Arte, na Corea do Norte

“A primeira coisa que eu vi foi um cartaz que dizia: “Se você correr, você morre”. Se você fugir você vai ser morto a tiros. Isso é o que eu vi no primeiro dia da minha entrada no centro. Mas há uma tortura que acontece antes de você chegar no campo de prisioneiros. No próprio centro de detenção ficamos de joelhos; colocam um copo na nossa frente. Devemos ficar na mesma posição até que o copo fique cheio de suor. Nesta outra posição devemos pensar que existe uma motocicleta imaginária e que estamos nesta posição como se estivéssemos andando de moto. E nesta esta outra posição fingimos que somos aviões. Estamos voando. Se você ficar nessas posições não há qualquer chance de você ficar por muito tempo; você cairá para frente. Todo mundo no centro de detenção passa por esse tipo de tortura. Somos obrigados a permanecer nessa posição até que o carcereiro sinta que você já foi torturado o suficiente. Assim, a tortura continua até o momento em que o carcereiro está satisfeito. Quanto a mim, acho que era capaz de ficar nessa posição durante, talvez, uns 20 minutos. Eu ficava nessa posição de moto e me diziam para ficar nessa posição até que meu suor enchesse um copo, o copo na minha frente. Você nunca vai imaginar o que é isso.

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Posições de Tortura

Levantávamos às 5 da manhã. Devíamos ficar sentados de joelhos com a cabeça no chão; ficávamos nessa posição até as 10:00. A lei permite que os detentos fiquem em uma posição por no máximo 5 minutos, sendo que em seguida deveria ser feita uma pausa, mas as vezes ficávamos na mesma posição por mais de 10 horas. Se tentássemos nos mover porque estávamos exaustos, nos batiam novamente.

Espancamento

Espancamento

Existe também a tortura do pombo. Suas mãos ficam atadas atrás de você e eles te amarram assim; o peito sai para a frente e nessa posição você é torturado. A posição em si é a tortura, mas além disso você está constantemente sendo espancado. Se você não deu a declaração correta durante a audiência preliminar, você passa por esse tipo de tortura. Você está sendo espancado, o que te leva a vomitar, porque você se sente muito desconfortável por dentro. Às vezes você vomita sangue. E então você entra em colapso. Você entra em colapso. Você perde a sua consciência, e se você entra em colapso eles fazem você se deitar em uma prisão no centro de detenção.

Tortura do pombo

Tortura do Pombo

Isto é o que acontece lá dentro. Todo mundo sofre de desnutrição. A pessoa em pé, eu acho, é o guarda. Pessoas com mais de 170 metros não conseguem sair de um campo correcional vivos; quanto mais alto você é, maior é a possibilidade de você sofrer de desnutrição. A comida que nos dão é inferior a 80 gramas por refeição, mas se você fizer algo de errado, se você escorregar, eles te dão menos. Por lei você deveria receber 100 gramas, mas nós não recebíamos o suficiente e eles nos alimentavam com algumas coisas que nem mesmo os porcos comiam, como pepino podre. Pepino podre cozido foi dado para nós comermos. E se nós nos recusássemos a comer, éramos punidos. Às vezes, você seria punido com menos de 50 gramas por refeição. Seis meses depois de ficar em um destes campos de detenção não era possível continuar vivo.

Cela

Cela

Antes de ir para estes campos de prisioneiros você faz testes de aptidão física para ver se você será capaz de aguentar a estadia. Quase todo mundo passa no teste de aptidão física; às vezes não passam no teste, mas vão para os campos do mesmo jeito. Na prisão eles determinam se você está apto fisicamente deixando você nu e olhando para as suas nádegas. Se suas nádegas estão separadas e soltas, os guardas usam os punhos para ver se conseguem encaixar uma mão entre as suas nádegas. E é assim que eles determinam se você está fraco ou não. [Os que estão de pé recebem um atestado de fraqueza “classe 1”, aquele que estão mais fracos recebem o de “classe 2”, e os piores o de “classe 3”]. Então, se você estiver fraco como eles, você nunca vai conseguir sair deste acampamento. A desnutrição crônica, a tortura, a fome e as doenças fazem você cair rapidamente à classe 1 de fraqueza. Se a sua família não te visita eles te consideram um negligenciado e você vai cair para a classe 2 ou a classe 3. Por isso, bastam cerca de 15 minutos para alguém muito fraco receber um atestado de fraqueza classe 3. Como tínhamos muita fome e não tínhamos o suficiente para comer, íamos procurar cobras na rua. Sei que isto soa horrível para você. Como pode-se comer uma cobra na rua? Mas, para nós, o primeiro que achasse comia. Todo mundo correu para pegar aquelas cobras porque estávamos tão sedentos.

Cobras

Cobras

A capacidade da prisão era de 800 pessoas, mas quando eu estava lá havia 2.400. Às vezes eles colocavam até 4000 pessoas, o que significava que em um quarto havia mais de 60, 70 pessoas; em uma cela que só cabiam 14 ou 17 pessoas. Às vezes havia até 170 pessoas. Os meus pés ficavam no topo da cabeça de alguém e os pés de alguém ficavam no topo da minha cabeça. As vezes as pessoas dormiam em pé; nós revezávamos entre ficar deitado e ficar de pé. Nesse tipo de ambiente, às vezes você está tão exausto que você quer desistir, acabar com sua própria vida. É por isso que tinham guardas entre nós; para ver se alguém estava tão fraco que decidiria cometer suicídio. No verão, quando estávamos sufocando, dormíamos nus; e, quando dormíamos nus, tínhamos graves problemas de higiene. Falando literalmente, vivíamos em um buraco de defecação humana. Em 2 anos e 5 meses vi muitas pessoas morrem. Foram mais de 100. Há tantos cadáveres. 8 pessoas que dormiam ao meu lado em uma célula morram por causa de febre alta.

Celas

Isolamento

Pela estrada à esquerda, saindo de Sangdong, se você andar dois quilômetros encontrará uma montanha e uma caverna. Há um fosso lá onde colocamos os corpos dos mortos. Se alguém morresse na sua cela, as pessoas que estavam mais fortes levavam os corpos. Mas nós não levávamos só um ou dois cadáveres, nós esperávamos os corpos acumularem até que houvessem 4 ou 5 corpos. Mesmo que eles estivessem apodrecendo no calor do verão, nós não carregávamos. Então ocasionalmente os corpos deterioravam e os ratos comiam os corpos.

Ratos

Ratos

Nós carregávamos os corpos em um carrinho que era tão grande quanto um caminhão. Colocávamos os corpos num pote e acendíamos uma fogueira. Era como se não fossem como nós… era como queimar lixo, queimar entulho. E se você olhasse para dentro do pote você via os ossos que não tinham sido totalmente queimados, e as vezes os ossos viravam pó. Levávamos o pó para os campos e usávamos ele como fertilizante. Por termos visto tantas pessoas morrerem, nos acostumados com isso. Lamento dizer, nos acostumamos tanto que já não sentíamos nada. Quando alguém morria tirávamos suas roupas; deixávamos elas nus. Aqueles que estavam vivos tinham que seguir em frente e os mortos, me desculpem, estavam mortos; nos acostumamos com isso.”

Corpos

Corpos

– Kim Kwang Il, preso pelo regime Norte Coreano em 2004 por atravessar a fronteira para vender pinhões, em testemunho à Comissão de Inquérito de Direitos Humanos na Republica Popular da Corea. [Tradução livre e reorganizada para coadunar com as fotos do livro de Kim Kwang Il]

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Strogonoff de Barata

por Luís H. Deutsch 

Um dos pratos mais típicos da culinária brasileira é o strogonoff. Carne / frango, ketchup, mostarda, champignon, molho inglês ou conhaque opcional, sal a gosto e creme de leite. Batata palha, arroz. Voilà.

Pois bem, a receita que dei para incitar o seu jantar, se depender das dicas da ONU vai ganhar uma nova versão em lares brasileiros. Os lares isolados pela pobreza e pela desigualdade de recursos e oportunidade. Esse prato será feito de insetos.

Parte dos planos das Nações Unidas para a resolução da fome crônica, que mata gente pra caceta, está a cartilha que incentivará países na produção e no consumo de larga escala de insetos. Coisa que acontece na China, Índia e outros países de hábitos alimentares e culturais diferentes dos nossos. Coisa que se restringia à excentricidade, pode virar regra. Mas também salvação.

Com o  perdão da saliência… Diz o ditado popular que gosto é que nem c… Enfim. Cada um tem o seu. Mas a questão bate em pontos mais relevantes e importantes do que experimentar um espetinho de escorpião fritinho ou uma daquelas sopas de larvas vivas que parece que saiu do prato do Timão&Pumba.

Em primeiro lugar, ok… Uma atitude razoável. Mandar o mundo seguir passos de regiões que – na falta de alimentos – saíram atrás de opções acessíveis e nutritivas para não morrer. Querendo ou não, inseto tem de monte e em todo o lugar. Desde que não seja venenoso e de que bem temperadinho, se é para ajudar será bem-vindo.

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O problema esbarra no fato de que a real merda que acontece no mundo no quesito de fome não é só a dita escassez de alimentos.

Alimento tem. Dinheiro tem. Lugar tem.

Não tem coragem. A ONU parece cada vez mais desistir de trabalhar com coragem política desde que foi fundada. De trás do azul-celeste paz, o medo de enfrentar de fato. Ou, infelizmente, a impossibilidade devido ao poder que potências viciadas em status quo maneiro  exercem sobre ela.

O montante de alimento produzido pelo mundo basta para sustentar o mesmo. O problema é a distribuição desse montante. Basicamente como a renda, é com a comida. O muito vai pra pouco e o pouco vai para muito. Essa é a fórmula de Baskra da desigualdade mundial. Só aplicar isso em qualquer problema e você tem a resposta.

Vemos países esbanjando redes imensas de fast food, alimentadas diariamente com toneladas e litros de besteira derivadas das mais simples matérias primas. Ao mesmo tempo, vemos – e talvez esquecemos – de gente comendo pedra, areia, lagarto… Insetos.

Na África abaixo do Saara, aquela que a gente só lembra que existe quando algum país de lá passa pra Copa Mundo ou aparece no desfile de países das Olimpíadas, o buraco da fome é mais embaixo. Há corrupção, AIDS, guerra civil e sangue semeado nos campos. Sendo muito desses cultivos plantados e financiados por governos ocidentais, que continuam a lamber os beiços após cada farta e exagerada refeição.

Quando nos campos o milho cresce e a vaca pasta tranquilamente, eles não pertencem aos nativos. Vão para os chineses neo-imperialistas e aos antigos colonos europeus (sim, ainda eles). E param finalmente nas gordas contas bancárias ou no lindo (e caríssimo) hambúrguer de soja light com ervas finas que está grotescamente postado no seu Facebook.

Então é assim. A ONU desiste. Esmagada feito um inseto achou pelo menos uma forma de cair de pé e sair bem no script do nosso apocalipse humanitário. Enquanto isso, o inseticida gigante da ganância faz o contrário do que famoso SBP. Terrível contra os insetos – e os humanos também.