Arte, na Corea do Norte

“A primeira coisa que eu vi foi um cartaz que dizia: “Se você correr, você morre”. Se você fugir você vai ser morto a tiros. Isso é o que eu vi no primeiro dia da minha entrada no centro. Mas há uma tortura que acontece antes de você chegar no campo de prisioneiros. No próprio centro de detenção ficamos de joelhos; colocam um copo na nossa frente. Devemos ficar na mesma posição até que o copo fique cheio de suor. Nesta outra posição devemos pensar que existe uma motocicleta imaginária e que estamos nesta posição como se estivéssemos andando de moto. E nesta esta outra posição fingimos que somos aviões. Estamos voando. Se você ficar nessas posições não há qualquer chance de você ficar por muito tempo; você cairá para frente. Todo mundo no centro de detenção passa por esse tipo de tortura. Somos obrigados a permanecer nessa posição até que o carcereiro sinta que você já foi torturado o suficiente. Assim, a tortura continua até o momento em que o carcereiro está satisfeito. Quanto a mim, acho que era capaz de ficar nessa posição durante, talvez, uns 20 minutos. Eu ficava nessa posição de moto e me diziam para ficar nessa posição até que meu suor enchesse um copo, o copo na minha frente. Você nunca vai imaginar o que é isso.

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Posições de Tortura

Levantávamos às 5 da manhã. Devíamos ficar sentados de joelhos com a cabeça no chão; ficávamos nessa posição até as 10:00. A lei permite que os detentos fiquem em uma posição por no máximo 5 minutos, sendo que em seguida deveria ser feita uma pausa, mas as vezes ficávamos na mesma posição por mais de 10 horas. Se tentássemos nos mover porque estávamos exaustos, nos batiam novamente.

Espancamento

Espancamento

Existe também a tortura do pombo. Suas mãos ficam atadas atrás de você e eles te amarram assim; o peito sai para a frente e nessa posição você é torturado. A posição em si é a tortura, mas além disso você está constantemente sendo espancado. Se você não deu a declaração correta durante a audiência preliminar, você passa por esse tipo de tortura. Você está sendo espancado, o que te leva a vomitar, porque você se sente muito desconfortável por dentro. Às vezes você vomita sangue. E então você entra em colapso. Você entra em colapso. Você perde a sua consciência, e se você entra em colapso eles fazem você se deitar em uma prisão no centro de detenção.

Tortura do pombo

Tortura do Pombo

Isto é o que acontece lá dentro. Todo mundo sofre de desnutrição. A pessoa em pé, eu acho, é o guarda. Pessoas com mais de 170 metros não conseguem sair de um campo correcional vivos; quanto mais alto você é, maior é a possibilidade de você sofrer de desnutrição. A comida que nos dão é inferior a 80 gramas por refeição, mas se você fizer algo de errado, se você escorregar, eles te dão menos. Por lei você deveria receber 100 gramas, mas nós não recebíamos o suficiente e eles nos alimentavam com algumas coisas que nem mesmo os porcos comiam, como pepino podre. Pepino podre cozido foi dado para nós comermos. E se nós nos recusássemos a comer, éramos punidos. Às vezes, você seria punido com menos de 50 gramas por refeição. Seis meses depois de ficar em um destes campos de detenção não era possível continuar vivo.

Cela

Cela

Antes de ir para estes campos de prisioneiros você faz testes de aptidão física para ver se você será capaz de aguentar a estadia. Quase todo mundo passa no teste de aptidão física; às vezes não passam no teste, mas vão para os campos do mesmo jeito. Na prisão eles determinam se você está apto fisicamente deixando você nu e olhando para as suas nádegas. Se suas nádegas estão separadas e soltas, os guardas usam os punhos para ver se conseguem encaixar uma mão entre as suas nádegas. E é assim que eles determinam se você está fraco ou não. [Os que estão de pé recebem um atestado de fraqueza “classe 1”, aquele que estão mais fracos recebem o de “classe 2”, e os piores o de “classe 3”]. Então, se você estiver fraco como eles, você nunca vai conseguir sair deste acampamento. A desnutrição crônica, a tortura, a fome e as doenças fazem você cair rapidamente à classe 1 de fraqueza. Se a sua família não te visita eles te consideram um negligenciado e você vai cair para a classe 2 ou a classe 3. Por isso, bastam cerca de 15 minutos para alguém muito fraco receber um atestado de fraqueza classe 3. Como tínhamos muita fome e não tínhamos o suficiente para comer, íamos procurar cobras na rua. Sei que isto soa horrível para você. Como pode-se comer uma cobra na rua? Mas, para nós, o primeiro que achasse comia. Todo mundo correu para pegar aquelas cobras porque estávamos tão sedentos.

Cobras

Cobras

A capacidade da prisão era de 800 pessoas, mas quando eu estava lá havia 2.400. Às vezes eles colocavam até 4000 pessoas, o que significava que em um quarto havia mais de 60, 70 pessoas; em uma cela que só cabiam 14 ou 17 pessoas. Às vezes havia até 170 pessoas. Os meus pés ficavam no topo da cabeça de alguém e os pés de alguém ficavam no topo da minha cabeça. As vezes as pessoas dormiam em pé; nós revezávamos entre ficar deitado e ficar de pé. Nesse tipo de ambiente, às vezes você está tão exausto que você quer desistir, acabar com sua própria vida. É por isso que tinham guardas entre nós; para ver se alguém estava tão fraco que decidiria cometer suicídio. No verão, quando estávamos sufocando, dormíamos nus; e, quando dormíamos nus, tínhamos graves problemas de higiene. Falando literalmente, vivíamos em um buraco de defecação humana. Em 2 anos e 5 meses vi muitas pessoas morrem. Foram mais de 100. Há tantos cadáveres. 8 pessoas que dormiam ao meu lado em uma célula morram por causa de febre alta.

Celas

Isolamento

Pela estrada à esquerda, saindo de Sangdong, se você andar dois quilômetros encontrará uma montanha e uma caverna. Há um fosso lá onde colocamos os corpos dos mortos. Se alguém morresse na sua cela, as pessoas que estavam mais fortes levavam os corpos. Mas nós não levávamos só um ou dois cadáveres, nós esperávamos os corpos acumularem até que houvessem 4 ou 5 corpos. Mesmo que eles estivessem apodrecendo no calor do verão, nós não carregávamos. Então ocasionalmente os corpos deterioravam e os ratos comiam os corpos.

Ratos

Ratos

Nós carregávamos os corpos em um carrinho que era tão grande quanto um caminhão. Colocávamos os corpos num pote e acendíamos uma fogueira. Era como se não fossem como nós… era como queimar lixo, queimar entulho. E se você olhasse para dentro do pote você via os ossos que não tinham sido totalmente queimados, e as vezes os ossos viravam pó. Levávamos o pó para os campos e usávamos ele como fertilizante. Por termos visto tantas pessoas morrerem, nos acostumados com isso. Lamento dizer, nos acostumamos tanto que já não sentíamos nada. Quando alguém morria tirávamos suas roupas; deixávamos elas nus. Aqueles que estavam vivos tinham que seguir em frente e os mortos, me desculpem, estavam mortos; nos acostumamos com isso.”

Corpos

Corpos

– Kim Kwang Il, preso pelo regime Norte Coreano em 2004 por atravessar a fronteira para vender pinhões, em testemunho à Comissão de Inquérito de Direitos Humanos na Republica Popular da Corea. [Tradução livre e reorganizada para coadunar com as fotos do livro de Kim Kwang Il]

Cheira azedo

por Luís H. Deutsch

Há algo de podre no Reino da Dinamarca. Ou melhor, no Reino do Brasil. Melhor ainda, há algo de azedo. Traduzindo finalmente o que eu quis dizer: Eu não gosto da Rachel Sheherazade.

A insuportável âncora do jornal de horário nobre do SBT é uma das jornalistas que entrou na onda das crônicas do ódio para ganhar seus 15 minutos de fama.  Em suas “reflexões”, Rachel (por favor, não me forcem mais a escrever esse sobrenome) transmite uma mensagem de fúria. Zero construtiva e que realmente não serve para nada.

A última deixa foi ao falar do rapaz suspeito de roubo que foi pego pelos “Justiceiros da Zona Sul”, no Rio. Nu, ferido e amarrado ao poste, o jovem foi colocado como exemplo de justiça sendo feita num “país falido”. A tradicional família foi ao delírio e ejaculou orgasmos múltiplos ao ouvir da voz da jornalista, que essa é uma violência “compreensível”. Ou seja, que bandido bom é bandido morto e se você tá com dó, leva pra casazzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz.

Rachel Charizard sabe o poder que tem. Em um país onde metade da população ainda não têm acesso à internet, a televisão é o meio principal de comunicação. Sua mensagem alimenta a polarização entre “gente do bem” e “vagabundo”. Entre “gente certa e direita” e “esquerdista de iPhone que defende viciado”. E, além dela que fica famosa, ninguém mais ganha nada com isso!

Da bancada do principal jornal do SBT, Rachel Cheirazedo parece ser mais uma daquelas pessoas que só viu o Tropa de Elite 1 e saiu por aí a própria personificação do Capitão Nascimento. Esqueceu que na segunda parte do filme o próprio “herói” brasileiro tenta mostrar que o buraco é mais – BEM MAIS – em baixo. Ela levanta sua voz contra o lado mais vulnerável do problema da violência no país.  Sendo simplista e reducionista, chuta cachorros mortos enquanto se esquece dos gigantes pitbulls das corporações de mídia, do empresariado e da política que deitam e rolam com a crise na segurança pública.

Pobre Rachel… Ela não é burra! Sabe que nos morros e favelas a grana manda a tal ponto que os próprios policiais são comprados para que os bandidos possam assaltar a gente. Mas, ela esquece que ao apoiar milícias, como os “Justiceiros da Zona Sul”, ela pode estar cavando sua própria sepultura e virando refém de um sistema que um dia pode destruir tudo o que construímos a respeito de leis e direitos civis. Em poucos minutos de asneiras, Rachel samba na ideia dos Três Poderes e nos conceitos de legítima defesa, de humanidade e de justiça.

Tudo isso porque ela não quer defender vagabundo… Acha que eles já têm regalias demais,  enquanto cachinas sangrentas e uma crise penitenciária sem precedentes explodem por aí.

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Ninguém quer saber sua ‘opinião”, querida. 

Espécie de profissional de quinta categoria que entende 0,001% do Brasil, mas vomita palavras como se fosse A voz da salvação. Usa a justificativa de governo ineficaz, mas não desenvolve em suas intervenções UM debate útil. Não fala em reformas, não fala em importância de voto, não fala em EDUCAÇÃO, nem de consciência política. Só ódio.

Gostaria que a Rachel fosse “promovida” a correspondente internacional na Coréia do Norte, sabe?

E que o Sílvio Santos voltasse a preencher a grade televisiva do SBT com Chaves, TV CRUJ, Casos de Família e novela mexicana. Se for pra não agregar nada na cabeça do telespectador, que seja engraçado e divertido pelo menos.

Quando quem mata é heroi

Por Hannah Maruci Aflalo

 

Escrevo hoje meu primeiro post no Esparrela. Sou estudante de Relações Internacionais a se formar o quanto antes e dividirei as terças-feiras com o Luís Henrique Deutsch. Começo aqui com um tema que me incomoda e me instiga e que essa semana, por conta de algumas notícias divulgadas, esteve em pauta.

O Estado Penal em que vivemos hoje, não apenas no Brasil, mas em inúmeros outros países pelo mundo, vai contra a liberdade de todos nós: não apenas daqueles que são presos, mas também, e talvez principalmente, daqueles que ficam soltos acreditando estarem livres e seguros. Falar em um Estado Penal, porém, pode levar ao pensamento de que quem quer punição é apenas o Estado e a polícia, sem considerar que quem pede incansavelmente pelo fim da impunidade é o chamado cidadão de bem. Basta assistir a um noticiário na televisão (e nem precisa ser no programa do Datena) para concluir que são os próprios cidadãos que veem na pena a garantia de segurança, e mais do que isso, de vingança. Isso sem contar a forma como o criminoso é definido. Aquele que rouba um pão porque sente fome será muito mais facilmente chamado de criminoso do que aquele que frauda uma eleição; a esse chama-se corrupto. É apenas quando o corrupto atenta contra a propriedade, desviando dinheiro, por exemplo, que passa a ser chamado bandido e, mesmo assim, de um jeito ainda muito diferente. “Bandido bom é bandido morto” é uma sentença que se aplica apenas para alguns. Seria repetitivo demais dizer que o bandido é aquele da outra classe social, considerado vagabundo, pois prefere roubar da gente de bem ao invés de trabalhar, e que por isso merece ser morto.

No Brasil, a luta contra a impunidade cresce a cada dia. Pode se ver até mesmo estudantes de jornalismo fazendo passeatas reivindicando pela diminuição da maioridade penal. Quem comete um crime deve ser eternamente punido por ele: primeiro, passando pela prisão sob condições desumanas, depois, voltando à sociedade (após cumprida a pena) sem conseguir se livrar do estigma por ter sido já preso uma vez. Pouco se importa com as condições das prisões, pois acredita-se que quem está preso é porque merece estar ali e não deve ter direito a nenhuma condição mínima de vida. O governo brasileiro foi recentemente interpelado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos por causa do Presídio de Araraquara e suas condições escandalosamente precárias, que levaram a um motim em 2006. Pede-se o cumprimento da lei, mas as condições carcerárias brasileiras estão completamente em desacordo com a legislação. Direitos humanos, portanto, só para alguns. Cumpra-se a lei, mas não para todos. Presos ou criminosos são tratados como uma outra classe de ser humano (quando muito) que da sociedade nada deve receber, mas que a ela sempre deve.

Clama-se por punição para quem viola as leis (mais especificamente para aqueles que atentam contra a propriedade), acredita-se na ilusão de que os chamados criminosos nada têm a ver com o “cidadão de bem”, investe-se em prisões de segurança máxima e de condições internas precárias. Negligencia-se, no entanto, o fato de que crime é uma relação social que envolve não apenas os chamados os criminosos. A própria noção de crime, por si só, é imprecisa, maleável e historicamente descontínua. Por isso, pedir que a lei se cumpra por meio da punição está longe de ser um pedido por justiça. Não existe uma lei universal, nem crimes universais e muito menos punições proporcionais ao delito cometido.

            Enquanto o crime continuar a ser entendido como algo absoluto e mensurável que tem sua resposta proporcional definida na lei por meio dos castigos, a punição não cessará, mas os crimes também não. Nessa semana, a divulgação de um vídeo que mostrou o ato “heroico” de um policial atirando em um suposto bandido gerou comemorações e lotou os comentários da UOL (aqueles que sempre que a gente lê promete nunca mais olhar pra não perder a fé na humanidade, sabe?) de papagaios repetindo a frase já mencionada aqui de que “bandido bom é bandido morto” e defendendo que se todo policial fosse assim viveríamos hoje numa sociedade menos violenta. Será mesmo? Por outro lado, quando o PCC anuncia que o governador de São Paulo está jurado de morte, são essas mesmas pessoas que se adiantam logo pra dizer que se trata de um atentado contra os direitos humanos. Não estou aqui defendendo o PCC (nem o Alckmin), mas são as reações a fatos como esses que mostram como as noções de crime e de bandido são completamente flexíveis, e o mesmo vale para os direitos humanos.

A associação do crime à pobreza é algo recorrente e, no entanto, extremamente delicado. Mapear os perigos parece tornar mais possível que o ideal de segurança seja atingido: ora, basta isolar a pobreza. Se fosse assim tão simples, eu estaria agora mesmo fazendo um comentário qualquer na UOL, pedindo por mais punição ou, quem sabe, aplaudindo o policial que atirou no bandido. O único problema dessa lógica é que a miséria é produzida dentro e pelo Estado, e não apartado dele. Os muros da prisão, além de não trazerem segurança, não escondem a relação inseparável entre o criminoso e o cidadão de bem.

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De vítima a ré – o Estatuto do Nascituro

Por  Maíra  Souza

Mais um passo rumo ao retrocesso. A aprovação do Estatuto do Nascituro, PL 478/2007, pela Comissão das Finanças e Tributação demonstrou que o Brasil não é, de fato, um Estado laico. Composto majoritariamente por homens, e veementemente defendido por fundamentalistas religiosos, o Estatuto criminaliza o aborto em todas as suas formas, ainda que em situações já legalizadas, como o risco de morte da mãe, feto anencéfalo, ou gestação decorrente de estupro.

Em outras palavras, o Estatuto afirma que o papel da mulher é o de um ser reprodutor, e portanto, seu útero representa a sua função na sociedade. Ficou com dó?! Tudo bem, ela receberá 01 salário mínimo até o filho completar 18 anos, afinal, isso paga o trauma, o sofrimento, a escola, os brinquedos, as roupas, tudo. Lembrando que o Estado pagará essa “despesa” se o cara não for identificado. Tudo bem coerente, tá certinho.

Nos primeiros meses de 2013, foram registrados 3356 (TRÊS MIL TREZENTOS E CINQUENTA E SEIS) casos de estupro somente na cidade de São Paulo. Isso sem contar os que não são denunciados, os que acontecem em áreas rurais, em comunidades carentes e, principalmente, dentro da própria casa.

Vamos imaginar uma situação real? A mãe, vitima de estupro, gera o neném e dá a luz.  A paternidade da criança sempre será questionada na rua, na escola, no trabalho. Como se já não bastasse o preconceito vivido por mães solteiras, imagine no caso de estupro. E quando o filho perguntar quem é o pai, o que a mulher deve responder? Não entendo porque desejar que alguém seja lembrado diariamente, pelo resto da vida, da maior brutalidade que uma mulher pode sofrer.

O aborto é e sempre foi uma realidade, consequente de uma decisão difícil, dolorosa e traumática. Além de uma questão de saúde pública, trata-se de uma questão social: ele existe para as mulheres que têm dinheiro o suficiente para um aborto minimamente seguro. E as que não têm morrem em clinicas-açougues, tomam “remédios”, chás, ou inserem agulhas de tricô e cabides, entregando-se, novamente, à própria sorte.

Um dos artigos do estatuto, afirma que “É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar ao nascituro, com absoluta prioridade, a expectativa do direito à vida, à saúde, à alimentação, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar, além de colocá-lo a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.” Infelizmente, nem a sociedade machista e patriarcal nem o Estado asseguram todos esses direitos à mulher. A vítima de estupro não teve a sua vida assegurada, nem a sua dignidade, respeito e liberdade. Provavelmente sofreu negligência na delegacia e no hospital. Muitas foram exploradas e violentadas pelos próprios familiares. E, com crueldade e opressão, terão que gerar e criar o fruto de sua realidade.

A luta não é pelo incentivo ao ato de abortar, mas pelo direito de ser responsável pelo seu próprio corpo e destino. A luta é para que os dogmas de grupos conservadores religiosos fiquem no espaço da igreja, e não do Congresso. Para que a mulher seja, de fato, respeitada e tenha a sua autonomia reconhecida.

E para aqueles que lutam pela “defesa da família tradicional” composta por homem+mulher+criança, sugiro que a luta seja por uma família feliz, cujo conceito de felicidade possa ser definido pelas crenças de cada um.

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Marco Feliciano e o câncer do Brasil

Por Maíra Souza

“A podridão dos sentimentos dos homoafetivos levam ao ódio, ao crime, à rejeição. Amamos os homossexuais, mas abominamos suas práticas promíscuas”

“Sobre o continente africano repousa a maldição do paganismo, ocultismo, misérias, doenças oriundas de lá: ebola, AIDS, fome, etc (…) Africanos descentem de ancestral amaldiçoado por Noé. Isto é fato”

“AIDS é o câncer gay” Marco Feliciano

Nesta quinta-feira, o Brasil acompanhou a eleição do pastor Marco Feliciano como presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Acompanhou a eleição da intolerância, do desrespeito e da BURRICE para discutir os problemas dos DH. Hoje, o Brasil deu (mais) um passo para trás na construção de um país igualitário e democrático, confirmando a supremacia dos interesses políticos ao invés dos interesses da população, tanto das camadas minoritárias, quanto majoritárias.

Há uma diferença entre a liberdade de expressão e a propagação do discurso de ódio. As manifestações que estão acontecendo e que ainda acontecerão nas redes sociais, em Brasília, e em outras cidades brasileiras, receberam de nossos representantes parlamentares um belo FODA-SE, afinal, nem no plenário os manifestantes puderam entrar.

Hoje senti VERGONHA de ser de um país que aceita um cara que reafirma os princípios da escravidão e da intolerância em todas as suas formas. Um cara que não admite nenhuma verdade exceto as suas convicções – novamente, BURRAS. Um cara que se diz pastor e que julga representar os evangélicos brasileiros, mas que, na verdade, explora a fé alheia, extorque e prega exatamente o oposto do conceito de Direitos Humanos. Um cara que acha que o candomblé e a umbanda são religiões inferiores, para pessoas inferiores, cujos descendentes são inferiores, vindos de um continente inferior e vetores das mazelas do mundo. Um cara que acha que ser gay é doença, e como tal, tem que ser exterminada, tratada, curada e escondida. Um cara que é contra o casamento e a adoção de crianças por casais do mesmo sexo, o aborto e o divórcio. Para as sentenças acima, Marco Feliciano diria: “esse cara sou eu”.

Daí eu pergunto a vocês, Direitos Humanos para QUEM? Do que vale ter uma Comissão para tratar do assunto se o seu presidente acredita nos direitos de e PARA uma minoria? Suprimidos pelo preconceito e pela ignorância de um, a omissão desses direitos afeta a todos os brasileiros. O raciocínio ilógico e irracional que tenta justificar a propagação do ódio aos que amam pessoas do mesmo sexo não é digno de presidir nada (aliás, esse penteado e essas roupas de couro não me enganam, viu Pastor?! #PézinhoNoArcoIris)

Sugiro que o pastor Marco Feliciano abra um livro de história e tente aprender sobre a África negra e a verdadeira origem da pobreza. Sugiro que ele tenha a oportunidade de ouvir homossexuais e cientistas, de modo que ela perceba que heterossexuais também têm AIDS , que também são “normais”, que seus sentimentos não são podres, criminosos e, muito menos, voluntários . Sugiro também que ele releia a bíblia e veja que pedir a senha do cartão de crédito dos fiéis é um pecado e tanto.

Fundamentalismo, machismo, racismo e homofobia apenas privam a extensão da cidadania e do respeito. Assim como Marco Feliciano acredita que a AIDS que é o câncer gay, eu acredito que a mentalidade deste senhor é o câncer do Brasil.

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Nota:Atenção, pesquisadores: A ONG Conectas acaba de lançar mais uma compilação de todos os votos do Brasil na área de direitos humanos na ONU, de 2006 a 2011. Estes anuários são uma fonte de referência para quem acompanha a política externa brasileira. Disponíveis para download gratuito ou leitura on line no Issuu.

Bandido bom é bandido morto

Por Maíra Souza

Essa semana li um texto que me provocou um inicio de úlcera. Compartilhado por mais de 40 mil pessoas e com quase 10 mil curtidas, o texto de suposta autoria do Arnaldo Jabor (duvido que seja mesmo dele) discorre as razões pelas quais o Brasil “não vai pra frente”, como se fosse aquele MITO ou VERDADE do Fantástico.

Em alguns parágrafos, o autor afirma que o brasileiro é babaca por pagar uma fortuna de impostos e ainda dar esmola para pobres na rua, e por “aceitar que ONG’s de direitos humanos fiquem dando pitaco na forma como tratamos nossa criminalidade”. Em seguida, o texto afirma que a maioria das pessoas que moram em favelas não são honestas e trabalhadoras, pois “muito pai de família sonha que o filho seja aceito como ‘aviãozinho’ do tráfico para ganhar uma grana legal”, e que se a maioria da população da favela fosse honesta, não haveria bandidos lá, pois os moradores não seriam coniventes com os criminosos. Além disso, o texto diz que não há da democracia no Brasil porque a maioria da população acha que bandido bom é bandido morto, e que quem é contra a execução de um bandido não passa de uma “minoria barulhenta e hipócrita” que sucumbe o inteligente povo brasileiro, transformando o Brasil numa anarquia (oi?).

Posso soar arrogante e ser muito xingada no Twitter, mas não encontro nenhum sinal de lógica, inteligência ou efetividade na promoção de um genocídio prisional ou algo que o valha, ao invés de enxergar o problema um pouco mais além do que passa no Cidade Alerta. Da mesma forma, não vejo coerência em ser a favor dos direitos humanos para apenas uma parcela da população – aquela do bem, defensora dos valores da família, da moral e pagadora de impostos: os guerreiros da classe média conservadora.

Como o Pão comentou na semana passada, quem defende essas opiniões usa sempre aquela frase de efeito: “queria ver com seu filho, com seu pai, ou com um de seus irmãos… O que você faria?”. Sugiro um olhar um pouco menos raso antes de criticar a galera que “defende bandido” e menos obtuso para a questão da criminalidade e do sistema prisional antes de propor um incêndio na cadeia. Acredito que enquanto houver esta mentalidade, não haverá nenhuma mudança na segurança urbana, no sistema penal e, tampouco, justiça social.

A inadmissibilidade dos direitos humanos para alguns está de acordo com a doutrina do ídolo nacional Capitão Nascimento, das ditaduras, ou da sociedade escravocrata de outrora. Poucas pessoas se preocupam em ver e em entender o por que determinado individuo “desumanizou-se”, por que o pivete não se comporta como uma criança normal, por que o ladrão roubou, por que o delinquente transgrediu-se, e por que o marginal não sai das margens da sociedade. Não creio que a haja uma homogeneidade de histórias de vida e de caminhos que os indivíduos possam traçar, mas as opções de fuga se reduzem quando não há educação; quando a violência e a agressão foram os valores que o adulto de hoje recebeu desde o berço; e quando não há meios de inserção econômico-social para todos.

Gostaria de deixar claro que não defendo a ideia de que as camadas menos favorecidas da sociedade sejam forçadas a entrar para o crime, assim como não acredito que a figura do bandido não exista no rico, pois penso que o ser humano por si só é capaz de cometer atrocidades e crueldades – independentemente da classe social. Também não penso que todo criminoso seja um órfão das Chiquititas e que deva receber diariamente chocolate quente na cama.

Porém, sou consciente da existência de um círculo vicioso, de desigualdade de oportunidades e da privação de liberdades – de escolha, de propriedade, de adquirir bens, de ir e vir etc. -, e que não se pode usufruí-las sem a grande força motriz do sistema capitalista: o dinheiro. Quando essas possibilidades são comprimidas e/ou suprimidas, qualquer um pode optar por caminhos mais curtos, como o crime organizado, narcotráfico, roubo, furto, jogos ilegais, pirataria, e uma série de outras vias de acesso que não estão legitimadas na lei.

O sistema penitenciário, por sua vez, não está imune à primazia do dinheiro nas relações  sociais, pois ele é reflexo dos demais âmbitos da sociedade brasileira: um ambiente muito fácil de ser corrompido, com subornos, hierarquias, trocas de favores e, inclusive, execuções em prol da incessante luta pelo poder. Embora haja a tendência em encarar a prisão como um ambiente delimitado e excluído do “mundo real”, ela não está alheia a nenhum de nós. A prisão acaba sendo um “não-lugar”, um canal e um meio em que se dão diversas relações de poder, onde quem manda está dentro ou fora das celas. Prender ou matar não elimina a criminalidade, mas a alimenta.

Enfim, ninguém tem o direito de negar ao outro o direito de sobreviver, de lutar por sua liberdade, de não ser preso sem provas, de ter torturado etc. O tratamento indigno e as condições de superlotação, por exemplo, são punições que levam qualquer um a desvalorizar a vida, e que também refletem a falência e o fracasso dos modelos de “tolerância zero”, do “tapa na cara pra aprender” e do pagamento na mesma moeda. O índice de 60% de reincidência de ex-dententos prova que a experiência adquirida na prisão não desvincula o indivíduo das atividades criminais e não incentiva a um caminho alternativo. É preciso um sistema penitenciário que não tente empurrar os criminosos para baixo do tapete, que dialogue e que promova programas de educação e profissionalização eficientes, a fim de fomentar novas oportunidades.

Fecho o texto com um trecho de uma música do Racionais Mc’s: “Miséria traz tristeza, e vice-versa. (…) Não importa, dinheiro é puta, e abre as portas. E em São Paulo, Deus é uma nota de 100.”

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Coronel Telhada, o defensor dos Direitos Humanos

Por Leonardo Calderoni

Durante a campanha para a prefeitura, José Serra afirmou que Coronel Telhada, candidato que viria a ser eleito vereador com uma expressiva votação pelo PSDB, era um “defensor dos direitos humanos”. Ontem, fomos agraciados com uma alegre notícia. E não é que o Partido da Social Democracia Brasileira aparentemente concorda com o seu ex-candidato a prefeito? Segundo informações do Estadão, o partido provavelmente indicará seu votadíssimo coronel para a Comissão de Direitos Humanos da Câmara. Uma comovente coerência de nosso grande representante partidário da “social democracia”.

Se pensarmos bem, o causo até que é engraçado. Porque é mais ou menos como alguém indicar o Silas Malafaia para compor a Frente Pelos Direitos LGBT. Ao que me consta, os milhares de admiradores de Telhada, quase todos eles portadores do que poderíamos chamar de “complexo de Capitão Nascimento”, são justamente aqueles que odeiam a “turma dos direitos humanos” que “adoram defender bandidos” e são os grandes culpados pela falta de segurança na sociedade.

Essas mesmas pessoas são aquelas que entoam velhos e não obstante atuais jargões como “bandido bom é bandido morto”, que acham uma tremenda frescura crer que a criminalidade tem causas sociais e assim por diante. Ou seja: as pessoas votam nele e apoiam-no justamente porque ele desrespeita os direitos humanos! Mas em nome, é claro, da nobre causa que tudo justifica na paulistolândia: “matar os bandidos”. E, nesse quesito, ninguém pode questionar a competência de Telhada. Para quem não sabe, o sujeito foi comandante da ROTA e matou nada menos do que 36 suspeitos durante a sua carreira de policial. É um fenômeno.

Claro que, para fins de formalidade jurídica, Telhada já disse que todas estas mortes foram “dentro da lei”. Difícil de acreditar quando o mesmo sujeito incita a violência no Facebook e publica, sem pudor, coisas como “que chore a mãe do bandido, porque hoje o bote é certo” e “esses meliantes acham que mandam. Tá na hora de por o fuzil pra cantar, eu tô muito indignado!”. Mas o mais revelador foi quando alguém o questionou quanto às provas que o levavam a acusar sumariamente algumas pessoas de terem cometido um delito e ele respondeu: “Você acha que um PM da Rota vai postar alguma mentira?” (ou seja, policiais da ROTA não precisam explicitar suas provas impessoais; sua palavra basta). Realmente, tendo a sua palavra como prova de culpabilidade e com a facilidade com que policiais podem alegar “resistência seguida de morte” hoje em dia, é fácil matar 3 dúzias de pessoas “dentro da lei”.

O triste é que não vejo no horizonte uma mudança de mentalidade nessa sociedade que permite que pessoas como Telhada existam e sejam premiadas politicamente por discursos e ações que deveriam colocá-lo na cadeia. Acho que as “pessoas de bem” continuarão a legitimar nossos Capitães Nascimentos, seja por desinformação, medo ou por serem deliberadamente fascistas. Ou talvez um dia, se o Coronel Telhada declarar-se favorável à legalização do aborto, muitas dessas mesmas pessoas não hesitem em chamá-lo, por uma motivação turva, pelo que realmente ele é: um assassino.