Jornalismo e Ação

por Maria Shirts

Quem assistiu ao Roda Viva na última segunda-feira pôde constatar algo interessante: o “novo jornalismo” parece melhor estruturado do que o jornalismo tradicional. Pra quem não assistiu, explico: foram ao programa da TV Cultura, que é transmitido semanalmente, dois garotos do Mídia NINJA, o Pablo Capilé e o Bruno Torturra. NINJA é uma sigla para Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação e o projeto propõe um outro tipo de cobertura jornalística, que procura “colocar em xeque as narrativas oficiais”.

Eles existem há algum tempo, mas ganharam muita audiência no mês de junho porque filmaram, entrevistaram e reportaram as manifestações latentes do país por streaming, centralizando-as em um canal de exibição ao vivo a fim de demonstrar um maior compromisso com a veracidade dos fatos. Foi assim, por exemplo, que eles conseguiram desmentir acusações falsas da polícia carioca contra um estudante que, segundo a PM, teria jogado um coquetel molotov em um soldado.

Por essas e outras, as pessoas têm se referido aos NINJAs como “novo jornalismo”. Muitos dizem que isso não é propriamente novo, outros já o fizeram. Ok, independente do rigor do termo, acho que os NINJAs merecem o crédito de “inovadores”, como têm recebido, porque conseguiram transmitir informações e imagens sobre o que acontecia pelo país como nenhum outro veículo. Enquanto os grandes jornais preocupavam-se em publicar editoriais pedindo para a polícia “recuperar a Paulista”, eles estavam mais preocupados em noticiar. Não que Folha, Estado e afins não o tenham feito. Muitos de seus repórteres se arriscaram. Tomaram bala, inclusive.

A diferença dos NINJAs, no entanto, é que eles não editam o material que captam, porque não querem “assumir uma posição”. Dessa forma eles têm o poder de constranger a  imprensa marrom, porque esta fica refém dos fatos. Afinal, os NINJAs têm exibido em tempo real o que acontece nas ruas. Assim como eles desmascararam a PM, podem muito bem desmascarar um jornal, se este vier a ser o caso.

Outro ponto interessante da sua forma de reportagem, também, é que eles têm um domínio de tecnologia admirável. Não porque são “ninjas”, mas muito porque a tecnologia ficou mais acessível. Qualquer ativista que tenha um smartphone na mão, segundo o Capilé, pode noticiar um fato, reportar uma história. Talvez seja isso que ameace a classe presente ali na banca do Roda Viva. Quer dizer, eles estão dominando os meios de produção, independendo de um sistema complexo de redação, gráfica, editor, etc. Basta um notebook, um smartphone e uma boa conexão (que, por ser o mais difícil, fez com que eles comprassem um modem 4G e criassem uma rede wi-fi na sua “base” de reportagem, que nada mais é do que um carrinho de supermercado!). Talvez este seja o fator mais “revolucionário” de sua ação. Uma vez dominantes dos meios de produção, passam a ser um concorrente. A vantagem dos NINJAs  é que não precisam de muito dinheiro, porque têm uma estrutura mais simples.

E aí é que entra a questão do financiamento. Desde o Roda Viva tenho conversado com muitos amigos que não “engolem” os NINJAs por causa do seu tipo de financiamento que, ao que tudo indica, vem da casa Fora do Eixo. Todas as pessoas com quem conversei me disseram ser uma questão muito obscura e um tanto preocupante, porque o Fora do Eixo [sempre] ganharia todos os editais públicos monstruosos por causa de suas relações com o governo.

E eu não acho que isso seja mentira. Mas, ao mesmo tempo, eu não acho que isso deva ser uma condicionante para descreditar o trabalho dos NINJAs, que têm proposto um rompimento com os paradigmas atuais de comunicação muito interessante. Mesmo porque, no que tange o financiamento, me parece que eles têm procurado outras formas para ganhar dinheiro, como assinaturas on-line e webfunding de borderô.

Ainda não sabemos para onde eles estão caminhando. Mas eu espero que, num futuro próximo, eles continuem representando uma espécie de mídia ativista alternativa, que procure, genuinamente, relatar os fatos, sem compromisso com nenhum partido nem ninguém. A ver.

O legado de Roberto Civita

Por Fernando Rinaldi

Morreu no último domingo, dia 26/05/13, Roberto Civita, dono do Grupo Abril. Civita nasceu na Itália, estudou nos EUA e, quando voltou ao Brasil, na década de 1960, começou a trabalhar como editor na empresa do pai, Victor Civita, tendo-se dedicado a ampliar e diversificar os negócios do Grupo, sobretudo após 1990, quando Victor faleceu. Até seus últimos dias foi editor-chefe da VEJA, revista semanal de maior circulação no país.

Como se sabe, o Grupo Abril vai muito além da VEJA. É inevitável, numa visita ao edifício da Abril, não espantar-se com o tamanho e com a multiplicidade de ramos desse empreendimento muito bem-sucedido, que não se restringe, como pensam alguns, à atividade jornalística. No entanto, mesmo com tamanha variedade, a VEJA pode ser considerada o filho preferido de Civita, o seu grande projeto, ou a síntese de todos os outros.

A importância do Grupo Abril e da revista VEJA são inquestionáveis e não é de se espantar todas as homenagens post-mortem feitas a Civita. O problema é que, de um modo geral, os jornais e revistas brasileiros lamentaram a perda de um dos maiores baluartes da liberdade de expressão, da liberdade de imprensa e da democracia. Ora, mas não foi Civita um grande apoiador da ditadura militar? Há quem diga que não, mas eu não consigo acreditar – hoje, apesar do verniz progressista, a revista se caracteriza pelo ataque a movimentos sociais, artísticos e estudantis e pela publicação de matérias de conteúdo extremamente reacionário. A cobertura da sua morte foi, nesse sentido, marcada pelo cinismo, assim como toda sua vida também o foi.

Civita gostava de ressaltar, por exemplo, que o leitor era o seu “verdadeiro patrão”. Quando o ouvimos atribuir ao leitor um papel de soberano, sabemos que essa declaração é pura retórica. Basta ler algumas linhas da revista VEJA para notar como a inteligência desse mesmo leitor é descaradamente subestimada. O jornalismo de Civita sempre foi autoritário e prestidigitador, visando a reforçar e difundir ideias oligárquicas dentro de uma sociedade ainda oligárquica, ideias conservadoras dentro de uma sociedade conservadora.

Que fique claro que não estou criticando a existência de uma “mídia de direita” (conceito questionável), tampouco defendendo um “jornalismo imparcial” (conceito ainda mais questionável). Critico, sim, um certo tipo de jornalismo que, aproveitando-se de sua credibilidade, informa meias-verdades, desinformando seus vários leitores. E era justamente esse o jornalismo que Civita fazia, embora muitos estejam dizendo o contrário por aí.

Quem já fez o exercício masoquista de ler os comentários dos internautas nos mais variados portais de notícias, sabe o alcance das ideias reproduzidas semanalmente pela VEJA. Os pontos de vistas difundidos pela revista se reproduzem em bocas e dedos que nem sempre sabem o que estão dizendo ou escrevendo. E não há nada mais desastroso do que a distorção de um discurso já distorcido. A violência desses comentários é brutal, mas frequentemente passa despercebida como qualquer violência que é banalizada.

É claro que não podemos responsabilizar somente a mídia por essa violência. Podemos dizer, talvez de uma maneira um pouco simplificadora, que só existe ética jornalística numa sociedade de leitores éticos. Se no Brasil se dá com facilidade o surgimento de grandes coronéis da informação, não há a menor dúvida de que o buraco seja muito mais embaixo.

Por outro lado, é verdade também que a VEJA vem perdido muito da sua confiabilidade. Nas redes sociais, a revista é constantemente criticada e suas matérias e colunistas não raro aparecem como motivo de repúdio nacional. Assim, a VEJA é ao mesmo tempo a revista mais lida e a mais odiada, a mais ridicularizada e a que mais (de)forma a opinião pública nacional. E assim ela continuará por tempo indeterminado.

Quando faleceram outros coronéis da informação, como Roberto Marinho e Ruy Mesquita, os poderosos sistemas de comunicação que eles deixaram pouco ou nada se modificaram, por isso eu acredito que nada vá mudar também na Abril ou na linha editorial da VEJA com a morte de seu presidente. Civita é mais um cidadão Kane brasileiro que se vai, com cujo legado todos nós teremos de lidar.

Esse legado, no entanto, é uma forma de comunicar através da centralização da informação; não podemos negar que esse formato que vem perdendo força diante dos outros meios de comunicação que inventamos diariamente. Civita nos deixa, portanto, um jornalismo colocado em xeque e uma lição às avessas: os verdadeiros leitores soberanos não são aqueles que consomem passivamente o que os meios de comunicação lhes propõem, mas aqueles que querem quebrar com o monopólio da informação e promover uma ação democratizante. As constantes críticas ao seu filho predileto nas redes sociais indicam uma mudança na maneira com a qual lidamos com os textos que lemos.

Uma nova primavera já começou?

roberto-Civita

Cinema, política e o 4º poder

por Maria Shirts

Alô alô estudantes de Relações Internacionais e Audiviosual, apaixonados por cinema, museus e cultura em geral: o Museu de Imagem e Som (o MIS) inaugurou um programa de cinema e política que vai até o mês de abril. O evento, que acontece todas as terças, conta com a exibição de um filme e, depois, com um debate entre os convidados (bem interessantes, diga-se de passagem). O melhor de tudo é que é grátis!

Na terça-feira de ontem, tive o prazer de desfrutar deste programa com os amigos Fernando Hargreaves e Daniel Escorel. Assistimos ao filme Intrigas de Estado, que conta a história de um suicídio que envolve alguns deputados do Capitólio, uma corporação militar e (não podia faltar) a imprensa. Russel Crowe interpreta (muito bem) o repórter que vai noticiar o caso o qual descobre, posteriormente, ser um furo (a menina dos olhos de qualquer jornalista). A trama toda começa quando este representante da mídia entende que a história vai muito além de um suicídio.

Não chega aos pés do clássico O Quarto Poder, do renomado Costa Gravas, que também recomendo, mas é um filme que retrata bem a interferência da imprensa e o seu papel em situações políticas. O clímax hollywoodiano é bem utilizado, e faz com que o espectador não desgrude o olho da tela. Os amigos concluíram que é um bom filme, desses que você pega no Tele Cine no domingo a noite e se surpreende, sabe?

Falando em surpresas, o filme me agradou mais que o debate posterior. Os palestrantes Susana Singer, a Ombudsman da Folha, e o Dr. Fernando Limongi, coordenador de ciências políticas da USP, tiveram pouco tempo para falar, mas exploraram a questão do relacionamento do jornalista com as fontes, o maniqueísmo do filme, a regulamentação da mídia. Ela, mais do que ele, que deixou a desejar.

De qualquer forma, achei o ponto alto do debate a questão da caricatura do jornalista — como ele é retratado como o profissional mais anti-ético de todos. Apesar de ser o nosso herói, no filme, Russel Crowe bate nas suas fontes até conseguir a informação, grava sem autorização, não respeita deadlines e omite evidências importantes da polícia.

Apesar de saber que sim, há muito jornalistas antiéticos que o fazem (vide aqueles que trabalham para Murdoch), podem ser considerados uma pequena minoria. Claro que estou defendendo a profissão, afinal, faço parte deste mundo. Mas é bom lembrar que filmes, seriados e livros pintam, sim, o repórter como um sem limites, o doido, o mais ganancioso de todos os trabalhadores. E isso não é verdade — pense você, leitor, nos SEUS amigos jornalistas. Como em toda profissão, há pessoas antiéticas, maldosas, trapaceiras; como em toda profissão. Em resumo, não acreditem em todo filme que virem por aí. Mas assistam aos dois que citei lá em cima, porque valem a pena.

Falando em valer a pena, saí com uma boa impressão desse ciclo de palestras do MIS. Apesar de ter superestimado o debate, acho que valeu o programa pelo diferencial: filmes bons, com palestrantes interessantes, num Museu super descolado. E ainda você pode encontrar a Sabrina Sato na saída.

Na semana que vem tem o filósofo político Renato Janine Ribeiro e Edison Nunes, professor de política da PUC-SP conhecido entre nossos colegas na RI. Aquele que se entediar com o debate ainda pode dar uma volta pelo MIS e ver a exposição de fotos do artista chinês Ai Weiwei, que provou ser muito talentoso e totalmente locão.

 

 

ai weiwei