Pergunte às Bee – Orgulho Hetero

O Pergunte Às Bee é um web programa onde Jessica e Victor, dois jovens gays, se reúnem para responder (com muito humor) dúvidas sobre o universo LGBT.
Nesse episódio de outubro, eu, Maíra Souza, conversei com a Jessica e o Victor sobre a onda do “orgulho hétero” e a dura vida de um heterossexual na sociedade.

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Golaço

por Luís H. Deutsch

Olha, mano. Nunca gostei do Emerson Sheik. Deveria estar figurando na lista das últimas pessoas que defenderiam o cara. Por quê?

Primeiro porque ele meteu um puta golaço no Santos na semi-final da Copa Libertadores de 2012. Isso ajudou e muito o meu time a ser eliminado da competição naquele ano. Depois, ele meteu 2 no Boca na final do torneio intercontinental o que acabou de vez com a maior piada do futebol mundial e levou o Corinthians ao título o qual achei que eles nunca iriam ganhar (e o qual eu torci contra desde sempre).

Aliado a isso, achava o cara sem graça e que fazia o que fazia para aparecer. E era mesmo.

Jogadores de futebol, em sua ampla maioria, fazem coisas para aparecer. Nisso envolve:

Casamento relâmpago

Problemas com pensão alimentícia

Ter quadro no Fantástico para perder peso

Posar pelado

Ou ter uma macaca de estimação, como o próprio Emerson.

Muitas vezes, eles chamam a atenção para coisas bem fúteis. Fica a risada, foge a discussão. Só que dessa vez o Sheik marcou um gol de placa. Fez piada para aparecer, apareceu e deu o que falar. Colocou uma ingênua foto no Instagram dele dando um selinho em um brother e isso já foi o suficiente para a polêmica de programa da tarde e para os programas esportivos do almoço terem ampla pauta de fofoca inútil notícia.

“Foi uma brincadeira, qual o problema?”.

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Qualquer sociedade minimamente civilizada falaria isso. “Olha que legal! kkkk Uma foto dele com o amigo / namorado / irmão… Vou dar um like.” 

Mas… A hipocrisia vence. Faz falta dura, perto da área… Daquelas de deixar a gente nervoso. Não toma cartão amarelo, nem vermelho. Faz gracinha e ainda vence o jogo. Sai de campo tranquila e ainda joga na semana que vem.

O feito do Sheik é uma tentativa de calar a boca da parcela acéfala de profissionais e amantes do futebol. Aqueles que dizem que não são homofóbicos, mas no clube deles / na família deles / dentre os amigos deles NÃO pode ter “viado”. Aqueles que acreditam realmente que entre milhões de homens que jogam ou trabalham com esse esporte não tem nenhum homossexual e que todos são machos alfa exemplares, que constituem uma família casando com a oficial e comendo toda piriguete que der sopa. Aqueles que concordam que futebol é coisa de menino… Que gay não sabe jogar porque é uma boneca e vai se apaixonar pelas coxas do jogador adversário… Que mulher que joga bola é “sapatona” e a bandeirinha gostosa que está trabalhando no jogo tem a obrigação de sair com algum jogador (ou jogadores) depois dos 90 minutos.

A idiotice deste meio é mais difícil de se vencer do que o Barcelona (ô time desgraçado). Não vem só de trogloditas que ocupam o CT do Corinthians com faixas homofóbicas mandando um dos ídolos do Timão ir beijar a PQP. Vem também de jornalistas, dirigentes, técnicos e juízes… Pessoas das quais a gente esperaria atitudes mais civilizadas e não vistas grossas ou declarações infelizes. Realmente, alguns estão mais perto de criar grupos de extermínio

Sheik fazendo o que a Hebe fazia, marca um gol daqueles que a gente pede replay, acha legal e comenta no dia seguinte. Tivéssemos já vencido o tradicionalismo idiota e esse selinho (que nem BEIJO de verdade é) passaria completamente despercebido. Mas está aí um título que o Brasil ainda não garantiu. Nem dentro, nem fora dos campos.

Entre cabras e beijos

Por Maíra Souza

No último final de semana, São Paulo e Rio sediaram a apresentação da Mother Monster no Brasil. Lady Gaga, famosa por pregar a defesa dos direitos dos homossexuais no mundo, também condena o bullying e a intolerância por meio de suas músicas e shows, incentivando a galera a ser feliz do jeito que é, afinal you were born this way, baby.

Paralelamente, a maior (em termos de volume de vendas) revista brasileira gera polêmica nas redes sociais por tratar da homossexualidade e da homofobia de maneira um tanto quanto obtusa:

Da homossexualidade

“Homossexuais se consideram discriminados por não poderem doar sangue. Mas a doação de sangue não é um direito ilimitado – também são proibidas de doar pessoas com mais de 65 anos ou que tenham diabete e hepatite.”

O autor entende que a homossexualidade, assim como a diabete e a hepatite, é uma doença – e, como toda doença, deve ser tratada e exterminada, certo?! Entretanto, compartilho a opinião de que a preferência sexual não é adquirida e tampouco contagiosa. Não me lembro de nenhum momento da minha vida em que decidi sentir atração por homens. Assim como não me recordo de nenhuma pesquisa cientifica que prove que o risco de transmissão de doenças – devido ao comportamento promíscuo ou ao uso de drogas – está imune aos heterossexuais.

Da homofobia

“Mas se alguém diz que não gosta de gays, não está cometendo crime algum – a lei não obriga ninguém a gostar de homossexuais, ou de espinafre, ou seja lá do que for.”

A analogia do autor me lembra aquelas falas dos machões e das “mulheres com M maiúsculo”, tipo “ah, eu não tenho nada contra veado ou sapatão, sabe?! É só não encostar ou chegar perto de mim que tá de boa =)”

Não é de hoje que o diferente causa estranhamento, seja por razões físicas, religiosas, sociais, culturais, sexuais etc. Assim como a Constituição não obriga ninguém a gostar de ninguém, afirma a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade (Art. 5º), e pune o tratamento desumano ou degradante. Ou seja, você pode fazer o que bem entender com um espinafre (risos), mas não com um ser humano – lembrando que os homossexuais também se encaixam nessa categoria.

Do casamento e da adoção

“Pessoas do mesmo sexo podem viver livremente como casais. Mas a sua ligação não é um casamento – não gera filhos, nem uma família, nem laços de parentesco. (…) Há outros limites. Um homem também não pode se casar com uma cabra, por exemplo: pode até ter uma relação estável com a cabra, mas não pode se casar com ela.”

Além de grotesca e desrespeitosa, a comparação do casamento gay com o casamento de um homem e um animal vai de encontro com quem diz “mas que aberração!” ou “que nojo!” quando vê um casal do mesmo sexo de mãos dadas na rua.

Acho que no dia em que a galera se preocupar mais com a sua própria felicidade ao invés de se importar com a alheia, a nossa sociedade será mais agradável.

Interessante notar também que além de heterossexuais serem aqueles que geram filhos, família e parentesco, há também aqueles que causam a lotação de abrigos e orfanatos; que geram filhos que vivem e trabalham nas ruas; que cultivam laços de parentesco tão fracos que são capazes de matar uns aos outros. A reprodução não é, necessariamente, uma dádiva.

Há alguns anos, uma mãe ou um pai divorciado vivendo sozinho (a) com seu filho não seria considerado “família”, por exemplo. De acordo com o contexto histórico, os conceitos de família e casamento se modificam, se adaptam e se transformam.

Da violência

“Homossexuais são assaltados, agredidos, assassinados no Brasil – mas heterossexuais também. A violência sofrida por homossexuais no Brasil, portanto, não decorre do fato de serem gays.(…)Hoje em dia os homossexuais não precisam mais levar uma vida de terror, escondendo sua identidade para prover o seu sustento e escapar às formas mais brutais de chantagem, discriminação e agressão”

Realmente, a VEJA ta sabendo legal. Tem gay que é espancado na Paulista só porque estava no lugar errado e na hora errada. Tem gay que apanha do pai, mas não para “aprender a virar homem”, mas só porque o pai estava de mau humor. Tem grupos neo-nazistas por aí, mas não porque “veado tem mais é que morrer”, e sim por causa da violência urbana. Tem gay que não sofre bullying na escola e/ou na faculdade por ser considerado “bichinha”, mas porque bullying é brincadeira mesmo. É normal. Assim como as cabras.