¿Hablas español?

Este texto foi feito para um laboratório de jornalismo literário que tinha como proposta a produção de um perfil de um exilado em 1968 num cenário diferente: o Brasil como uma ditadura comunista

 

DIÁRIO DO GOVERNO – Jornal oficial da República Portuguesa

28 de outubro de 1968

por Maria Shirts

MADRID – Um bigode protuberante. Clichê, mas é sem dúvida a primeira coisa que salta aos olhos quando um vê Paulo Leminski detrás da porta, em seu sobrado azul claro no coração de Salamanca, Madrid.

O jovem poeta, hoje com apenas 24 anos, me recebe um pouco tímido mas, tão logo me deixa entrar, já pergunta sobre o Brasil. Faz pouco tempo que está na Espanha e, no entanto, já sente muita falta da terra onde canta o seu sabiá, Alice Ruiz, com quem casou há pouco menos de seis meses.

Sua casa é simpática, não muito grande. Decorada com motivos hippies-orientais, tem um grande poster no centro da sala do poeta japonês Matsuo Basho, seu mestre. Não demora muito e me oferece um trago de vodca ou, como prefere dizer, o chá das 5h. Recuso.

Foi muito inesperada a saída de Leminski do Brasil. Ou, pior, a sua expulsão. O regime que se instalou há quatro anos no país, liderado pelo comunista Luis Carlos Prestes, sempre simpatizou com o poeta, a quem imaginavam um possível Maiakovski brasileiro. A recíproca, ao que tudo indica, também era verdadeira.

A relação começou a amargar, entretanto, quando Leminski declarou em um sarau que ele “preferia um bom poema romântico do que um ruim poema político” já que, ao menos, o romântico não enfraquecia os ideais. Muito ofendidos, os companheiros do regime programaram seu exílio quando os irmãos Campos, já muito influentes, pediram calma pois se suspeitava que Leminski estivesse bêbado, de vodca, inclusive, a bebida pátria que, apesar de camarada, obnubilava o poeta.

Pouco convencidos, os representantes concordaram com sua estadia, mas sob advertência e vigilância. Leminski alega que não ficou sabendo da indisposição. Despreocupado, continuou produzindo e publicando seus haikais.

Inspirado pela tormenta de um mês de julho frio e tipicamente curitibano, lançou aquele que seria seu último poemeta em solo brasileiro: “Faça chuva/Faça Sol/Yo no hablo español”. Tido como a gota d’água, o regime exigiu sua averiguação, “sob a justificativa de que eu estava fazendo chacota dos irmãos bolivarianos. Mas não tinha nada a ver. Eu só queria um trocadilho com aquele rimete ‘chuva e sol, casamento de espanhol’, compreende?” disse, um pouco vencido pelo cansaço. “Mesmo porque… eu falo espanhol”, suspirou baixinho.

Quando inquirido pelos representantes do Partido, explicou que jamais tiraria sarro de Simón Bolívar, que falava espanhol e que não tinha absolutamente nada contra a América Latina. Como castigo pelo suposto desacato, foi enviado a Espanha do inimigo Francisco Franco, que pelo visto o aceitou de abraços abertos na tentativa de lograr o “Câmbio Intelec”, política de softpower que tenta atrair ao país os artistas e intelectuais de vários lugares com o intuito de seduzí-los com valores e ideais “francos”.

Ele não se interessou. É uma pessoa simples, contemplativa. Vive todos os dias uma mesma rotina: escreve, tenta publicação em revistas e jornais madrilenhos, ou então portugueses. Tem escrito, ironicamente, muito mais em espanhol. Treina judô toda semana, tendo conquistado a faixa marrom recentemente. E frequenta o cinema. Disse, entusiasmado, que daqui duas semanas vai para Paris encontrar Alice. E depois de me contar sua história, termina nosso encontro com um conselho, que acho bom publicizar: “Lugar onde todos têm razão, melhor não ter nenhuma”.

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A poesia venceu a mercadoria

Por Fernando Rinaldi

moinho de versos
movido a vento
em noites de boemia

vai vir o dia
quando tudo que eu diga
seja poesia

Paulo Leminksi

 

Muitos, tenho certeza, se baseiam na lista dos mais vendidos para comprar um livro. É um indicador do que as pessoas andam lendo naquele momento e um estímulo a mais para comprar um livro. Pois, de um modo geral, desejamos desejar o que os outros desejam, e temos medo de não pertencer a essa coletividade, de não fazer parte de um certo grupo de consumidores. A lista é bastante consultada também, acredito eu, porque muitos querem ler um livro e não sabem qual escolher, deixando assim que os outros escolham em seu lugar.

Eu particularmente evitava olhar essas listas, pois um livro passou a ser para mim, em especial a partir da adolescência, um objeto dotado de outro significado, de modo que a leitura não teria a mesma graça se eu fosse me deixar conduzir pela leitura dos outros – um dos maiores prazeres da vida só pode ser experimentado naquele momento em que encontramos um livro escondido na livraria, ou não tão em evidência, que parece ter sido escrito para você e que estava lá só esperando que você o encontrasse, não é?

Por que evitava, por que não evito mais? Explico: comecei a acompanhar a lista dos best-sellers por causa de meu trabalho. Quem trabalha em editoras tem de saber o que está vendendo bastante no Brasil e também no resto do mundo, não necessariamente para se deixar nortear por esses dados, mas porque é preciso tomar conhecimento do que as listas revelam para entender como está funcionando o mercado editorial naquele momento.

Acompanhando essas listas, percebi que elas podem ser, além de um pseudoguia para aqueles que não sabem o que ler e de uma fonte de informação para quem trabalha em editoras, um curioso objeto de análise da sociedade. Infinitos livros de dieta, dos mais diversos tipos, por exemplo, sempre aparecem nos mais vendidos do site da Amazon, sinal de que somos o que comemos, somos o que lemos e, em tempos de obesidade e de celebridades magérrimas, lemos para saber o que comer, ou melhor, o que não comer.

Outro dado curioso é que livros de ficção nacionais infelizmente não têm vendido muito bem no Brasil. Se por um lado a lista dos mais vendidos de não ficção é dominada por títulos nacionais, os livros estrangeiros mais comerciais abafam quase que totalmente as obras nacionais na lista de mais vendidos de ficção. Há quem diga que os brasileiros compram pouca ficção nacional por falta de conhecimento; outros afirmam o problema está na pretensão dos escritores brasileiros, que escrevem livros complexos com o objetivo de serem elogiados por acadêmicos e de ganharem prêmios literários, afastando-se, por conseguinte, do leitor. Aí teríamos novamente um bom assunto para discussão, que abrangeria desde a questão da educação no Brasil até uma crítica sobre a produção literária pós-1970.

Meu texto aqui, entretanto, não tem o intuito de explicar aspectos da sociedade a partir da lista dos mais vendidos, e sim mostrar como essas listas podem às vezes surpreender e ir na direção contrária de qualquer tentativa de estabelecer um padrão de leitores e escritores. Qual não foi a surpresa de todos quando Toda poesia, antologia poética de Paulo Leminski publicada recentemente pela Companhia das Letras, apareceu em primeiro lugar nos mais vendidos da Livraria Cultura, da Livraria da Vila, entre outras? Há algumas semanas Toda poesia tem vendido mais do que os livros da trilogia Cinquenta tons de cinza, o best-seller mais comentado do ano passado. Esse feito não só surpreendeu a todos como contrariou aqueles que dizem que livros de poesia não vendem nada, que investir na publicação de obras poéticas é bobagem. Como assim um livro de poemas virou best-seller?

Embora Leminski sempre tenha sido um poeta mais pop, foi recebida com muito espanto a constatação de que a poesia havia vencido a mercadoria, isto é, um livro de ficção que não se preocupou em ser literatura, só produto a ser consumido por milhões de pessoas ao redor do mundo. Ora, mas todo livro não é mercadoria?, vocês poderiam me perguntar. É claro que sim, mas é sempre bom nos questionarmos se o que pagamos por essa mercadoria é mais ou menos do que ela vale. Um livro que contém todos os poemas do Leminski reunidos não tem valor; podemos pagar o que for por ele que sempre será menos do que ele vale.

Mesmo reconhecendo o seu valor, já li algumas críticas de acadêmicos dizendo que Leminski não merece ser colocado no pódio dos melhores poetas brasileiros, ao lado de Drummond, João Cabral e Manuel Bandeira. E daí?, eu pergunto. Se os brasileiros estão preferindo gastar seu dinheiro nas livrarias para ler os versos do Leminski a comprar a delirante e conservadora história do Christian Grey, me parece que uma flor laranja nasceu no asfalto cinza. E se 2012 foi o ano do pornô-soft-para-mulheres-que-acreditam-em-príncipe-encantado, pode ser que 2013 – por que não? – seja o ano da poesia, que é, nas palavras do próprio poeta bigodudo, “um heroísmo de acreditar na pura beleza da linguagem” e “uma maneira de sair da maioria” – mesmo estando na lista dos mais vendidos.

Toda PoesiaPaulo Leminski. Companhia das Letras, 424 págs., R$ 46.

Toda Poesia
Paulo Leminski. Companhia das Letras, 424 págs., R$ 46.