Golaço

por Luís H. Deutsch

Olha, mano. Nunca gostei do Emerson Sheik. Deveria estar figurando na lista das últimas pessoas que defenderiam o cara. Por quê?

Primeiro porque ele meteu um puta golaço no Santos na semi-final da Copa Libertadores de 2012. Isso ajudou e muito o meu time a ser eliminado da competição naquele ano. Depois, ele meteu 2 no Boca na final do torneio intercontinental o que acabou de vez com a maior piada do futebol mundial e levou o Corinthians ao título o qual achei que eles nunca iriam ganhar (e o qual eu torci contra desde sempre).

Aliado a isso, achava o cara sem graça e que fazia o que fazia para aparecer. E era mesmo.

Jogadores de futebol, em sua ampla maioria, fazem coisas para aparecer. Nisso envolve:

Casamento relâmpago

Problemas com pensão alimentícia

Ter quadro no Fantástico para perder peso

Posar pelado

Ou ter uma macaca de estimação, como o próprio Emerson.

Muitas vezes, eles chamam a atenção para coisas bem fúteis. Fica a risada, foge a discussão. Só que dessa vez o Sheik marcou um gol de placa. Fez piada para aparecer, apareceu e deu o que falar. Colocou uma ingênua foto no Instagram dele dando um selinho em um brother e isso já foi o suficiente para a polêmica de programa da tarde e para os programas esportivos do almoço terem ampla pauta de fofoca inútil notícia.

“Foi uma brincadeira, qual o problema?”.

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Qualquer sociedade minimamente civilizada falaria isso. “Olha que legal! kkkk Uma foto dele com o amigo / namorado / irmão… Vou dar um like.” 

Mas… A hipocrisia vence. Faz falta dura, perto da área… Daquelas de deixar a gente nervoso. Não toma cartão amarelo, nem vermelho. Faz gracinha e ainda vence o jogo. Sai de campo tranquila e ainda joga na semana que vem.

O feito do Sheik é uma tentativa de calar a boca da parcela acéfala de profissionais e amantes do futebol. Aqueles que dizem que não são homofóbicos, mas no clube deles / na família deles / dentre os amigos deles NÃO pode ter “viado”. Aqueles que acreditam realmente que entre milhões de homens que jogam ou trabalham com esse esporte não tem nenhum homossexual e que todos são machos alfa exemplares, que constituem uma família casando com a oficial e comendo toda piriguete que der sopa. Aqueles que concordam que futebol é coisa de menino… Que gay não sabe jogar porque é uma boneca e vai se apaixonar pelas coxas do jogador adversário… Que mulher que joga bola é “sapatona” e a bandeirinha gostosa que está trabalhando no jogo tem a obrigação de sair com algum jogador (ou jogadores) depois dos 90 minutos.

A idiotice deste meio é mais difícil de se vencer do que o Barcelona (ô time desgraçado). Não vem só de trogloditas que ocupam o CT do Corinthians com faixas homofóbicas mandando um dos ídolos do Timão ir beijar a PQP. Vem também de jornalistas, dirigentes, técnicos e juízes… Pessoas das quais a gente esperaria atitudes mais civilizadas e não vistas grossas ou declarações infelizes. Realmente, alguns estão mais perto de criar grupos de extermínio

Sheik fazendo o que a Hebe fazia, marca um gol daqueles que a gente pede replay, acha legal e comenta no dia seguinte. Tivéssemos já vencido o tradicionalismo idiota e esse selinho (que nem BEIJO de verdade é) passaria completamente despercebido. Mas está aí um título que o Brasil ainda não garantiu. Nem dentro, nem fora dos campos.

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Teatro Sírio

por Luís H. Deutsch

A França tem certeza que a Síria está usando gás tóxico contra os rebeldes que querem tomar o governo. A Rússia envia não sei quantos mísseis e equipamento anti-aéreo para Bachar-al-Assad. A ONU condena, os EUA dizem que chega-se a um limite. Israel põe-se alerta para um iminente ataque. A Turquia também.

Todos participam da Conferência dos AMIGOS da Síria. Querem o “bem” do país.

Enquanto os atores principais de uma sangrenta e infeliz peça desenvolvem seus personagens, hipócritas e completamente artificiais, a Guerra Civil na Síria ultrapassa 2 anos e chega a um número de mortos superior a 90 mil.

Quase 100.000 seres humanos que perderam suas vidas devido a um conflito pertencente à Primavera Árabe, que já virou outono, inverno, verão, sangue, bomba, estilhaço e tudo que possa imaginar, menos com a estação das flores.

Diante do tabuleiro internacional de interesses, vemos promessas vãs da construção de um Corredor Humanitário e vemos engessada a ação de organizações prol vida (como a Cruz e o Crescente Vermelho). Porém, vemos principalmente o diabólico jogo de nações. Interessadas em tudo, excluindo o real bem do povo sírio.

Sabemos de cor e salteado que as motivações para uma intervenção na Síria, partindo dos EUA não são 100% boas. Não dá pra levar em consideração um país que – ao mesmo tempo que condena a Síria –  apoia outros países tão violentos quanto, como os emirados, a Arábia Saudita.. Além do que, o retrospecto não ajuda o Tio Sam. Iraque e Líbia que o digam.

A Europa vive sua contradição de sempre. Quer ter uma posição alternativa, mas acaba no capacho norte americano. Ousa arriscar suas fracas economias e sua instabilidade política em uma empreitada bélica. Não deveria.

Mais para o Oriente, na Rússia… A sincera posição acaba por tornar mais violento o conflito. Armas de ponta enviadas, exército cada vez mais armado e matando cada vez mais gente. Israel e os países vizinhos atentos, prontos para apertar os temidos botões vermelhos.

No meio de tanta discussão, de tanta preocupação… Mais uma bomba cai no centro de Damasco. Morrem mais 50. O número de almas perdidas por dia aumenta, com ou não a utilização de armas químicas. O povo lá dentro não está pensando nisso. Pensam em sobreviver enquanto assistem ao cabo de guerra das “grandes potências”. Se já está claro que a ditadura síria não sobreviverá nunca mais naquele país e que a transição política é obrigatória, está claro que sua população vive em um estado terminal.

Os detentores de poder mundial não querem abrir mão de controladores da paz Cada um quer resolver a “pendência” de um jeito. Não conseguem cooperar. Só falta um “estopim” e teremos nossa III Guerra. Exagero?

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Exagero é o tamanho da arma que esse senhor empunha, o tamanho da destruição, o tamanho de número de mortos e a tamanha ambição existente nesse planeta.

O teatro sírio ganha traços cada vez mais dramáticos, pois é cada vez mais assistido sem despertar quase NENHUMA indignação coletiva. Vira um suspense de terror, com um horripilante e denso roteiro capaz de virar um daqueles filmes… Aqueles que assistimos já por duas vezes.

Sou a favor da inclusão do curso de Relações Internacionais no Ciência sem Fronteiras

por Luís H. Deutsch

Sou a favor da inclusão do curso de RI no Ciência sem Fronteiras. Trabalhei na seleção e na implementação da bolsa para centenas de bolsistas CsF para a França, sempre tive inveja e quis aproveitar pra fazer meu intercâmbio necessário pro meu currículo e ao mesmo tempo tomar os bons drink e comer os bons queijos com a grana do contribuinte.

Infelizmente, em alguns casos, na argumentação da defesa da não inclusão do curso de Relações Internacionais no âmbito do Programa Ciência sem Fronteiras, tremulam as bandeiras da meritocracia e a do reducionismo. E não, não estou falando isso por que sou um “gauche que vai contra qualquer abuso imperialista que alguém de direita fala”.

Em primeiro lugar, se nem o mundo não se divide em dois desde o famigerado fim da Guerra Fria, por que ainda insistir em dividir pessoas em apenas dois grupos? Direita não é mais derecha, ex-querda não é mais esquerda. URSS não é mais comunista, EUA agonizam para continuarem a dar as cartas. Quem sustenta que o planeta é bipolar e que tudo que existe nele OU é xis, OU é ípsilon já é praticamente considerado peça de museu e de tese de mestrado em antropologia.

Classificar pessoas (que já são completamente inclassificáveis por natureza) de um curso tão abrangente quanto Relações Internacionais (mais inclassificável ainda) em dois grupos já é o primeiro erro.

Quem garante que todo mundo em uma faculdade renomada vem de escola renomada? Quem garante que em faculdade menos renomada só tem classe C e B sufocada pelo governo extremamente social? Um país e uma sociedade tem uma gama de realidades que nem jornal , nem pesquisa e nem blog nenhum jamais conseguirão definir.

Dizer que seria desperdício de imposto dar dinheiro a estudantes de RI (a das Ciências Humanas em geral) que querem um ano sabático fora do país para tomar vinho barato na Europa ou conhecer Aspen é simplesmente reduzir o interesse e a ambição de milhares de jovens em simplesmente subir na vida. Em experimentar o mundo.

Ou seja, engenheiro mecânico pode gostar de carro, o veterinário de animal… E o estudante de RI não pode gostar de viajar?! E se gostar, Deus queira que ele seja rico, ou ele que se mate e se vire e revire em dobro para conseguir um financiamento impossível? Afinal, dinheiro público não foi feito para ser jogado na mão de um oportunista. Que sejam então vangloriados somente os estudantes das ciências exatas, pois esses não estão em dois grupos distintos e esses são os verdadeiros merecedores de benefícios públicos, pois estes que sabem fazer conta de cabeça, controlarão nossos computadores e construirão nossos prédios.

Blá… Está aí a hipocrisia. Quando a lógica do “eu mereço” vira a arma de destruição em massa numa guerra completamente desigual entre as pessoas que se deram bem e continuarão a se dar bem na vida pessoal e profissional, contra pessoas que lutam por oportunidades iguais a que só alguns grupos sempre tiveram.

O problema é essa máxima de que todo mundo tem o mesmo objetivo na vida mesmo num local onde existem condições individuais diversas. Excelentes para poucos. PÉSSIMAS para muitos. A merda é o pensamento de que “Se você não chegou lá, é porque não fez por onde. Agora espere um revolucionário da Zona Oeste / Zona Sul lutar por você em vão”.

O Programa Ciência sem Fronteiras é um dos raros casos que mistura o “eu mereço” com  o “eu também quero e posso” – ainda que restrito às áreas lucrativas e aquelas que podem resolver nossos gargalos. Ele dá oportunidade a jovens estudantes e doutorandos que têm um projeto de pesquisa, uma iniciação científica e participação na Universidade. Gente que quer ter futuro e não só encher a cara de bebida e sexo no Erasmus. E dane-se se a pessoa é rica, ou pobre, “primeiro ou segundo grupo”. O importante é a experiência valorosa e duradoura que a vivência internacional faz na cabeça e na carreira de alguém. Não é só jogar R$ 30 mil na conta de uma criança e mandar ela se divertir lá fora. Viver o mundo é um direito de todos e não um luxo. E no caso de estudantes de Relações Internacionais, chega a ser obrigatório para formar profissionais no mínimo mais comprometidos em formalizar uma área tão importante e carente de pessoas que a defendam.

No mais cru de seus significados, a palavra ciência significa conhecimento. E um país que dá valor a isso está no caminho certo. Portanto, que o conhecimento sem fronteiras seja abrangente a todos os estudantes. Enquanto não houver tal universalidade, está aí o único defeito desse bagulho todo

Exemplos Unidos da América

por  Luís H. Deutsch

Dia vem, dia vai… E cresce mais a consciência (pelo menos pra mim) de quão grande pode ser a hipocrisia do país mais influente e poderoso do nosso globo.

A terra dos sonhos hollywoodianos, do cosmopolitismo nova-iorquino e das paisagens dos verões californianos é ainda objeto de desejo para muitos de inegáveis lugares para se conhecer. Para se conhecer. Porque morar…

A coleção de gafes, filha da putices e interferências, além de desrespeito à vida e ao homem é de perder de vista. Até os livros mais ingênuos e rasos de história mostram o quanto foi prejudicial quase toda a política norte-americana.

Mesmo assim. O conservadorismo insiste em eleger os EUA como o grande farol da civilização. E ainda diz que os esquerdistas e comunistas que vivem atrelados ao passado da Guerra Fria. Mal sabem essas pessoas que esse farol tá mais capenga que os trens da CPTM e que essa luz só guia a galera pro mal exemplo.

Duvida-se ,  e com razão, que a capa da revista mais lida nesse país faça alusões tão negativas como as que fez ao Chávez, quando George W. Bush for desse para o outro mundo. Herança maldita, mal exemplo? Magina… No máximo o chamarão de “polêmico”.

O olho único da critica mundial esquece a Guerra do Iraque, que completa 10 anos nesse 2013 sendo um fracasso humanitário e político. Esquecem as medidas econômicas adotas e impostas guela abaixo pelo mundo todo que mergulharem quase esse mundo todo na nossa pior crises desde 1929. Esquecem. Ou melhor, não olham porque ficam cegos olhando pra luz que sai do “grande farol” do Tio Sam.

Outros exemplos se unem para comprovar a tamanha incapacidade das antigas 13 colônias em liderar o mundo. Entre elas o apoio a ditadores do petróleo do Oriente Médio e África, as torturas em Guantánamo e a incessante busca ao homem que quer evidenciar ao mundo os podres americanos. Protestar contra o país? Just in Cuba – diriam eles.

Fora os paradoxos irritantes e inapropriados. O imperialismo no Sudeste Asiático e América Central com fins “pacíficos”. O forte lobby da arma num lugar onde assassinos psicopatas em massa proliferam como doença. O lobby da coca cola com 6 colheres de sopa de açúcar por copo num lugar onde a obesidade é DE FATO uma epidemia… E para não esquecer: a falta de auxilio saúde no dito primeiro mundo.

Enfim, depois desses exemplos unidos da América, não há como ter admiração a uma potência, a uma nação que insiste em justificar o retrógrado destino divino para tentar salvar o planeta.

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Salvar o planeta de quem, homem branco?

Só for deles mesmos.

Vimos que o destino dá cabo aos que tentaram isso. Pragas aos faraós, perecimento à Roma, guilhotina aos franceses, primavera aos árabes. Para os States, só resta esperar pra ver.