e a democracia tupiniquim em perspectiva histórica e comparada – ou seja, em termos relativos – veremos que o mesmo raciocínio pode se tornar bastante discutível. Você acredita que estaríamos melhor ou igual se ainda vivêssemos na época da Ditadura (1964-1985)? Ou quem sabe no Estado Novo autoritário de Getúlio Vargas (1937-1945)? Ou, melhor ainda: você trocaria a nossa Nova República pela gloriosa República Velha (1889-1930), com sua democracia censitária e de cabresto, na qual o presidente poderia dizer, impune e tranquilamente, que “a questão social é caso de polícia”? Dizer que “bandido bom é bandido morto” nem era necessário, já que isso era quase um pressuposto da época.

Acreditem, se hoje em dia a questão social em geral ainda é caso de polícia no Brasil e a questão criminal ainda não é vista também como uma questão social e se reduz a “exterminar os bandidos”, naquela época, acreditem, era muito pior! Imagino a República Velha como um tempo em que tínhamos sempre um Geraldo Alckmin ou um José Serra – aquele político que tem dito coisas meio complicadinhas recentemente – como presidente do país. Só que em versões mais hardcore e com menos pudores de aparência.

Entre avanços e retrocessos, afirmo que não trocaria o nosso tempo presente por nenhum outro período da história brasileira. Simplesmente porque é a primeira vez que existe expansão significativa (novamente: em termos relativos, ao menos) de direitos sociais combinado com algumas garantias reais de liberdade política e de expressão. Se alguém conseguir construir uma máquina do tempo e quiser testar esta minha convicção empiricamente: desejo-lhe boa sorte! Mande um beijo para o Washington Luís ou para o Médici por mim.

Como gosto dessa discussão sobre a evolução da cidadania no Brasil, eu poderia fácil e prazerosamente ficar horas aqui desenvolvendo o argumento supracitado em uma espécie de loop infinito. Mas isso seria muito deselegante e tornaria o post de estreia ainda mais longo do que já está. O que eu realmente quero dizer aos pessimistas de bom coração – principalmente àqueles que não cresceram durante a ditadura – é: acreditem em mim e não no Tiririca. Porque pior do que tá, fica sim! Já foi muito pior. E nada impede que volte a piorar, ainda mais se esse niilismo político se perpetuar. Pois não é o tempo que faz as coisas mudarem: são atores e processos históricos que o fazem.  Para o bem ou para o mal.

No fim, tenho para mim a profunda desconfiança de que o que nos resta é pensar maneiras de tornar a nossa democracia (tanto em sentido político quanto social) mais forte e menos “falsa” e não jogar os avanços históricos que ela propiciou, esses sim nada “falsos”, na lata de lixo. Ser “otimista” não te torna necessariamente um “idealista-sem pés no chão” e ser “pessimista” não te torna obrigatoriamente – como muitos tacitamente creem – um sóbrio leitor da realidade.

Só a reflexão sincera e constante nos livra tanto do niilismo político quanto de seu extremo oposto. Será tão difícil assim conseguir não reduzir nossa democracia nem a uma festa perfeita e nem a uma farsa completa? Não sei. A resposta a essa pergunta, eu deixo para vocês.