FASCISMO DE ESQUERDA INVADE UMA AULA NA SÃO FRANCISCO, INTIMIDA PROFESSOR, IMPÕE-SE PELA FORÇA BRUTA E SE QUER ARAUTO DA LIBERDADE – Reinaldo Azevedo, poeta

(Para entender o texto por completo, leia o artigo homônimo de Reinaldo Azevedo).

Eu não invadi a Reitoria quatro vezes na USP.

Eu não invadi o espaço do Crusp ocupado pela área administrativa da universidade.

Eu não fiz miguelito — porque não era do ramo e não sei do que se trata.

Mas apoio o que vocês verão abaixo. Apoio! Esses professor não sabe o preço da liberdade. Não sabe o que é se arriscar por ela. Não está preparado para a divergência.

Esse grupo — não sei se com o apoio do Centro Acadêmico 11 de Agosto — resolveu simular cenas de tortura na porta da sala de aula e, em seguida, a invadiu. Eu não convoquei muita greve na USP, deixo claro. Mas não bateria à porta. Não pediria licença ao “mestre” — a minha orientação é para não chamar o professor de mestre — para falar. Se ele permitisse, muito bem, daria o recado; se não, não agradeceria e não pediria desculpas pela interrupção; daria o recado. Procederia daquele modo não porque o país é uma democracia, mas porque a Universidade é um espaço de debate que abrange muito mais do que uma mera aula diária, um monologo ditado por um “mestre” de cima do seu púlpito.

Reitero: trata-se de concordar ou não com a tese do professor. Por razões teóricas, históricas e até sentimentais, eu discordo profundamente dele, e estou certo de que é assim que se fazem as coisas.

Cabe a pergunta óbvia: esse grupo tentou censurar o professor da São Francisco? Quem definiu o limite do que pode e do que não pode ser feito em sala de aula? Um professor ignorante e truculento conseguiu, finalmente, realizar o que nem o golpe militar conseguiu: eliminar, também no conteúdo, o debate inclusivo na Universidade.

É claro que esse professor, vê-se pelas ideias, participou da ditadura militar no país; é claro que ele só agiu de modo tão covarde porque sabia que não haveria consequências; é claro que ele só foi tão bruto porque sabia que lhes iam conceder uma licença para ser truculento e que ele não concederia a quem considerava adversário o direito de falar. É claro que ele só agiu desse modo porque sabia que o maior risco que lhe correria seria um bom cargo no governo militar.

“Ah, Marko, jovem de 24 anos, quer ensinar o professor?” Eu quero ensinar sim. Segundo o meu entendimento de ditadura, só os idiotas e os ignorantes têm direito à voz e ao voto. Civilidade e senso de limites dependem, em larga medida, do que se pensa. E não passa a ser função do que se pensa só quando o que se tem em mente é um regime totalitário. Faço uma pergunta que o nobre Reinaldo Azevedo não fez: devemos ignorar os intolerantes?

Vejam lá o que diz o professor. O professor não acredita no valor da palavra e do debate. Ele aposta é no cassetete. Acha que, se os “inimigos” estiverem sendo humilhados, na força bruta, silenciados, então é sinal de que a luta avança. Esse cara lembra que todos os inimigos foram eliminados quando a sua ideia triunfou e que os vitoriosos puderam fazer a caçada do povo livremente — porque esse é o destino fatal de todas as ditaduras que impõem a sua verdade silenciando as demais: do Chile de Pinochet ao Brasil de Costa e Silva.

A crise do pensamento não é mais geral. Eu vivi, felizmente, o afloramento do pensamento no Brasil. O gosto pela formação não foi substituído pelo voluntarismo. Se lê mais, se estuda mais, se pesquisa mais ainda. Ao invés de fazerem isso, certos jornalistas rosnam e praguejam.

Um professor como esse deveria mobilizar os alunos, o Conselho Universitário, a direção da universidade, o Centro Acadêmico — que, consta, e espero que seja verdade, apoiou essa manifestação por um Brasil livre da ditadura.

Sinto-me envergonhado – a tal da vergonha alheia – ao assistir a esse vídeo. Fico um tanto constrangido até de escrever a respeito. Qual é o grau de tolerância desse professor para com as ideias das quais ele discorda? Será que ele acha que o lugar da mulher é na cozinha? E o do negro, na senzala? Será que ele sente falta da ROTA na rua? Será que ele acha que pobre é vagabundo?

Mas sabem como é… Aquele professor deve pensar assim: “Eu acho que esses alunos não sabem do que estão falando. Para provar que eu sei, eu saio da sala de aula e não os escuto.” E ele não vê nada de errado em seu raciocínio. Ele se considera um progressista.

Se há professores felizes com o que viram — e certamente há — aviso o óbvio: vocês não entraram na fila do escracho; não chegará a vez de vocês. O ato não foi um golpe militar e a ditadura não voltou. Vocês simplesmente viram uma manifestação não-violenta de ideias, um debate universitário, uma cena teatral de efeito. Vocês viram o resultado de um professor proclamar uma ode à ditadura militar mais sanguinária da América do Sul em uma das Faculdades de Direito mais respeitadas do país. E tenha certeza de que muitas pessoas não vão parar de reclamar, para não falar do poeta Azevedo.

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Aos que não esquecem

esparrela

Por Hannah Maruci Aflalo

 Na história e em muitos lugares do mundo há, e sempre houve, ditadores que são cegamente idolatrados por uma população. Hitler foi amado, assim como Mussolini. E não poderia ter sido de outra forma, não é novidade que um homenzinho isolado não conseguiria mobilizar uma sociedade inteira caso essa não quisesse. Todo governo, seja ele ditatorial ou não, é constituído por uma relação amorosa recíproca: apaixonados pelo poder, de um lado, apaixonados pela servidão, de outro. Em outras palavras, só há governo se há quem queira governar e quem queria ser governado. Mais doloroso é admitir que só há ditadura se uma grande parcela da população a aceite e a deseje. Portanto, toda ditadura é, acima de tudo, civil – pouco importa se o golpe foi militar.

Mês passado, no dia 11 de setembro, foram lembrados os 40 anos do início da ditadura chilena (e o atentado às torres gêmeas, que com certeza ganhou maior destaque, mas isso não vem ao caso). O ditador Augusto Pinochet matou oficialmente 40.280 pessoas. Oficialmente. Pinochet, no entanto, é só osímbolo de um período tenebroso na história do Chile. Tenebroso não porque um homem louco resolveu sair matando gente. Isso sempre existirá em qualquer sociedade. Mas tenebroso porque se esse número de pessoas morreu, desapareceu ou foi desaparecida é porque um outro número significativo de pessoas contribuiu para isso: torturando, delatando, ou “apenas” se omitindo.

Hoje, no entanto, o combo reformas econômicas + caça aos esquerdistas ainda é sedutor para aqueles que DEFENDEM Pinochet. Mas esses não merecem mais que uma linha. Deixemos espaço para aqueles que são tão pouco lembrados: os que não se omitiram, que não suportaram, os que resistiram. Em uma visita à Santiago, no mês passado, conheci o Museu da Solidariedade Salvador Allende. Esse museu foi fundado em 1970 em solidariedade ao governo de Allende, uma vez que esse havia sido o primeiro presidente marxista ao chegar no poder. O que se iniciou como um culto a um líder, seja ele marxista ou não, a partir do golpe, em 1973, principalmente, se transformou em um museu de resistência. Os artistas, que haviam doado sua obras desde 1972, continuaram as doações, mesmo com a ditadura instituída, as quais eram escondidas ou no Museu de Belas Artes ou no Museu de Arte Contemporânea. Aqueles que eram exilados mantiveram as obras em suas casas, como uma resistência ao que estava acontecendo no país. Fora do Chile foram criados Museus da Resistência Salvador Allende, que recebiam as doações que não chegavam no Chile.

Atualmente, todas essas obras estão reunidas em um casarão que abriga o Museu da Solidariedade Salvador Allende. Além das obras do período da ditadura, estão lá também obras recentes: depoimentos, pinturas e instalações que dão voz para aqueles que de alguma maneira viveram a ditadura. Assim como a ditadura não foi feita por um homem só, acredito que a resistência, nesse caso, também não foi. Salvador Allende acaba sendo também um símbolo, mas o símbolo de algo potente. Esse é o museu dos que resistiram, dos que resistem e o dos que não esquecem e não deixam que seja esquecido.

A verdade.

Morreu hoje aos 87 anos o ex-ditador argentino Jorge Rafael Videla.

Videla estava na prisão desde 2010, cumprindo perpétua por ter cometido crime contra a humanidade – ele foi condenado pela morte de 31 pessoas entre 1976 e 1983. Calcula-se que, neste período, 30.ooo pessoas foram torturadas e mortas na Argentina. O general Videla já havia sido condenado à prisão perpétua em 1985, mas foi perdoado pelo ex-presidente Menem, que lhe concedeu uma anistia na época.

Disse a esposa de um militar que ele morreu dormindo – dados judiciais informam que ele foi encontrado morto no banheiro, já que desde o dia anterior estava com problemas estomacais.

De uma forma ou de outra, um fim pacífico. Privilégio do qual suas 31 vítimas diretas não puderam usufruir.

Apareceram no meu Facebook várias comemorações pela morte do ex-ditador. Alguns amigos comentaram que iriam abrir um champanhe, outros que era um dia feliz.

Eu não sinto alegria alguma com esta notícia.

A morte de Videla não vai trazer de volta 31 ou 30 mil. Não vai fazer aparecer os desaparecidos. Não vai apagar a mágoa.

….

Ontem, cá no Brasil, a Comissão da Verdade ouviu o ex-militar Valdemar Martins de Oliveira, que relatou os acontecimentos que levaram à tortura e assassinato dos meus primos, Catarina Abi-Eçab e João Antônio Santos Abi-Eçab.

Cátia, como era carinhosamente chamada, e João Antônio foram assassinados pelos militares, que  forjaram um acidente de carro para justificar as mortes.

Nunca os conheci. Me foi roubada essa preciosa chance, a convivência. O que conheço bem é a dor de seus irmãos, seus primos – com essa sim, convivi e convivo.

A morte não traz alegria, não traz alívio. Traz tristeza, apenas.

A justiça não alegra, embora alivie.

A verdade, esta sim, deixa o meu coração menos apertado, sabendo que a memória de Cátia e João Antônio está mais viva, e que os ideais pelo quais viveram, lutaram e morreram ainda estão vivos.

Precisamos manter sua memória e preservar tudo aquilo pelo qual eles lutaram. Inclusive, a verdade.