Neste dia, 20 de novembro

Por Matheus Jacob

É muito fácil acreditar – quiséramos nós fosse difícil – que ainda hoje, dia 20 de novembro de 2013, há gente querendo restringir a vida sexual de outra pessoa. A única resposta plausível aos primeiros é: não.  Apenas não. Por um único e simples motivo:

A outra pessoa não é você!

Sem “mas…”, sem “porém…”, sem “mas e se…”. Não. Apenas não.

Dia 10 de novembro de 2013, uma jovem do Piauí foi encontrada morta em seu quarto com o fio da prancha alisadora enrolado em seu pescoço. Em suas redes sociais, a jovem se despediu dos amigos e pediu perdão à mãe.

Pois bem. Já chegou e passou o tempo de culpar quem tem culpa. Não só nesse caso, no caso da aluna da USP deste mês de novembro, ou em qualquer outro: mas em qualquer caso. A mulher que tem seu vídeo íntimo exposto de forma vil e covarde não pode levar culpa alguma. O motivo, mais uma vez, é simples: o vídeo foi feito baseado num contrato tácito de confiança que não deve (ou ao menos não deveria) ser quebrado, mesmo mediante o término de um relacionamento.

Se utilizar de algo dessa natureza como simples revanche é de um absurdo que – infelizmente, como quase todos os absurdos – acontece com uma frequência alarmante. Isso não é de hoje nem de ontem: a revanche só vai adquirindo contornos e formas diferentes com o passar do tempo, sem perder sua essência: o constrangimento público de alguém que, na verdade, não deveria se sentir constrangido. O temor social, no entanto, é normalmente mais forte; e o resultado de toda essa mistura é quase sempre desespero e repreensão social velada (ou não) para com a pessoa exposta.

A lógica de perpetuação dessa infeliz situação não é complicada. O constrangimento público é quase o mesmo daquele que se abate sobre as vítimas de estupro: a vítima não se cuidou, a vítima parecia estar pedindo, a vítima não se deu ao respeito, a vítima foi estuprada porque usava roupa curta.

Acontece que essa lógica, apesar de simples (e talvez por isso), é monstruosa.

Nunca, nunca a culpa é da vítima. Nunca. Nunca a vítima está pedindo. Nunca. Ainda que ela ande pelada, nunca a culpa poderá ser dela. A culpa é sempre do agressor.

Voltemos ao caso exposto no início do texto sobre a menina que se suicidou no Piauí.

Não é culpa da menina nem da mãe da menina. Ela pode fazer o vídeo que quiser, e tem o direito sim de não ter seu vídeo divulgado pela internet. A culpa é de quem divulga o vídeo como diversão, e a culpa é de quem acessa esse tipo de vídeo. A culpa é da pessoa que estupra. Nunca de quem teve seu vídeo divulgado, nunca de quem foi estuprada.

Enquanto a culpa recair sobre a vítima e enquanto os homens não forem educados a não estuprar, veremos poucos avanços. A educação não pode ser sobre a menina que se “dá ao respeito” para não ser estuprada. A educação deve ser sobre o garoto para que ele não estupre.

É realmente inacreditável que nesse dia 20 de novembro de 2013, alguém ainda precise colocar em evidência a perversão que o machismo consolida numa sociedade. O machismo destrói vidas. Literalmente.

 

Matheus Jacob é estudante de Letras na USP, autor do livro É e convidado especial do Esparrela.

“Meu nome é Kevin: qué vim, vem”

Por Maíra Souza

O teor de sedução nulo da frase do título demonstra as babaquices que nós, mulheres, temos que ouvir diariamente ao sairmos de casa. Esta semana, conheci a campanha Chega de Fiu Fiu e o incrível resultado da pesquisa feita com mais de 7 mil mulheres sobre cantadas o assédio em locais públicos, e decidi compartilhar algumas histórias que já aconteceram comigo, e que tenho certeza que já foram vividas por amigas, desconhecidas, mulheres.

Quando eu estava no período de transição entre a infância e a pré-adolescência, já parecia ser mais velha do que realmente era, afinal, eu tinha uma estatura acima da média e tudo mais. Logo, isso já era motivo o suficiente para que determinados homens me enxergassem como mais um ser humano que poderia excitá-los, principalmente se eu estivesse com o uniforme da escola. Lembro de diversas ocasiões em que estava com a minha mãe numa fila de mercado, por exemplo, e ela discutia com um cara qualquer que olhava pra mim com aquele ar de desejo. Naquela idade, eu achava que ele estava só olhando por olhar, e ficava tímida perante a cena da minha mãe esbravejando a minha idade para quem quisesse ouvir, e que eu era “apenas uma criança, seu safado/nojento/porco, etc”.

Na época, achei que ela estava exagerando em brigar assim com tanta frequencia, mas conforme fui crescendo, percebi que as imagens do “velho safado” foram se multiplicando e se tornando cada vez mais evidentes. A cada dia, as regras de convivência com os assédios em espaços públicos ficavam cada vez mais claras:

  1. Nunca olhar pra trás.

  2. Nunca responder.

  3. Nunca estabelecer contato visual.

  4. Nunca andar com algo que possa parecer provocativo na rua, como um pirulito ou um picolé, por exemplo.

  5. Entrou por um ouvido, saiu pelo outro.

  6. Sempre, SEMPRE ignorar.

Isso sem contar os padrões de vestimentas, principalmente em dias de calor.

Assim, somos ensinadas a nos acostumar e a lidar com assédios na rua como se fosse algo normal e natural do sexo masculino. Como se o homem tivesse que auto-afirmar a sua masculinidade e virilidade desta maneira. Como se a rua fosse um espaço tão público ao ponto de nos tornar igualmente públicas e expostas, de modo que o homem tem o direito de falar o que quiser pra nós, de cobiçar e de demonstrar esse desejo como bem entender. Ou seja, seguramos uma placa inconsciente e invisível de “qué vim, vem”.

Tal como um grande pedaço de carne exposto numa vitrine pública, já ouvi coisas como “que carnão, hein!” ou “nossa, buc*tão!“. Ouço “oi linda/gostosa“, ou sons de beijo do cara do carro do lado quando estou no trânsito com os vidros abertos. Inclusive, já fui seguida por um carro às 09h da manhã, e depois de muito acelerar e de tentar fugir dele, descobri que ele queria que eu abrisse o vidro para tomar café da manhã com ele na padaria mais próxima. Aham, tá certinho, moço.

Não estou falando que não deva haver interação social entre homem e mulher, mas contanto que os dois estejam interessados e pré-dispostos a iniciar uma conversa e/ou um flerte. Isso é completamente diferente de estar em uma situação de vulnerabilidade, sendo obrigada a passar por qualquer tipo de situação como se não fosse nada de mais.

Os sentimentos que as “cantadas” provocam vão do repúdio ao asco. Essas atitudes não se tratam de um problema apenas brasileiro, nem ocidental, nem oriental, nem cultural: é universal e mascarado de inúmeras formas. Já fui assediada por homens de terno e gravata, mendigos, pedreiros e até pelo cara que me assaltou – sim, pois é… ele disse que tinha me achado gata, e que, portanto, levaria apenas o meu celular, poupando a minha bolsa.

Mas o pior episódio se deu numa balada, quando um cara pegou na minha bunda. De súbito, eu empurrei o rapaz, ele pediu desculpas e disse que queria apenas CONVERSAR. Eu falei algumas coisas inapropriadas para o horário, e ele empinou seu dedo indicador no sentido do meu rosto, dizendo que ele não era qualquer um, que não era como qualquer playboy que eu estava acostumada (?), e que se ele quisesse, poderia ME MATAR com apenas um soco.

Até hoje, a minha vontade é de jogar gás lacrimogêneo nele, e quando me perguntarem por que eu fiz isso, responder: porque eu quis.

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O machismo doce, doce, doce.

Tentei pensar em algo criativo para me introduzir, mas toda apresentação de si tem um quê de dinâmica em grupo ou de reunião dos Alcoólicos Anônimos….então, vamos lá.

Meu nome é Maíra, ou Ma para os íntimos e não-íntimos. Sou conhecida internacionalmente por aquilo que chamam carinhosamente de “mairice” – cuja aplicação se dá em situações de quedas, acidentes, desastres naturais ou furtos de canetas. Sou uma internacionalista (kkkk) recém-formada pela PUC, tenho 22 anos, estudei num colégio de freiras franciscanas a vida inteira (e olha no que deu), sonho em ser fotógrafa*, em salvar alguma coisa no mundo, ou em trabalhar com algo que me faça acordar disposta pela manhã.

Nos meus 7 anos de carreira como aproveitadora da vida nas noites paulistanas, acumulei uma série de histórias para contar. E como hoje é quinta – ou melhor, quase sexta – julguei conveniente inaugurar a minha participação no Esparrela com uma anedota sobre a minha sexta passada.

O bom de São Paulo é que há atrações para todos os públicos, gostos e preferências. Dentre as opções de lazer, destaca-se o fenômeno do sertanejo universitário como opção predileta de grande parte dos jovens paulistanos. Nos meus eventos do Facebook, recebi convites para diversas festas da classe média sofre “””high society””” paulistana, onde “mulher é VIP, homem 120 consuma”, “camarote para até 10 pessoas, R$ 5 mil, consome R$ 3 mil”, “sem nome na lista, mulher R$ 80, homem R$ 200”, e por aí vai.

A primeira vez em que fui a uma balada sertaneja foi na última sexta-feira, devido à comemoração do aniversário de uma grande amiga. Encarei o programa como uma experiência antropológica: fingi que eu era o Lévi-Strauss, peguei um taxi até a Vila Olímpia, e me inseri na geração tchetchererê. Saias bandages, camisas xadrez, cabelos escovados e músculos decoravam o ambiente, afinal “o nome na lista não garante a entrada na casa, sujeito ao crivo da hostess”. [true story]

Como é bem sabido para quem me conhece, não sou grande fã da música sertaneja, mas que atire a primeira pedra quem nunca fez a coreografia de “Ai se eu te pego”, quem nunca quis um tchu e quis um tcha, ou quem nunca cantou a plenos pulmões “EU JÁ LAVEI O MEU CARRO, REGULEI O SOOOM”. Não há hipster que resista, convenhamos.

E lá estava eu, no Villa Mix, quando um menino-xadrez veio até mim e puxou um ou outro assunto. Meu humor não estava propício a vivenciar um amor líquido (apud. Zygmunt Bauman) e, portanto, disse um NÃO ao rapaz. Ele ficou #chateado, indignado e realmente ofendido com a minha recusa, e tentou me conquistar com a seguinte frase: “Meu, você sabe quem eu sou? Você sabe quem é meu pai?”. Minuto de silêncio.

A reflexão sobre a postura do “você sabe com quem está falando?” do brasileiro ficará para outro post. Não venho por meio deste, criticar quem gosta de sertanejo, nem quem frequenta o Villa Mix e derivados, tampouco quem curte a Olympia Village. Venho, sim, proferir a minha tristeza com aqueles jovens que ainda acham que ser filho de alguém é o suficiente para conquistar todas as mulheres, numa espécie de dote do século XXI. Mas como condenar tal comportamento, quando hits do momento possuem as seguintes frases:  “Aí veio a herança do meu véio, e resolveu os meus problemas, minha situação. E do dia pra noite fiquei rico, to na grife, to bonito, to andando igual patrão.” (MUNHOZ, MARIANO, 2012) e “ Quem não tem dinheiro é primo primeiro de um cachorro. (…) Agora eu to mudado, o meu bolso tá cheio, a mulherada atrás” (NOVAES, Ismael, 2012)?

As matrizes do machismo não se manifestam somente nas atitudes dos homens, mas também nas mulheres machistas que concordam com o “ela dá pra nóis que nóis é patrão” (CATRA, Mister, 2011).  A coisificação da mulher como o retorno a curto prazo de um investimento de X reais numa casa noturna é o reflexo da importância da imagem do “homem provedor”, que persiste desde o dia em que a Eva levou a culpa porque o Adão comeu a droga da maçã. Machismo não é prerrogativa da música sertaneja, nem da zona Oeste paulistana, nem somente da sociedade brasileira. Mas caso alguém tenha se identificado com a conduta do rapaz mencionado acima, sugiro que antes de ficar doce doce doce e tirar onda de Camaro amarelo, saiba que antes de gostar de dinheiro, mulher gosta mesmo é de respeito.

*Inclusive, a cover photo do Esparrela foi tirada por mim, bjs.