Vem, vamos pra onde?

Por Maíra Souza

Há um grande problema em generalizações, e muita confusão/contradição nas definições de vandalismo, violência, esquerda, direita.

Em primeiro lugar, gostaria de dizer que acredito que SIM: o vandalismo está no SUS, na qualidade das escolas públicas, na redução do salário dos professores e nas desintegrações de posse. Acredito que os verdadeiros vândalos estão vestidos de terno e gravata, desviando o dinheiro público e vandalizando o maior patrimônio da população. Sim, concordo que o vandalismo contra pessoas deveria chocar mais do que aquele contra o objeto inanimado e irrelevante para a grande maioria da população no dia-a-dia – é que nem jogar lixo no chão, e em dias de manifestação reclamar que a rua está imunda.

Ainda nesse sentido, penso que o vandalismo está nas balas de borracha e nos cacetetes, que além de agredir (ou proteger kkk) manifestantes e jornalistas, atingem diariamente a população pobre e negra da periferia. Da mesma forma, o vandalismo está nas grandes mídias parciais, quando estas evitam mostrar os dois lados da moeda para formar a opinião pública. Enfim, vandalizada é a cidadania do brasileiro, tão historicamente desacostumada com mobilizações populares e em acreditar que a mudança de e para si é algo possível.

Defendo a necessidade de uma certa “subversão à ordem” para que determinado movimento ganhe visibilidade, assim como ela se faz necessária para se defender dos inúmeros atos de covardia da Policia Militar, afinal, cada um se defende como pode. “Call me coxinha” ou algo que o valha, mas nessa altura do campeonato e numa cidade como São Paulo, por exemplo, caminhar nas maiores avenidas da cidade de forma pacífica atrai mais gente, inclusive aqueles que são a favor da causa e não vão por medo de apanhar, ser preso ou ficar cego. Isso PARA a cidade do mesmo jeito que se a manifestação fosse pautada na depredação proposital, ou mesmo se chovesse numa sexta-feira com 3 acidentes na Marginal Pinheiros. Há formas e formas de tumultuar, e gente demais sempre incomoda, incomoda, incomoda, incomoda muito mais.

Concordo que não podemos esquecer da ENORME parcela do povo que ainda não é vista, que ainda sofre com a truculência policiar e suas armas não letais desde o cordão umbilical. Porém, não concordo com a generalização de que a voz da periferia se reflete necessariamente na forma de depredação, numa espécie de alívio ou vingança da opressão vivida. Generalizar nesse sentido seria o mesmo que falar que todos os pertencentes à classe média são contra o Bolsa Família, por exemplo. A violência, por si só – seja como uma forma de vingança, apatia ou desprezo não vai fazer com que a ordem econômica vigente mude, independentemente de quantas prefeituras sejam apedrejadas. Infelizmente.

Agora vai, vamos lá, descruze os braços no ombrinho, joga eles pra frente e pense bem devagarinho.

O povo brasileiro – e, por povo, não estou me referindo a nenhuma classe social especifica – é sempre insatisfeito e sempre muito incrédulo. Além de não haver uma identidade nacional definida, há relutância em acreditar no poder que a população tem fora das urnas, e na possibilidade de uma mudança efetiva sem ordens vindas de cima.  As filosofias do “deixar pra lá cansa menos” e do “não vai adiantar nada mesmo” são inerentes à grande maioria, e isso não é novidade para ninguém. Muita gente prefere culpar a Dilma, pois culpar o presidente ou o partido sempre foi o caminho mais fácil ao invés de enxergar que o problema do Brasil vai muito além dos tapas e beijos entre PT versus PSDB. O buraco é e sempre foi MUITO mais embaixo, e no fundo dele tem MUITA grana envolvida.

Bom, todos já sabem que a mudança de postura da mídia fez com que muita gente mudasse a opinião e a postura do “keep calm e assina no Avaaz” para, quem dia… fazer check-in nas vias públicas.

Os 5 mil se transformaram em 100 mil em menos de uma semana, e tal multiplicação tornou evidente a existência da heterogeneidade de opiniões, visões e posições políticas no meio da multidão, com direito a vários adendos aos 20 centavos. Será o medo de não haver outra oportunidade do mesmo porte?

Fato é que o pêndulo que vai dos coxinhas extremes e aos mais intelectuais dividiram o mesmo espaço, e, do alto, éramos todos farinha da mesma massa. Rolou um mix de pautas e, consequentemente, um incômodo daqueles que “viram primeiro” e dos “partido nenhum me representa, foda-se”.

Isso não deve enfraquecer o momento histórico que estamos vivendo, afinal não é todo dia em que há uma mobilização emocionante fora dos contextos do futebol, da novela, ou do open bar em fevereiro. Sei que ouvir o hino nacional numa passeata remete à ditadura militar e a comportamentos que ameaçam de diversas maneiras, e não nego que haja uma desorientação na euforia nacionalista que beira o ufanismo. Porém não julgo expressões como “o gigante/povo/Brasil acordou” de forma tão pejorativa, generalizando a ignorância e a preguiça de todos– e, muito menos, ignorando os movimentos sociais já existentes há anos e desapercebidos pela, novamente, maioria. Eu vejo como uma expressão de que a massa está finalmente se importando. Agora, se a massa em questão é de coxinha, risoles ou de kibe, ainda é uma vitória e tanto.

Prefiro acreditar que o que estamos vivendo não será uma história de amor de praia que não sobe a serra. Talvez agora que o debate político tem sido mais difundido, principalmente entre pessoas que não estavam acostumados a fazê-lo, seja mais recorrente, instrua e informe. Assim como a opinião pública é capaz de mudar em 01 semana, acredito que a conscientização coletiva é algo possível, seja por meio da educação, da mídia alternativa, dos debates, ou mesmo naqueles 5 minutos antes de dormir. Acredito que o significado de “vandalismo” e o sentido da palavra “violência” sejam repensados por muita gente, bem como uma desconstrução de argumentos elitistas e de preconceitos de classe. Acredito que possa haver um diálogo com empatia e tolerância na elaboração da ideia do que é tornar, de fato, um país melhor.

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As famosas 1000 palavras

por Luís Henrique Deutsch  (e por milhões de filhos da Pátria Mãe Gentil que tiraram essas fotos e participaram da maior  Manifestação Popular desde o “Fora Collor”)

Meu post hoje economiza no texto. Acho que a velha máxima do que quanto uma imagem vale em palavras pode se expressar vendo as que estão abaixo.  PRE-PA-RA que é palavra de monte, então. Obrigado, brasileiros. Deu orgulho e foi bonito

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” O povo unido, é gente pra caralho”

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“Vem pra rua, vem contra o aumento”

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Hoje tem mais, pessoal. Com partido, sem partido, com bandeira, sem bandeira. De branco, de preto, de vermelho, de rosa.

A rua é nossa.