A miscigenação, a identidade e o racismo brasileiro

Por Ana Carolina Franco

“from the slaveship to the citizenship we faced a lot of bullship”

― Amiri Baraka

O Brasil é o país com a segunda maior população negra do mundo, só depois da Nigéria. Também foi o país que mais recebeu pessoas negras sequestradas, o tal do período do tráfico escravista. É muito difícil contabilizar, mas é raro conhecer alguém que não tenha ao menos um ascendente africano ou indígena, mesmo que isso não se expresse em traços físicos ou na cor da pele.

Sempre me senti conectada e interessada por diásporas e pelas incontáveis culturas africanas, mas isso é só parte de quem eu sou. Entre os meus conhecidos, poucos vieram de uma relação interracial como eu, apesar da grande mistura que é o Brasil. É uma sensação de não pertencimento total a nenhum dos dois lados. Tenho noção do meu privilégio como branca, pois nunca passei na pele o que é sofrer racismo, mas ao mesmo tempo consigo compreender ao ver o que metade da minha família já passou.

Meu pai cresceu em Xerém, no Rio de Janeiro, e trabalhou desde a infância lustrando sapatos, entre outras coisas. Ele, de origem pobre e cuja mãe índia fora escravizada quando criança, ignora a herança histórica escravocrata e indígena. Ele acredita na meritocracia, pois se mesmo com todos os empecilhos ele conseguiu chegar à classe média e criar seus 06 filhos, então por que todos os outros não conseguiriam?! Esse é um discurso que vejo de muitas pessoas, reflexo da falta de identidade própria, de noção da história de luta e opressão do próprio povo, que parece insistir e persistir no Brasil.

A mulher

Paralelamente, a questão da identificação da mulher negra na mídia é também algo que eu, parcialmente, sempre pude compreender por causa do meu cabelo. Comentários que afirmavam que eu não merecia ter esse cabelo ruim por ser tão boa (ou seja, branca) faziam com que eu me sentisse amaldiçoada quando criança. Não foram poucas as vezes que correram comigo para alisar meu cabelo, processo que começou quando eu tinha apenas 12 anos, pois fui criada pelo lado branco da família que nunca soube o que fazer com esse cabelo que meus genes recessivos deixaram junto com todos os traços que herdei do meu pai cafuzo (mestiço africano e indígena) – exceto a cor da pele.

Em duas viagens que fiz à Europa, também fui obrigada a questionar alguns aspectos de mim mesma ao ser considerada exótica por ser mestiça e de fácil identificação para os europeus e para os africanos que moram em Paris – dado o baixo índice de miscigenação existente lá. Suheir Hammad em Not Your Erotic, Not Your Exotic sempre ecoa na minha cabeça quando me chamam de exótica. Novamente, por continuar sendo muito privilegiada, eu só posso compreender parcialmente o que a mulher negra passa numa sociedade que, ou a hipersexualizou  ou a torna invisível, sujando-a da “cor do pecado”.

No hemisfério norte, começou há pouco tempo um movimento que eu assisto entusiasmada de longe: a Transition, onde mulheres afrodescendentes raspam os seus cabelos quimicamente tratados e os deixam crescer naturalmente. Trata-se de um movimento de auto-afirmação da própria imagem, por meio da tomada de mídias sociais como o Youtube, onde elas se ajudam e compartilham todos os tipos de tutoriais e dicas. A noção de pertencimento começa a surgir, seja através das mídias alternativas ou de si mesmas, num movimento social contra o estereótipo europeu que sempre foi empurrado goela abaixo naquelas que não se assemelham à imagem da mulher nórdica.

A identidade e a representação negra

Recentemente, tive discussões com afro-americanos acerca da questão da identidade, e foi muito interessante contrastar a percepção que as pessoas fazem de si mesmas, do que as cerca, suas origens, seus futuros e seus lugares na sociedade. Em 2012, fiz amizade com vários africanos que estavam no Brasil fazendo intercâmbio universitário – embora eu quem tenha vivido a sensação de intercâmbio em si: pude aprender sobre danças, música pop, comida e especificidades do país de cada um (Camarões, Congo, Senegal, Nigéria, Benin, Gana).

Discutindo sobre questões raciais, os africanos disseram que ao mesmo tempo em que eles podem se passar por brasileiros fisicamente, eles conseguem fazer a distinção entre um africano e uma pessoa da diáspora. Um amigo senegalês que morou durante anos nos Estados Unidos afirmou que, na rua, o negro da diáspora anda de cabeça baixa, submisso e oprimido, enquanto o negro africano anda de cabeça erguida, numa postura perante a vida diferente da que o negro da diáspora tem depois dos séculos de opressão.

Existe na diáspora americana, por exemplo, uma busca incessante pelas diversas raízes, e uma organização de luta que, apesar de existir no Brasil*, não se mostra expressiva como deveria no país com a segunda maior população negra do mundo. Em sua grande maioria, não há tamanha valorização da origem de seus pais, avós e bisavós. Não sei se devido ao histórico de opressão tão extremo, ou se pela diferente forma de colonização, ou mesmo se pela falta de educação e pela luta diária das pessoas em sobreviver, mas o fato é que a questão da identidade não tem papel tão importante para a grande maioria. Grande parte das pessoas não se incomodam ou deixam de assistir a Globo, mesmo com seu blackface semanal aos sábados, ou sequer questionam porque uma novela chama-se “Da Cor do Pecado”, ou ainda da falta de representação de personagens que não sejam empregados, ladrões, escravos ou vilões.

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Em suma, o que pude notar nesses intercâmbios sem sair de São Paulo foi a forma em como a questão da identidade é vista e percebida pelas pessoas de maneiras tão distintas. Tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, a segregação sempre existiu. A diferença é que lá, ela se dá de uma forma aberta, ao contrário daqui, pois além de ser uma segregação automaticamente econômica, ela se dá de uma forma bem mais passiva e ignorada pelos que não vivem isso.

Há pessoas que insistem em dizer que se houvesse uma grande miscigenação os problemas de racismo desapareceriam. E o Brasil, como o perfeito exemplo disso, pode afirmar: não é a solução.

Obs.: Meu interesse não é colocar o movimento negro americano acima de algum outro, pois ele certamente carece em especificidades que não cabem a mim dizer. Somente comparo a forma em como a identidade é percebida nos dois países.

Recomendação de leitura aos interessados no assunto (autores de diversas diásporas escrevendo sobre identidades): Zadie Smith, Junot Díaz, Amiri Baraka, Aimé Césaire, James Baldwin e Noemia de Souza.

* Links explicativos:

http://mnu.blogspot.com.br

http://blogueirasfeministas.com/2013/03/enegrecer-o-feminismo-movimentos-de-mulheres-negras-no-brasil/

http://gppgrpinheiros03.blogspot.com.br/p/movimentos-negros-no-brasil.html)

http://blogueirasnegras.org/2013/05/20/a-face-racista-da-miscigenacao-brasileira-2/

Cronologia da luta pelo fim da discriminação racial no Brasil: http://www.palmares.gov.br/2011/03/a-cronologia-da-luta-pelo-fim-da-discriminacao-racial-no-pais/

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¡ Viva la América !

 Por Maíra Souza

Esses dias várias pessoas compartilharam no Facebook um texto que elenca 50 características dos brasileiros. Dentre elas, o item 42 diz que a cultura latino-americana não pertence à brasileira, ou seja, poucos conhecem os artistas dos nossos hermanos, e a maioria dos brasileiros só viaja para Buenos Aires e, quando muito, para Machu Pichu.

Embora eu acredite que seja impossível não se emocionar ao assistir o clipe da música Latinoamérica do Calle 13 e não terminar o vídeo pensando “EIKE ORGULHO DE SER LATINO-AMERICANO”, fato é que, para o brasileiro, ainda é meio incômodo se enxergar como tal.

Uns culpam o tamanho do nosso país tropical, outros a diferença de idioma, outros a influência dos Estados Unidos- afinal, ninguém nem tchuns para as eleições no nosso continente, mas todo mundo tem uma opinião sobre o Obama ou o Bush. Além disso, o eurocentrismo enraizado no ensino do brasileiro também pode ser de justificativa – ou alguém se lembra de fazer prova sobre a história da América Latina no colégio? E mesmo na faculdade, o único momento de destaque que o Paraguai, por exemplo, ganhou foi na nossa eletrizzzzzzzzante guerra.

Tenho que concordar com o item 42 do texto do Olivier, pois a sensação de fazer parte do todo chamado América é um tanto quanto artificial. Há quem diga também que é impossível se reconhecer como latino-americano quando não se tem nem a certeza do que é ser brasileiro. A falta de contato que tivemos com os nossos vizinhos durante o processo de colonização; as diferenças de formações econômicas e políticas; a ausência de propostas de integração cultural durante a História; entre outros fatores sociológicos que podem justificar essa indiferença da maioria.

 Ano passado fiz um trabalho de antropologia [créditos a todos os envolvidos no grupo, bjs] sobre a identidade cultural na América Latina, e chegamos à conclusão de que o “não-orgulho” de ser latino e a xenofobia dentro do nosso continente não são exclusividades do brasileiro. Fizemos algumas perguntas para 20 amigos de 9 países da América Latina, e metade afirmou que tem orgulho de ser latino, e a outra disse que tem vergonha. Uns afirmaram que se identificam mais com a cultura norte-americana, outros tiveram uma vibe mais nacionalista e regionalista. Mas todos afirmaram que existe, sim, xenofobia em seus respectivos países.

Apesar de todos dividirem o mesmo idioma (exceto o Brasa) e composições étnicas e culturais muitas vezes semelhantes, há o preconceito e a xenofobia que são gerados por um misto de indiferença e desconhecimento e pelos estereótipos históricos. Assim, a fronteira acaba falando mais alto e dificultando a consolidação de uma identidade comum. A marginalização do “outro” e toda aquela história que achamos que só acontece “lá fora” é comprovada pela maneira pejorativa que os imigrantes colombianos são tratados na Venezuela; os haitianos na República Dominicana – e, recentemente, no Brasil; peruanos e equatorianos no Chile (chamados de “cholos”); bolivianos e paraguaios na Argentina (apelidados como “cabecitas negras”); guatemaltecos no México; nicaraguenses na Costa Rica; equatorianos da população guaiaqui no Peru; e os brancos que migram para países com maioria indígena, afro-latina e afro-caribenha.

De qualquer forma, para os “outros”, o brasileiro pertence a uma América Latina homogênea. Afinal, quem nunca ouviu a referência de Buenos Aires como capital do Brasil, ou o espanhol como o nosso idioma oficial? Enfim, quando se é imigrante – seja brasileiro, chileno, peruano, panamenho etc – somos tudo farinha do mesmo saco.

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