duas janelas

Por Ivan Nisida

Image

Edgar sentiu o vento frio congelar a janela do apartamento. É a única película entre ele e o mundo. Ali dentro do seu apartamento é puro silêncio. E lá fora? O que há lá fora?

Edgar passa a indagação à segunda janela, aquela que tudo vê: obrigado, Internet.

Lá fora, tudo é líquido. A modernidade derreteu o mundo numa nuvem de dados.  Edgar não escapa, ele também é plasma digital, condensado num oceanos de códigos binários e permanentemente sobrevoado por armadas de olhos. Alguém lá encima está observando. Ele se pergunta: será que é o Criador?!

Diante dessas deidades-sentinelas que o vigiam, Edgar aceita sua conivência. Não é somente eles que o querem ver. Ele também deseja ser visto. Quer ser notado.

Posto, logo existo”.

Tudo por uma migalha de reconhecimento social. Que venha do seu vizinho, com quem nunca trocou uma mísero vocábulo. Que venha do outro lado do mundo, de um coreano desconhecido com quem cruzou certa vez no aeroporto de Tóquio. Melhor se for da dondoca que ele paquera há anos, mas com quem nunca teve nada…

Assim somos, humanos, imperfeitos e interdependentes.

Eu não existo sem os outros.

O inferno são os outros.

Santo paradoxo.

Edgar fechou os olhos para mentalizar. Está tudo ali, à sua frente, inatingível e flutuando: fotos de viagens, celebrações, opiniões e debates acalorados. Tudo pairando no éter azul marinho esperando pelo selo rubro que pipoca de vez em quando. A liquidez tem a última palavra: se hoje sou novidade, amanhã já sou história.  É preciso se renovar! É preciso se adaptar!

Descoberta. Edgar se dá conta que o “lá fora” e o “ali dentro” não se descolam, eles são uma coisa única. Edgar se sente preso numa bolha de sentido, numa bolha de existência.

No final, qual das janelas é a mais real?

Aquela fria, que o separa do austero inverno que se anuncia, ou a  outra mais cálida, ligada à tomada?

Sabe como dizem por ai, fecha-se uma janela, abre-se uma porta…

Anúncios

“Eu nasci na época errada”

Por Fernando Rinaldi

“O público tem pressa. A vida de hoje, vertiginosa e febril, não admite leituras demoradas, nem reflexões profundas.” – Olavo Bilac, em 1901.

Quem nunca disse ou pensou que nasceu na época errada? Ou quem nunca ouviu isso de alguém? Parece ser uma idealização comum a de que antigamente a vida era mais simples, de que o mundo tinha fronteiras mais claras e bem definidas, de que os relacionamentos eram mais duradouros, de que as pessoas tinham uma vida interior mais profunda, de que se vivia uma coisa de cada vez e de que essas coisas tinham mais consistência. Temos a fantasia de que o presente é banal, de que já não se faz arte como antigamente, de que não há mais causas pelas quais se lutar, de que não há mais um lado para estar, de que tudo é raso e superficial.

Trata-se, é claro, de uma nostalgia do que nunca se viveu, quase como a Sehnsucht dos românticos alemães, que viviam sempre numa insatisfação perene, ansiando por algo vago e indefinido. No nosso caso, seria uma nostalgia da modernidade sólida em oposição à modernidade líquida (#Bauman)? Difícil saber…

Penso que essa nossa angústia tem muito a ver com as mortes das utopias e da ideia juventude. Hoje, quando pensamos em jovens, concebemos indivíduos imbecilizados, massificados. Quando pensamos em jovens de cinco décadas atrás, vêm-nos à mente estudantes engajados, fotos ou vídeos em branco-e-preto de meninos e meninas vivendo o melhor momento de suas vidas num show dos Beatles ou nas ruas de Paris, em maio de 1968. Não há dúvida de que isso tudo é uma fantasia, mas ela é tão forte que quase ninguém escapa dela.

Essa idealização do passado é reforçada quando as gerações passadas partilham da opinião de que antigamente era melhor, sobretudo quando se fala de cultura. Não faz muito tempo, importantes intelectuais – não gosto muito dessa palavra, mas, na falta de uma melhor para me fazer entender, vai essa mesmo – escreveram a respeito do vazio cultural brasileiro. Mino Carta, por volta de um mês atrás, começou sua coluna dizendo o seguinte: “Há muito tempo o Brasil não produz escritores como Guimarães Rosa ou Gilberto Freyre. Há muito tempo o Brasil não produz pintores como Candido Portinari. Há muito tempo o Brasil não produz historiadores como Raymundo Faoro. Há muito tempo o Brasil não produz polivalentes cultores da ironia como Nelson Rodrigues. Há muito tempo o Brasil não produz jornalistas como Claudio Abramo, e mesmo repórteres como Rubem Braga e Joel Silveira. Há muito tempo…”. Mais adiante, afirma que nossos assuntos predominantes são Big Brother Brasil, as lutas do MMA e do UFC, os programas de auditório e as novelas. Bem, para quem não sabe, esse texto abriu a edição da Carta Capital cujo título da capa era “O vazio da cultura” e, portanto, lá se encontram diversos ensaios com diagnósticos parecidos.

Na contramão dessa opinião, Hermano Vianna, na sua coluna n’O Globo, se colocou contra a afirmação de que “antes era melhor”. Para ele, vivemos em tempos de criatividade distribuída em rede, de processo criativo aberto e inacabado. Ou seja, não é pior, é somente diferente. Numa de suas colunas na Folha, Michel Laub também rebateu os pensamentos presentes na edição supracitada da Carta Capital: “(…) o passado sempre leva vantagem: é fácil citar três ou quatro mortos, pinçando-os entre centenas na vulgaridade de quando estavam vivos, e comparar suas obras hoje completas, de sentidos evidenciados por anos de distanciamento, com o caos fragmentário atual”.

Poderíamos sair do Brasil e aplicar esse mesmo debate ao mundo: poder-se-ia questionar por que no passado Queen fazia sucesso e hoje quem faz é o Justin Bieber. O fato é que, no mundo inteiro, muitos das velhas gerações acreditam que algo se perdeu no caminho, que os jovens de hoje não passam de mimados, alienados, autocentrados, e o que se produz culturalmente é lixo. Curiosamente, muitos da nova geração sentem o mesmo: olham para trás – para um passado não vivido, somente imaginado – e acreditam que só lá eles seriam realizados, que se eles fossem de outra geração suas expectativas e anseios encontrariam suas respostas no mundo.

Atrelada a esse juízo tanto da velha quanto da nova geração está a noção de que a humanidade caminha em linha reta, como se questões do passado sumissem completamente para dar lugar a questões do presente. Os debates que vieram à tona com a vinda da Sánchez para o Brasil, com a morte do Chávez e com a eleição do Marco Feliciano para presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, só para ficar em alguns exemplos bem atuais (e comentados pelos talentosos blogueiros do Esparrela), só mostram como, na realidade, há um eterno retorno de discussões aparentemente superadas, o que significa que para tentar responder à pergunta “Que tempos são esses em que vivemos?” é imprescindível não esquecer, quando se fala da cultura, da política e da sociedade atuais, que também se está falando da geração anterior, da anterior à anterior e assim por diante. A frase de Olavo Bilac, que reproduzi antes de começar o texto, poderia muito bem ser dita por alguém hoje, mais de um século depois. Nesse sentido, afirmações como “eu nasci na época errada” ou “antigamente era melhor” comentem o equívoco de perder a história de vista.

É levando a história em consideração que Woody Allen, no filme Meia-noite em Paris, tem o insight que nos conforta e conforma: impossível não pensar que nascemos na época errada. As gerações passadas também já pensaram assim e as futuras continuarão pensando, pois o presente é sempre insatisfatório e o passado, na memória ou na imaginação, nos livros ou em qualquer outro registro, é sempre sujeito à glamourização.

Termino sugerindo aos que acreditam que essa geração de agora é vazia, ou pelo menos mais vazia do que as anteriores, que melhor mesmo é seguir o conselho de Ivana Bentes, professora da UFRJ, enunciado em debate nas redes sociais: “Que vazio? Vamos ocupar esse vazio!”.