Qual é a narrativa da Mídia Ninja?

Por Beatriz Macruz

Curioso, inflamado e fundamental é o debate em torno da rede Fora do Eixo que se formou na internet e começa extrapolar para os grandes veículos de comunicação. Fundamental em várias instâncias: desde discussões mais teóricas sobre ativismo político e concepções de cultura, passando por propostas de políticas públicas e produção cultural, até a tentativa de manobra e manipulação de grupos e opiniões a respeito destes temas.

Mais curioso ainda, no entanto, é que a discussão em torno do jornalismo independente da Mídia Ninja tenha sido escanteada em meio à polêmica. Afinal de contas, o seu estopim foi o Roda Viva que entrevistou Pablo Capilé e Bruno Torturra cujo tema era a Mídia Ninja. Além disso, a Mídia Ninja é neste momento o projeto do Fora do Eixo em maior evidência, e talvez por isso ela seja mais esclarecedora a respeito das práticas e propósitos da rede do que todos os depoimentos, acusações e hashtags que invadiram as timelines de todas as redes sociais nas duas últimas semanas.

A Mídia Ninja – sigla para Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação – parte do princípio que o jornalismo não pode ser imparcial. Concordo, e acho importante que cada vez mais se diga e repita isso. Partem daí, para fazer coberturas ao vivo via twitcasting, sem edição nem corte, para que a informação venha bruta; nas palavras de Bruno Torturra no Roda Viva, “da maneira mais crua, honesta e abrangente possível”.

Ora, isso pode até ser verdade, mas de que maneira essas transmissões rompem com o paradigma do jornalismo imparcial da imprensa tradicional, se o que elas buscam de fato é a informação crua? Não desconsideremos os méritos e a coragem dos ninjas que peitaram as tropas de choque durante a jornada de lutas de junho passado; como cidadãos eles se colocaram de maneira ativa e excepcional naquilo que acreditavam que era necessário defender, mas quando se trata de jornalismo, talvez mais urgente do que falar de cidadania – e a sigla que contém a palavra “narrativa” acusa isso – é falar da produção de discursos.

Se a Mídia Ninja afirma assumir e agenciar uma narrativa, entre muitas, com as suas coberturas, cabe a pergunta: qual é esta narrativa?

Voltemos ao marco inicial do que se conhece por midiativismo para pensar na resposta. Quando, no final da década de 1990, o Movimento Zapatista começou a experimentar meios de produzir e comunicar seus discursos através da então discada internet, o fizeram porque precisavam fazer circular suas ideias, seu projeto, suas reivindicações. Necessitavam de autonomia para fazer circular o projeto e a narrativa do próprio movimento.

A experiência zapatista influenciou inúmeras iniciativas de veículos de comunicação autônomos dali em diante, entre eles o CMI, Centro de Mídia Independente, que nasceu durante os protestos antiglobalização do início dos anos 2000 e se pulverizou por todo o mundo com uma orientação ideológica autonomista clara.

A Mídia Ninja, por sua vez, nasce dentro do Fora do Eixo, e o material produzido por ela circulou no Facebook, em sites de notícia e de movimentos sociais, em redes de televisão, em jornais impressos – serviu a veículos ligados aos mais diversos interesses. A qualidade e o alcance dessa produção servem, portanto, às mais diversas plataformas e isto, por si só, é admirável. No entanto, os ninjas, em sua maioria anônimos, não falam por interesses políticos específicos de um grupo ou movimento, e seus criadores se orgulham de circular através de diversos (e às vezes antagônicos) espectros políticos.

Perguntar qual é a narrativa que a Mídia Ninja defende é, portanto, ponto central e urgente no debate sobre o Fora do Eixo (o que torna o debate sobre o Fora do Eixo fundamental para discutir mídia independente neste momento). A ideia de uma mídia que defenda o discurso dos movimentos sociais dentro de um “mosaico de parcialidades” gira em falso quando a rede à qual os ninjas estão umbilicalmente conectados é acusada de explorar e capitalizar em cima de outros coletivos e movimentos sociais.

Mais grave do que essas acusações que precisam ainda ser investigadas, é o fato de que enquanto a Mídia Ninja defende o discurso da parcialidade e da adesão, ela se exime justamente de aderir ou defender qualquer coisa que não a sua marca (e a do FdE), ao fazer circular o seu material bruto em diversas narrativas.

Até agora, a Mídia Ninja não se desviou do que ela critica: surfou nas manifestações para emplacar a sua produção de conteúdo e sua audiência – assim como as grandes empresas de jornalismo fazem. Também não foi capaz de produzir sua própria narrativa – se apropriou de jargões e conceitos de movimentos sociais, culturais e políticos sem, contudo, aderir a eles (será por isso que dizem fazer “narrativas independentes”?), capitalizou seu discurso e sua marca em cima disso, e deu um baile em entrevista à uma imprensa tradicional engessada e em crise.

Mas é bom lembrar: foi só depois da entrevista no Roda Viva (o mais tradicional programa de entrevistas da televisão tradicional, que é o mais tradicional veículo da imprensa tradicional) que todo mundo, inclusive eu, deu para falar de disputas narrativas e de midiativismo. Resta saber quem é que vai falar de jornalismo.

 

*Beatriz Macruz é jornalista e convidada especial do Esparrela.

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