A história da humanidade ainda se escreve nas paredes

Por Fernando Rinaldi

 

No momento em que escrevo este texto, vai chegando à reta final a décima primeira edição da FLIP, que este ano prestou homenagem ao escritor alagoano Graciliano Ramos. Tendo já visto comparecido duas vezes a essa que é a mais famosa festa literária do Brasil, lamento por não poder ter podido ir desta vez. Consegui assistir a uma ou outra palestra pela transmissão simultânea, o que não se compara a estar lá, de corpo e alma presentes. E não se compara porque algumas das melhores partes do festival literário ocorre não dentro da Tenda dos Autores, mas ao redor dela – e isso não pode e nem poderia ser transmitido via internet. Enquanto escritores, críticos e artistas célebres discorrem sobre as assim chamadas alta literatura e alta cultura, músicos, atores, pintores, escritores de literatura de cordel, palhaços, estátuas vivas, artesãos e poetas independentes mostram sua arte nas ruas e encobrem a cidade de uma atmosfera lírica e sensorial.

Eric Hobsbawm, em seu livro publicado postumamente, Tempos fraturados, dedica um capítulo – que é, na realidade, a transcrição de uma palestra dada em 2006 no Festival de Música de Salzburg – a discorrer sobre os festivais. O historiador afirma que eles parecem florescer bem em pequenas cidades, pois nelas se instaura um espírito comunal entre todos os presentes. Bem, é exatamente isso que ocorre em Paraty: embora os holofotes mirem nomes como Enrique Vila-Matas, Ian McEwan, Jonathan Franzen, Antonio Candido, Milton Hatoum, Chico Buarque, João Ubaldo Ribeiro, Valter Hugo Mãe, Davi Arrigucci Jr., Alessandro Barrico, Roberto Schwarz, Amós Oz, J. M. Coetzee etc., eventos e manifestações artísticas paralelas convivem perfeitamente bem com as atrações principais e também chamam a atenção dos visitantes de uma cidade embebida de sons, cores e poesia.

Não é minha intenção aqui estabelecer uma distinção entre a arte dos escritores nacionais e estrangeiros cujos nomes são de conhecimento de todos e a arte dos anônimos que encantam os paralelepípedos de Paraty, muito menos compará-las. Em verdade, os tempos são confusos para as artes de um modo geral, como Duchamp já antecipou com a criação do conceito de ready made. A máxima de Baudelaire de que metade da arte é o efêmero e a outra metade é a eternidade parece não mais capturar os fenômenos artísticos contemporâneos em sua totalidade.

Além de muitos objetos artísticos terem-se transformado em produtos descartáveis, os produtos, os objetos de nossa vida cotidiana se transformaram, num certo sentido, em objetos artísticos. Pois que a beleza é uma estratégia eficaz de veiculação de afetos a uma determinada marca ou a um determinado produto, o capitalismo é um sistema que, para sobreviver, precisa se amparar na estética dos produtos a serem consumidos pela massa. E, como se sabe, ética e estética são conceitos indissociáveis.

A arte de rua, ou a arte que se faz na rua, tem uma relação outra com o mercado: ela recua da industrialização da cultura e propõe uma expressão estética capaz de tocar nossa sensibilidade breve e intensamente. Ela se dá no espaço comum dos homens, sendo, portanto, completamente democrática. Se bem que em Paraty, durante a FLIP, ela se concentre num espaço-tempo reduzido, não é preciso sair da cidade onde se vive para notar sua existência. Ela está presente em todas as cidades do mundo, chamando nossa atenção para o que provavelmente não somos capazes de ver no cotidiano, atravessando nossas vidas práticas e as questionando. É verdade que, em grandes metrópoles, não encontramos a todo o momento com esses artistas, mas o que eles têm a dizer – muitas vezes um grito dos excluídos socialmente – está nos muros para quem tiver olhos límpidos.

Por falar em muros, Hobsbawm afirmou em outra palestra presente no mesmo livro citado acima que “o muro que separa cultura e vida, reverência e consumo, trabalho e lazer, corpo e espírito, está sendo derrubado”, palestra que ele terminou dizendo não saber responder para onde vão as artes – e alguém sabe? Uma coisa, porém, é certa: embora o modo como se faz e como se percebe a arte possa ter mudado, a história da humanidade ainda se escreve nas paredes, como dizia uma frase que eu li recentemente num muro de São Paulo. E as ruas certamente continuarão a ser o palco dessa história, seja em Paraty, São Paulo, Berlim ou em Tóquio.

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