Um apelo à consciência

por Luís H. Deutsch

Olha que beleza, feriado no Brasil! No meio da semana… Para dar um alívio ao seu estresse.

Feriado do quê, Joãozinho?” – perguntou a professora.

Dia da Consciência Negra, professora” – respondeu o esperto aluno. “Um dia para lembrar-se de um dos heróis nacionais, o Zumbi dos Palmares. Ele salvava os escravos e botava todo mundo pra morar junto nos Quilombos.”, concluiu o garoto.

Muito bem!”, parabenizou a querida professora dando uma estrelinha azul de papel laminado para ele grudar no caderno.

Legal se as coisas fossem simples assim. Porém, em 10 anos que este feriado é aos poucos implantado em terras brasilis, muita gente ainda discute a NECESSIDADE dele. Assim como a necessidade de cotas em Universidades e concursos públicos e uma real reformulação da nossa Polícia Militar. Muita gente mesmo! Desde o pai de Joãozinho, até esclarecidos estudantes de faculdades boas que dizem que o Racismo é uma coisa que não existe nesse carnaval pós-racial que é nosso Brasil. Estes dizem que o dia 20 de Novembro deveria ser o “Dia da Consciência Multicolorida” – e não só da negra. Pois isso significaria dar BENEFÍCIOS a apenas uma parte da população.

Envergonhe-se agora se você pensa desse jeito, leitor. Você não tem consciência, isso sim. E estude mais História também.

O Brasil – desde sua origem como Colônia até um ano antes da Proclamação da República – foi um país movido a escravos. Índios e africanos. Construímos bases para uma economia agrícola poderosa a partir do suor e sangue de pessoas retiradas de seus lares e enviadas para destinos não conhecidos. Para o inferno sobre a Terra chamado trabalho escravo. Um trabalho que concluía que existem raças superiores e inferiores. E que as inferiores deviam servir ao máximo as de cima, sem o mínimo de condição humana necessária. Até quase o início do século XX era assim. Igreja apoiava, política apoiava, sociedade apoiava.

Ignorância achar que o 13 de maio de 1888 realmente quebrou todas as correntes e transformou diretamente o Brasil, num país de todos. Quase 400 anos de escravidão não é uma coisa que se esquece fácil e se muda da noite para o dia.  Estamos hoje há 125 anos da Abolição e – se tratando de História – isso é apenas um pulo. Um pulo que não foi capaz de destruir as estruturas de Casa Grande e Senzala que o país insiste em manter. As populações negras, após serem libertadas, não encontraram o paraíso do bem estar social. Foram para as margens. E lá estão mergulhadas quase que completamente até hoje. Fazem parte de uma parcela ignorada e de um Brasil que, na teoria, é uma nação mista… Mas na hora do vamos ver… Tem raízes importantes simplesmente ignoradas.

Pesquise. Quem ganha os menores salários? Quem demora mais a ser contratado e menos a ser demitido? Quais jovens morrem mais? Que história a gente aprende na escola? Quem é chamado de macaco por humorista? Que religiões são resumidas como “macumba”? Quem não consegue as mesmas chances para estudar? Quem sofre mais na pela a repressão policial e o preconceito? Quem é a protagonista da novela das 9? Quem “precisa” alisar o cabelo para “estar decente”?

Image

E o que achou das respostas? 😦

Então, aqui vai um apelo às consciências:

SIM, pelo Dia da Consciência Negra! SIM para as cotas, para a inserção cada vez mais ampla! SIM para rigor na lei e na cultura! E finalmente, SIM por uma reflexão sobre o que nós estamos fazendo para um futuro realmente igualitário e para um Brasil verdadeiramente multiétnico e multicolorido. 

Anúncios

A vida de empreguete

por Luís H. Deutsch

Ano passado, uma novela global fez sucesso juntando nos papeis de protagonistas, três mulheres que – no decorrer da trama – se transformavam em estrelas depois de anos de luta ralando como serviçais. Aliadas às músicas do trio,  campanhas para melhores condições aos trabalhadores que , fazendo o que ninguém tem tempo / tem saco para fazer, ganham a vida trampando na casa dos outros.

Na ficção, tudo muito bom, tudo muito bem. Na real life, a sujeira fica um pouco mais difícil de se limpar.

Mesmo com a recentemente aprovada PEC  (proposta de emenda constitucional), polêmicas e incertezas ainda assustam a vida de domésticas. Bem mais que uma casa de três homens solteiros pós final de semana. Na nova lei, FGTS obrigatório, horas extras, adicional noturno e auxilio-creche. É… Na teoria parece final feliz de novela mesmo. Na prática, as cenas do próximo capitulo não agradam.

Bastou saírem tais decisões e bastante gente ficou em choque. Bastante gente ficou duvidosa. Ouve-se muito em demissões desde já para evitar o mal maior – “desperdício de grana” para alguns. Dentre uma salada de babaquices, o único comentário sensato que escapa é de que vai ser complicado fazer valer esses direitos em nosso país.

Crises já afetam as não tão sadias cabeças das não tão pomposas madames que não abrem mão da criadagem, mas que também deixam fechada a mão para questões financeiras. Terão de pegar no pesado? Vida de empreguete, pegar às sete?!1 Meu deus!

Image
Classe média sooooooofre.

Estima-se que o valor médio gasto anualmente com uma empregada mensalista , levando em conta as novas premissas legais, saltará de r$ 18 para r$ 21 mil. 3 mil reais por ano.

Tá, não cabe a ninguém sair julgando como cada família pode dispor de 3 mil reais extras. Nem sair xingando seus pais de capitalistas escravagistas selvagens. Grana é grana e cada um sabe quanto tem.

Porém, as questões são:
1. O Brasil é o país com mais empregados domésticos do MUNDO segundo a OIT.
2. As regulações nacionais para se contratar um empregado eram as mesmas do que para empinar pipa (contanto que você não jogue a sua empregada na rede elétrica, ok). 
3.  Muitos, muitos, funcionários são enganados e abusados à exaustão. Ganham mal e mal podem batalhar por alguma coisa.
4. E sim, depois de quase 125 de Lei Áurea, ainda tem trabalho escravo por aqui. Acredite.

Logo, a atualização da lei é mais do que necessária. Pelo menos bem mais que a manutenção dos lucros e vantagens da nossa elite. 

Pois bem, ou comecemos a dar devido valor às pessoas que nos prestam essenciais serviços, ou comecemos nós mesmos a fazê-los. E sem cara de #chateado na capa da Veja.  

Empregado não é escravo como tem gente que ainda acredita. Por mais que seja difícil e lento, a lei vai ter que funcionar.

E por favor, nada de iludir e mandar a empregada ir em manifestação para que o patrão ganhe mais para sustentar as “mordomias” dos funcionários. Tem gente que não consegue fazer nada sozinho mesmo, né? Se nem pra passar pano no chão serve, pra protestar nem se fale…