Escrever neste blog é…

Por Fernando Rinaldi

Fosse o Esparrela uma pessoa, ele já estaria na adolescência. Se os anos de vida de um cachorro, dizem, representam sete anos de vida de um ser humano, imaginem então o que não são alguns meses quando estamos lidando com a Internet. Diz o senso comum que a adolescência é fase de mudanças, crescimento, crises existenciais, questionamentos e autoafirmação. Bem, se a maioria das conclusões a que chegamos sobre nós mesmos se mostrará falsa não muitos anos (ou meses) depois, ao menos nos sentimos protegidos com a nossa identidade (ou com aquilo que acreditamos ser a nossa identidade) por alguns instantes. No caso de um blog, esse instante é o tempo da escrita de um post. Por isso, não me demoro mais para começar a lista – uma lista de definições imprecisas mas necessárias.

Aí vai: para mim, escrever neste blog é…

Forçar-se a desenvolver um assunto que, se não houvesse a necessidade de expô-lo a um leitor, provavelmente não sairia do nível de um juízo de valor. Explicar seu ponto de vista é, antes de tudo, compreendê-lo.

Procurar a inspiração quando ela não vem. Se a bafagem não vem ao blogueiro, o blogueiro vai à garimpagem – nos jornais, nos livros, nos acontecimentos da rua, na arte, na rotina, no homem, na memória, no mistério.

Juntar fragmentos de fatos e acasos, pensamentos e opiniões, e arriscar dar a eles uma coerência.

Ter consciência de que criamos uma personagem de nós mesmos para não nos contradizermos. Depois perceber que, como a contradição é inevitável, inevitável também é criar uma personagem contraditória.

Dar-se conta, num dado momento, que escrever difícil é fácil e que escrever fácil é difícil.

Ter coragem de expor ideias que, se estivesse numa mesa de bar, com amigos íntimos, não teria.

Dar força ao texto a partir da sua impotência de mudar a realidade.

Morar num lugar nem sempre agradável, num intervalo entre suas aspirações e ideais e o mundo como ele é.

Reconhecer em si uma visão extremamente limitada, olhos míopes que se apertam para, sem conseguir, dar alguma nitidez ao que vê. A tentativa vale a pena.

Notar, desde o primeiro post, que alguns comentários completam as lacunas dos textos. Alguns elogios as completam, preenchendo-as; algumas críticas também as completam, só que as evidenciando.

Ficar satisfeito quando o texto provoca reações (positivas ou negativas) nos outros.

Tentar ignorar comentários com discursos agressivos, cheios de falácias e preconceitos.

Ser traído pelas próprias palavras. A escrita sintética, de um lado, e a rapidez da leitura, de outro, conferem múltiplos significados a um texto, que acaba querendo dizer muitas coisas que você não quis dizer.

Estranhar o sucesso de alguns textos e o fracasso de outros. Colocar-se na posição do leitor e pensar que talvez o interesse exacerbado ou o desinteresse inflexível não tenham tido nada de estranho.

Não ser lido por quem você vê todos os dias e ser lido por quem você nunca viu.

Ao reler os próprios textos, gostar daqueles em que razão e emoção andaram coladas, seja lá o que isso quer dizer.

Evitar repetir-se, mesmo sabendo que está sempre repetindo fórmulas, estruturas sintáticas, expressões, discursos, mecanismos gramaticais e estilísticos, e dizendo exatamente a mesma coisa em todos os posts, sem tirar nem pôr.

Ficar com inveja dos posts dos outros (“droga, eu queria ter escrito isso!”) e tentar se apropriar deles de alguma forma (“vejam como são escritos bons textos no mesmo blog em que escrevo!”).

Na maior parte das vezes, sentir-se representado por textos que você não escreveu.

Nunca escrever sobre grandes dores, grandes perdas. Um texto de menos de mil palavras não dá conta de uma tragédia (talvez nenhum dê, mas isso já é outra discussão…).

Começar um texto sem saber como terminá-lo. E, às vezes, depois de terminá-lo, continuar sem saber.

Parte do time do Esparrela. Da esquerda para a direita: Paula Elias, eu, Maíra Souza, Maria Shirts e Artur Lascala.

Parte do time do Esparrela. Da esquerda para a direita: Paula Elias, eu, Maíra Souza, Maria Shirts e Artur Lascala.

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Pais e Filhos

Por Paula Elias

Meu primeiro livro do Mario Prata me foi um empréstimo, eu tinha 10 anos. Estava eu de férias na casa da minha saudosa avó Doca, em Cajuru, onde passei os verões muito felizes da minha infância. Sempre gostei muito de ler, e naquele janeiro em especial o meu estoque acabou antes do previsto. Minha avó, generosa como era, me disse:

– Vai lá na estante do seu avô, filha, escolhe um livro para você.

Uma honra, com certeza. Meu avô paterno faleceu quando eu tinha dois meses, eu não o conheci. Médico, sábio, pai de família: as histórias que rodeavam meu avô Moysés para mim tinham um ar mítico, descrições de sua inteligência, senso de justiça e compaixão – características que o fizeram uma figura importante na cidade pequena, um bom profissional e um exemplo para todas as gerações de Elias que o seguiram.

Assim, não era por nada que eu hesitava em pegar emprestado um livro do meu avô. Mas algumas paixões nos dão coragens inesperadas e, com a benção da minha avó, escolhi uma edição com 100 crônicas do Mario Prata reunidas em um único livro.

Foi amor à primeira página. Muitos temas tratados nas crônicas me eram estranhos, quase alienígenas: sexo, divórcio, impostos… mas o caminho que Prata trilhava me encantou, consegui rir, me divertir, passei algumas tardes esticada no sofá com um sorriso cúmplice de quem ri de uma piada secreta. Segredo meu e do Prata.

Fui ficando mais velha e meu gosto pelos textos dele só cresceu. Li todos os seus livros, os reli, me pendurando em cada frase, me identificando cada vez mais com as situações nas quais o escritor acabava se encontrando.

Quando o filho do Mario Prata, o Antonio, começou a escrever para a Capricho eu estava na adolescência. Rapidamente sua coluna passou a ser o motivo pelo qual eu comprava a revista. Fui sua leitora fiel na Capricho até ele parar de escrever para a revista  – bem em tempo, porque eu também estava ficando velha demais para andar por aí com uma edição sobre “como dar o primeiro beijo” debaixo do braço.

Um dia, aos 24 anos, contava para o meu pai o quanto o professor Antonio Pedro Tota estava me ajudando e sendo meu amigo durante o processo do mestrado. No ato, meu pai exclamou:

– O Matthew Shirts fala sempre sobre ele na sua coluna.

Meu pai é leitor do Matthew desde o Estadão, e continuou sendo quando o Shirts passou para a Vejinha.

Imaginem a surpresa do meu pai quando o apresentei à Maria Shirts, filha do Matthew, e personagem coadjuvante de muitas de suas crônicas.

Uns meses atrás estava eu lendo um livro do Mario Prata e lá pelas tantas ele se refere à Maria Shirts como sua afilhada. Eu tive um surto.

Quando a vi dei um pitizinho:

– MARIACOMOASSIMVOCÊNUNCAMEDISSEQUEVOCÊÉAFILHADADOMARIOPRATA?!!?!?!?!?!?!

Ela riu e disse que ele ia ficar feliz se soubesse que gente da minha idade lê as coisas dele. Meu coração deu uns pulinhos.

Um tempo depois o Esparrela começou , eu virei uma pessoa que escreve e uma leitora da Maria, cujas colunas eu espero ansiosamente toda semana. Me vi devorando seus textos e dando risada com as histórias, ou pensando muito sobre o post do dia.

Hoje, numa sala de espera vi uma Vejinha na mesa. Peguei o exemplar na mão e sussurei um “tomara”para mim mesma. Lá estava: uma crônica do Matthew Shirts na última página, com direito a participação especial da Maria.

Assim que sair do trabalho vou perguntar para o meu pai se ele já e leu, compartilhar o prazer de quem acompanha um escritor fielmente.

Famílias de leitores e escritores, pais e filhos, unidos por livros, por blogs, por revistas. Eu que li Mario, Antonio, Matthew, Maria… me sinto numa ciranda entre letras e leituras. Algo meio ciranda do Carlos Drummond e O tempo e O vento.

O tempo e o Vento, ih, ainda tem os Veríssimos…

Mas essa é uma outra história.