O Hamas: Tudo Sobre (ou o pouco que sei)

Hamas-Logo

Desde sua fundação, em 1987, o Hamas proclamou-se um “Movimento de Libertação Nacional”, cuja base ideológica é o Islã. O movimento, que tem posições profundamente conservadoras em relação a temas como o livre mercado e a liberdade sexual, rapidamente ganhou popularidade sobre organizações palestinas seculares e de esquerda. Entretanto, o Hamas e Hezbollah, ambas organizações islâmicas, são as únicas organizações de massa no Oriente Médio que continuam a resistir a Israel e aos EUA. É importante entender como o Hamas passou a ocupar esta posição privilegiada para entender a forma como suas políticas afetarão a região e os esforços pela libertação da Palestina.

Neste contexto, ressalta-se que a história do Hamas é inseparável do movimento islâmico mais popular e difundido do mundo árabe: a Irmandade Muçulmana, fundada pelo professor egípcio Hassan al-Banna, em 1928. Naquela época, o Egito era nominalmente independente, mas estava efetivamente sob controle britânico; tropas britânicas tinham suprimido uma revolta popular anti-colonial em 1919 e sedimentado seu poder na região. Nacionalistas liberais do partido Wafd, composto mormente por grandes proprietários de terras e alguns industriais, procuravam barganhar com os britânicos por mais autonomia, mas desencorajavam quaisquer mobilizações de massa que pudessem desafiar suas posições econômicas. Já os membros da Irmandade Muçulmana, quando afrontados por esta nova onda de dominação imperial britânica e de desigualdade social, clamaram por um retorno ao que consideravam ser os princípios básicos das primeiras comunidades islâmicas. O Hamas é uma continuação desta tradição e destes anseios.

A idéia de uma comunidade islâmica moralmente revigorada e capaz de repelir os poderes coloniais era muito interessante para determinados grupos sociais. A Irmandade Muçulmana, inicialmente financiada por doações de grandes fazendeiros e industriais com o intuito de difundir a idéia de ‘renovação islâmica’ entre os retirantes recém-chegados às cidades, fundou centros de caridade e hospitais (instituições particularmente úteis para as classes desapossadas). O Hamas, em Gaza, que nasceu da Irmandade Muçulmana do Egito, tem seguido o mesmo padrão. Grande parte do financiamento do Hamas vem de empresários palestinos e de grandes capitalistas dos países do Golfo.

A influência inicial da Irmandade egípcia advêm da situação territorial da Palestina entre 1948 e 1967, quando a Cisjordânia foi anexada pela Jordânia e Gaza ficou sob a administração do Egito. Voluntários da Irmandade Muçulmana lutaram contra o estabelecimento e a expansão de Israel em 1948, mas não adentraram a luta armada e rapidamente aceitaram o novo status quo do Território Palestino. Sheikh Ahmed Yassin, líder espiritual da Palestina que se tornou um ativista da Irmandade Muçulmana depois de dedicar a sua juventude aos estudos islâmicos no Cairo, pregou e realizou trabalhos de caridade na Cisjordânia e na Faixa de Gaza durante a década de 1960. Tais territórios, entretanto, foram apreendidos pelas forças israelenses após a Guerra dos Seis Dias (1967).

ahmad-yassin

A ocupação israelense de Gaza após a Guerra dos Seis Dias (1967) não alterou a meta de Yassin de promover uma revitalização islâmica. Organizações seculares como o Fatah e, posteriormente, a declaradamente marxista “Frente Democrática pela Libertação da Palestina” e a “Frente Popular pela Libertação da Palestina”, assumiram a resistência à ocupação Israelense; a Irmandade Muçulmana não. Em 1973, Yassin estabeleceu o al-Mujamma al-Islami (Centro Islâmico) para coordenar as atividades políticas da Irmandade Muçulmana em Gaza; os Irmãos e o Centro Islâmico ganharam prestígio oferecendo os serviços de assistência social, saneamento básico e saúde que os ocupantes israelenses não estavam dispostos a fornecer.

Sheikh Yassin cuidadosamente construiu uma base de poder entorno do Centro Islâmico de Gaza, em mesquitas e em universidades (que tinham começado a aceitar o ingresso de estudantes rurais e mais conservadores). A Majd, uma milícia do Centro Islâmico, foi criada para lutar contra a esquerda e intimidar as pessoas à observância religiosa. Dessa forma, uma estrutura armada de baixa complexidade já estava em vigor antes da primeira Intifada (levante palestino contra o controle israelense da Cisjordânia, Gaza, e Jerusalém Oriental). No entanto, foi somente em 1987, com a eclosão dessa primeira revolta popular na Palestina, que o Hamas foi oficialmente formado (como braço político local da Irmandade Muçulmana em Gaza).  O Hamas recusou-se a juntar-se à OLP durante a primeira Intifada, mas atuou essencialmente da mesma forma. A nova organização concebia-se principalmente como um movimento de libertação nacional,  mas propunha o islã como a solução para a crise de identidade do nacionalismo palestino. Um ano depois, em 1988, o Hamas publicou sua Cartilha oficial, distanciando-se do ethos pacifista da Irmandade Muçulmana.

A Cartilha do novo movimento reivindicava toda a terra natal dos Palestinos para os Palestinos, incluindo a parte que se tornou Israel em 1948, e considerava o judaísmo um monoteísmo de respeito, a ser protegido por um governo islâmico, mas também replicava libelos anti-semitas encontradas nos notoriamente falaciosos Protocolos dos Sábios de Sião. Embora essas falácias já tenham sido abandonadas pelos líderes do Hamas há tempo, estas passagens repugnantes e contraproducentes não devem ser interpretadas como fruto de um anti-semitismo inerente à cultura árabe e/ou islâmica, mas sim como um sintoma da perigosa confusão política que os palestinos sofrem por só encontram israelenses e judeus como agentes de um opressivo projeto colonial. Esta confusão só pode ser efetivamente desafiada a partir de um ponto de vista que apóia a resistência a essa opressão enquanto não admite a redução da questão ao anti-semitismo. Fazer o contrário é fazer com que a oposição ao anti-semitismo advenha somente do sionismo, restringindo os parâmetros do debate a este falso dualismo.

De qualquer forma, o apelo principal do Hamas não estava em sua Cartilha, independentemente do conteúdo desta. Os palestinos foram atraídos ao Hamas pela rejeição do Hamas à proposta da Organização pela Libertação da Palestina (OLP) de acordar com Israel uma solução de dois Estados. A Declaração de Tânger da OLP, de 1988, e a renúncia da Jordânia ao território da Cisjordânia efetivamente ofereceram a Israel o reconhecimento do seu território, algo particularmente desagradável para a população de Gaza, cuja maioria era (e ainda é) composta de refugiados que teriam o retorno às suas casas negado sob um acordo de dois Estados nos moldes propostos por Israel. O recém-criado Hamas denunciou a participação da OLP nas negociações (infrutíferas) de Madrid, mas o Hamas continuava financeiramente e politicamente mais fraco do que o Fatah e a OLP. A balança tenderia a favor do Hamas à medida em que a OLP passava a ser identificada com a lenta rendição e usurpação dos remanescentes direitos palestinos, cuja destruição se consolidava no dito “processo de paz” que se seguiu à primeira Intifada.

RETRO-ISRAEL-INTIFADA-PALESTINIANS

O referido processo de paz (também conhecido como o processo de Oslo, por causa do papel desempenhado pelos mediadores noruegueses) foi composto por uma série de acordos entre a OLP e Israel. O primeiro deles foi a Declaração de Princípios, assinada no gramado da Casa Branca em 1993. O principal princípio declarado era que os palestinos ‘reconheciam’ Israel em 78% das terras originalmente Palestinas. A OLP acreditava que isso faria com que Israel gradualmente se retirasse dos 22% restantes, ocupados em 1967: a Cisjordânia e a Faixa de Gaza. Israel havia concebido uma retirada gradual dos Territórios Ocupados, mas uma em que ela manteria o controle sobre suas colônias e estradas. Embora Arafat e a OLP tenham reconhecido o direito de Israel existir, Israel apenas reconheceu a competência da OLP para negociar. Os acordos adiaram as questões das fronteiras, dos refugiados, de Jerusalém e dos assentamentos até as ditas ‘negociações finais’ (que, obviamente, nunca ocorreram). Esta manobra permitiu que Israel não só mantivesse seu controle sobre os Territórios Ocupados, mas ampliasse a ocupação por meio da construção de mais checkpoints, barreiras e assentamentos. O número de colonos israelenses na Cisjordânia e na Faixa de Gaza aumentou 50% no período inicial das negociações de Oslo (de 1993 a 2000). Estabeleceu-se, também, a Autoridade Palestina (AP), com um Poder Legislativo eleito democraticamente e um Presidente, mas cuja jurisdição se estendia somente às áreas palestinas mais populosas; o resto do território permaneceria sob controle israelense direto ou sob controle conjunto.

O Hamas se opôs aos acordos de Oslo desde o início, insistindo na reivindicação palestina de todo o território originalmente Palestino e no direito de regresso dos refugiados às suas antigas vilas, cidades e casas. Eles também denunciaram os líderes da OLP que formaram a Autoridade Palestina e que rapidamente se enriqueceram, à maneira de outros governantes árabes dos demais países da região. O Hamas se recusou a participar das eleições da Autoridade Palestina, não porque eles rejeitavam procedimentos democráticos, mas porque eles se recusavam a legitimar Oslo. Foi uma decisão astuta. Como o processo de Oslo vacilou, a Autoridade Palestina tornou-se cada vez mais irrelevante. O Hamas não rejeitava (e não rejeita) uma solução de dois Estados; todas as suas grandes figuras expressaram vontade de celebrar um cessar-fogo de ao menos uma década com Israel, desde que Israel retirasse suas tropas e colonos para a fronteira de 1967. O Hamas não estava preparado, no entanto, para renunciar à resistência militar até que um acordo desse tipo fosse celebrado. Assim, o Hamas lançou uma série de ataques suicidas contra alvos israelenses ao longo das negociações de Oslo, a primeira delas sendo realizada em vingança ao massacre de Hebron (1994), quando um colono israelense da reserva do exército invadiu uma Mesquita (onde estariam os túmulos de Abraão e Sarah) e metralhou 40 fiéis islâmicos durante a reza.

A posição do Hamas foi validada pelo colapso do processo de Oslo e pela erupção da segunda Intifada (em 2000) devido a erros táticos por parte de Israel – como a tentativa fracassada de assassinar Khaled Mesh’al, um importante líder do Hamas na Jordânia, e o envio de centenas de membros do Hamas para o exílio no Sul do Líbano, reduto do Hezbollah. A principal razão pela segunda Intifada, no entanto, foi política. A segunda Intifada refletiu a raiva dos palestinos com um processo de paz que só tinha piorado as suas vidas. Nesse contexto, as pessoas identificavam o Hamas com a resistência a este processo. A segunda Intifada aproximou o Hamas e o Fatah, mas os contínuos ataques israelenses à infra-estrutura política e física da Palestina, especialmente a ofensiva israelense aos centros urbanos na primavera de 2004, enfraqueceram o Fatah, que havia se instalado nessas estruturas. No topo da estrutura política da Palestina estava Yasser Arafat, que manteve (ou recuperou) o seu prestígio como líder da resistência palestina. A morte de Arafat em novembro de 2004, entretanto, privou o Fatah de seu maior símbolo remanescente para clamar uma certa hegemonia sobre a luta palestina; Mahmoud Abbas seria o seu substituto. Enquanto Abbas comprometeu-se às iniciativas de George W. Bush para continuar o processo de Oslo, por meio do chamado “road map”, o Hamas conseguiu a única retirada de colonos e assentamentos israelenses em terras Palestinas até a presente data; quando as tropas e os colonos israelenses deixaram Gaza em 2005. Entretanto, o território permaneceu sitiado por forças aéreas, terrestres e marítimas de Israel.

A retirada de Gaza tinha o intuito de livrar o Estado de Israel de uma população árabe grande e rebelde a fim de liberar recursos e forças para melhor manter as colônias israelenses na Cisjordânia. Esta retirada, portanto, fazia parte integral de um novo conceito de defesa israelense: de segregação unilateral e construção de uma barreira sólida para garantir essa segregação. Esta doutrina procura tornar a presença física dos palestinos uma realidade a-política. O Muro de Hasbará, que corta comunidades palestinas fisicamente umas das outras, é uma manifestação literalmente concreta desta estratégia. No entanto, as atitudes de Israel demonstram que os assentamentos não teriam sido retirados se os benefícios de ocupar Gaza superassem os custos da ocupação. Infelizmente, foi necessário o Hamas elevar os custos da ocupação para os israelenses se retirarem.

Durante quase 30 anos os palestinos tinham se convencidos de que fazer concessões a Israel era o caminho para recuperar ao menos uma parte de suas terras; a contínua apropriação de terras por Israel provou que não haveria acordos com Israel. A intransigência Israelense no tocante à terra, por sua vez, legitimou as políticas do Hamas, como a do Hezbollah no sul do Líbano, ao mostrar que a única maneira de acabar com a ocupação militar Israelense era por meio da luta armada. Para o mundo, Ariel Sharon apresentou a retirada de Gaza como uma contribuição para a paz baseada em uma solução de dois Estados. Entretanto, no ano seguinte, 12.000 colonos se estabeleceram na Cisjordânia (enquanto somente 8.000 colonos foram retirados de Gaza), reduzindo ainda mais a possibilidade de se criar um Estado Palestino independente e contínuo.

A apropriação de terra e a construção da paz são conceitos incompatíveis. Israel tinha uma escolha, e ela escolheu a terra. Enquanto a retirada de Gaza e a apropriação de terras na Cisjordânia  se sedimentavam, Gaza foi convertida em uma prisão a céu aberto. Da retirada dos colonos em diante, a força aérea israelense passou a ter liberdade irrestrita para lançar bombas sobre os habitantes desta prisão.

O sucesso do Hamas em forçar a retirada israelense de Gaza em 2005 abriu o caminho para a grande vitória eleitoral do Hamas nas eleições para o Poder Legislativo Palestino em 2006. O Hamas, cuja plataforma eleitoral baseava-se em uma plataforma de “Mudança e Reforma”, ganhou 60% do voto popular na Palestina. Apesar de “Mudança e Reforma” ser um slogan vazio, qualquer candidato do Fatah que proferisse tal slogan seria ridicularizado, tão consolidada era a visão dos palestinos sobre os fracassos do Fatah. O Fatah, liderado por Mahmoud Abbas, não só foi incapaz de garantir melhoras na condição de vida dos Palestinos frente à ocupação Israelense, mas também era acusado de corrupção, má gestão e colaboração; a campanha do Fatah nas eleições legislativas foi fortemente apoiada por Israel e pelos EUA, mas o esforço foi inútil.

Após a vitória do Hamas, o gabinete israelense se recusou a reconhecer os novos membros do Poder Legislativo Palestino e declarou que nunca iria negociar com “qualquer administração palestina que fosse parcialmente composta por uma organização terrorista armada que defende a destruição do Estado de Israel”. O Fatah retirou equipamentos e recursos dos ministérios, se recusando a cooperar com os ministros do Hamas. O Presidente da Palestina, o Sr. Abbas, estava abertamente em conflito (armado) com membros do Poder Legislativo Palestino e do Gabinete Presidencial. Milícias do Fatah receberam treinamento e recursos da Jordânia e dos EUA para encabeçarem um golpe de estado, mas o plano para se livrar do Hamas no verão de 2007 saiu pela culatra. Os combatentes do Hamas foram capazes de expulsar os combatentes do Fatah de Gaza; o oposto ocorreu na Cisjordânia.

O bloqueio de importações e exportações a Gaza foi implementado depois do golpe fracassado do Fatah em 2007. Este bloqueio é um ato contínuo de punição coletiva, pontuado por atos de violência brutal direcionados a aterrorizar a população. Como resultado, de acordo com a ONU, a economia formal em Gaza entrou em colapso: mais de 70% da população vive com menos de um dólar por dia, mais de 75% depende de ajuda externa para conseguir alimentos e mais de 60% não têm acesso diário à água. Apesar de tudo, mesmo com a tentativa de golpe de estado e o bloqueio, o Hamas provou-se impossível de desalojar; parecia que Israel teria que lidar com o Hamas. A perspectiva de ter que reconhecer o Hamas como um parceiro de negociações (e, portanto, de dialogar sobre o levantamento do bloqueio) estava por trás do ataque israelense a Gaza no final de 2008 (Operação Chumbo Fundido).

Uma trégua de seis meses foi acordada entre o Hamas e Israel em junho de 2008. O Hamas condicionou a renovação dessa trégua à suspensão do bloqueio. Yuval Diskin, então chefe da Shin Bet (força de inteligência interna israelense) disse, em uma reunião de gabinete antes do início da Operação Chumbo Fundido, que o Hamas estava “interessado em continuar a trégua, mas queria melhorar seus termos […] queria que Israel levantasse o bloqueio, parasse os ataques, e estendesse a trégua para incluir [a Cisjordânia].” (Tradução Livre)

A despeito da ferocidade da Operação Chumbo Fundido, o Hamas não foi destruído, mas a guerra devastou a já arruinada infra-estrutura do território. De acordo com o grupo israelense de direitos humanos B’tselem, metade dos 1.387 palestinos mortos eram civis. Israel, é claro, garantiu uma supremacia militar ainda mais esmagadora sobre Gaza e sobre os palestinos, mas foi incapaz de usar essa supremacia militar para alcançar o seu objetivo político – derrubar o Hamas – mesmo enfrentando um povo desnutrido e cujo território era (e é) inteiramente controlado pelas forças terrestres, marítimas e aéreas de Israel. A incapacidade de Israel de usar seu poder de fogo e supremacia aérea para efetuar a mudança política que desejava enfraquece a “doutrina Dahiya”, que tem sido a base das recentes operações israelenses. Esta doutrina, nomeada em homenagem ao subúrbio de Beirute (Dahiya) que foi sua primeira cobaia (em 2006), considera o uso de “força desproporcional” imprescindível em qualquer local que Israel considere  uma ameaça à sua segurança. No entanto, o uso da força bruta produziu (e produz) retornos escassos a Israel; durante as últimas guerras em Gaza, Israel não foi capaz de usar sua superioridade militar para atingir seus objetivos. Podemos estar perante uma situação similar hoje.

Usando uma metáfora Netanyahuesca, a ‘linha vermelha’ do Hamas para parar os seus ataques é o levantamento do bloqueio. Isso é possível, mas apenas através de uma campanha sustentada pela pressão popular, especialmente pelos aliados ocidentais de Israel. Por outro lado, uma solução a longo prazo parece improvável porque a idéia de segurança do Estado de Israel tem como premissa a manutenção de um “Estado judaico”, que exclui os palestinos. Enquanto os palestinos existirem, esta ‘segurança’ jamais será conquistada.

Por outro lado, o Hamas não é uma organização socialista ou da classe trabalhadora e, certamente, não prega uma visão de emancipação universal. Como a OLP, o Hamas evita desafiar os outros regimes árabes. Eles estão comprometidos com a luta contra a ocupação e o estabelecimento de um Estado palestino, mas querem garantir que esta luta não se estenda ao exercício de um poder popular que possa ir além dessas metas. Dentro dos limites da Palestina, eles conseguem desafiar o poderio militar de Israel, mas não derrotá-lo. O impacto de quase duas gerações de ocupação, bloqueio e exclusão da economia colonial faz com que a perspectiva de uma transição interna, a la África do Sul, seja improvável.

Os porta-vozes israelenses afirmam que Israel não tem outra escolha que não manter o bloqueio a Gaza porque o Hamas é uma organização terrorista fundamentalista islâmica que não reconhece o direito de Israel de existir. Porém, uma vez que ‘o direito de existir’ de Israel implica na negação do direito dos palestinos de retornarem à sua terra natal em condição de igualdade com os judeus israelenses, pode-se perguntar por que o Hamas, ou qualquer pessoa comprometida com a idéia de igualdade racial, é obrigado a reconhecê-la. Além disso, esta constatação sobre o Hamas é falsa: durante as quase três décadas de sua existência, o Hamas clamou por um cessar-fogo de dez anos (uma hudna), o que implicaria no reconhecimento de fato do Estado de Israel em suas fronteiras pré-1967, desde que Israel se retirasse a essas fronteiras e removesse seus assentamentos ilegais na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental. Khaled Meshaal, lider do Hamas desde 2004, falou claramente sobre o tema em 2009, quase 5 anos atrás:

“Khaled Meshaal, de 53 anos, disse em uma entrevista de 90 minutos, na sede do Hamas na Síria, que o seu partido político e a ala militar do seu partido se comprometeriam a um cessar-fogo imediato e recíproco com Israel. […] Ele também disse que sua organização aceitaria e respeitaria um Estado palestino com base nas fronteiras de 1967 como parte de um acordo de paz mais amplo com Israel; contanto que os negociadores israelenses aceitassem o direito de retorno dos milhões de refugiados palestinos e o estabelecimento de uma capital para o Estado palestino em Jerusalém Oriental. […] O Sr. Meshaal disse que o Hamas não seria um obstáculo para a paz. ‘Nós, juntamente com outras facções palestinas, em consenso, acordamos em aceitar um Estado palestino nas fronteiras de 1967’, disse Meshaal. ‘Este é o programa nacional. Este é o nosso programa. Esta é uma posição que defendemos e respeitamos.’” (Tradução Livre)

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O Hamas, entretanto, não é um partido inocente neste conflito. Tendo sido negado os frutos da sua vitória eleitoral e confrontado por adversários sem escrúpulos, o Hamas recorreu à arma dos oprimidos, dos desesperados: o terror. Além disso, apesar de toda a morte e destruição que Israel infligiu sobre o Hamas, o Hamas mantive a sua resistência e continuou disparando seus foguetes. Simplesmente não há solução militar para o conflito entre os dois grupos. O problema com o conceito de segurança de Israel é que ele nega até mesmo a segurança mais elementar para a comunidade Palestina. A única maneira de Israel alcançar alguma segurança não é através da força bruta, mas através do diálogo com o Hamas, que tem declarado repetidamente a sua vontade de negociar um cessar-fogo de longo prazo (de 10, 20 ou até mesmo 30 anos) com o Estado israelense com base nas fronteiras pré-1967. Israel rejeitou essa oferta e continua rejeitando-a pela mesma razão que rejeitou o plano de paz da Liga Árabe de 2002: tais ofertas envolvem concessões.

Na presente guerra, Israel acusou o Hamas de seqüestrar e assassinar três colonos perto de Hebron sem produzir uma prova sequer. Quatro semanas e 1000 vidas depois (de ambos os lados), Israel ainda não produziu qualquer prova demonstrando o envolvimento do Hamas naqueles trágicos assassinatos. Durante os dez dias subseqüentes aos assassinatos, Israel realizou a Operação “Brother’s Keeper” na Cisjordânia, prendendo cerca de 800 palestinos sem mandatos judicias, acusações formais ou prospectos de julgamento, matando nove civis e invadindo cerca de 1.300 edifícios (residenciais, comerciais e públicos). Foram essas provocações israelenses que precipitaram os disparos de foguetes do Hamas.

Israel é a décima-primeira potência militar do mundo – a mais forte, de longe, no Oriente Médio – e uma potência nuclear que não ratificou os acordos de não-proliferação nuclear da ONU. Com o uso de drones, F-16s e um arsenal de tecnologia e armamento moderno, Israel tem plena capacidade de evitar as mortes em massa de civis. Mas Israel já matou ao menos 800 palestinos; demoliu 3.175 casas (ao menos uma dúzia com famílias dentro); destruiu cinco hospitais e seis clínicas; parcialmente danificou sessenta e quatro mesquitas e duas igrejas; parcialmente destruiu oito ministérios; e deixou 4.620 feridos nos últimos vinte e tantos dias. E o ataque continua.

A ONU estima que mais de 74% dos mortos são civis. Isso era de se esperar em uma população de 1,8 milhões onde o número de membros do Hamas é de aproximadamente 15.000. Os grandes meios de comunicação israelenses, no entanto, insistem em dizer que estes palestinos queriam morrer, encenaram suas próprias mortes, ou foram vítimas trágicas do Hamas; o poder militar Israelense está culpando as vítimas por suas próprias mortes, acusando-as de desvalorizar a vida humana e atribuindo esse desrespeito a uma dita “falência cultural”. Os dados, entretanto, indicam flagrantes violações de Direitos Humanos e infrações às normas basilares do Direito Humanitário Internacional por parte de Israel (lembremos que Israel tem status de Potência Ocupante, como definido pela IV Convenção de Genebra, e tem o dever legal de proteger a população civil ocupada).

Israel não conseguirá bombardear os palestinos à submissão e, certamente, não conseguirá bombardeá-los à paz. Quem sabe algum dia entenderão que é necessário dialogar com os palestinos, fazer concessões e terminar a ocupação militar que perdura há quase 50 anos para que exista algum prospecto de paz. Ou isso, ou terão que matar todos eles. 

Na bolha, na guerra, no meio do rolê…

por Luís H. Deutsch

TEL-AVIV – As sirenes antibomba param a ‘cidade que nunca dorme’ por alguns minutos. Percebi isso desde a primeira vez que ouvi o desagradável barulho. Na estação de ônibus central, de onde partem pessoas para todas as partes de Israel, soldados das IDF em prontidão esperam que as explosões ouvidas nos céus sejam apenas projeteis interceptados, assim como eu. Ontem, visitei o prédio no bairro de imigrantes que é também um alojamento da equipe de emergência do exército desde o começo de Julho.

A brigada 997 das IDF é um dos serviços de resgate urbano na ocasião de uma ocorrência grave, como no caso de um míssil atingir um edifício habitado, por exemplo. Na região metropolitana de Tel-Aviv, eles são responsáveis por socorrer quase 3,5 milhões de pessoas se o pior acontecer.

O espaço, assim como a quase totalidade do país, está razoavelmente seguro no que diz respeito à nova leva de hostilidades entre Israel e Palestina. São 18 dias em que a operação Margem Protetora (Protective Edge, em inglês) acontece na Faixa de Gaza para – segundo o governo e as IDF – ‘destruir as instalações terroristas do Hamas, que continua atirando foguetes e mísseis contra o território israelense’. Nas mais de duas semanas de tensão, o “código vermelho” foi acionado na Grande Tel-Aviv todos os dias. Nenhuma casualidade grave foi registrada.

O tenente Gal Goldman, 25, controla uma equipe de 10 soldados da brigada 997. “Todos estão preparados caso sejam chamados e podem chegar a qualquer lugar de região metropolitana em poucos minutos”, explica o oficial. Pela base estar situada em um bairro central e dispor de ônibus especiais para a equipe, a mobilização é realmente rápida. Salas de controle se misturam com diversas camas onde os soldados dormem e passam seus dias. Uma programação de treinamento diária deixa os convocados ocupados e preparados para diversos tipos de emergência.

Porém, alguns fatores fazem com que a rotina vivida pelos soldados seja apenas cansativa. Só Tel-Aviv, segundo sua prefeitura, dispõe de local de abrigo para 800.000 pessoas, sendo que a cidade tem 400.000 habitantes. O sistema de defesa antimíssil de Israel, o Iron Dome, apesenta até agora uma porcentagem de mais de 70% no sucesso em interceptar os recentes morteiros dos Hamas, afirmam as IDF.

Rastro da explosão de um míssil interceptado pelo Iron Dome em Tel-Aviv

Rastro da explosão de um míssil interceptado pelo Iron Dome em Tel-Aviv

Isso é o que falo e repito sempre para minha mãe no Brasil desde que a primeira sirene tocou enquanto eu estava na rua. Essa cidade é super-protegida. Tel-Aviv ainda continua na bolha enquanto a situação do conflito entre Israel e Gaza parece piorar.

As cifras entretanto são muito dramáticas. O número de mortos na Faixa de Gaza, até o fechamento deste artigo, ultrapassa os 1000 – sendo a maioria de civis, segundo fontes do governo palestino e mídia, além de ONGs e da ONU. Cerca de 100 são crianças. Israel passou a registar mais baixas após o início da operação por terra no último dia 17. São mais de 40 pessoas – soldados na grande maioria.

A nova onda de violência começou no meio de Junho, quando três jovens israelenses foram sequestrados em um assentamento judaico localizado na Cisjordânia.  O crime ainda não foi comprovadamente atribuído ao Hamas, porém, todas as evidências indicam que os sequestradores tenham agido em apoio ao grupo terrorista que controla Gaza e ultimamente aliou-se ao Fatah, que ainda mantém laços diplomáticos com o governo de Israel.

Os meninos foram provavelmente mortos horas depois do sequestro, baleados e enterrados próximos à cidade de Hebron. Seus corpos foram encontrados no dia 30 de junho e durante o período das buscas, centenas de Palestinos foram presos nas investigações – o que esquentou os ânimos do já conturbado conflito.

No dia seguinte da descoberta, um grupo de seis israelenses militantes de extrema direita sequestrou e queimou vivo um adolescente palestino. Após o ato que indica uma vingança, a escalada apenas intensificou, com protestos diários em Jerusalém Oriental, onde morava o jovem assassinado.

A ação militar de Israel não tardou. A “Margem Protetora” atacou até agora aproximadamente 3.700 locais em Gaza. Hospitais e escolas inclusive, os quais as IDF alegam terem relação ‘comprovada com o terrorismo do Hamas, que esconde armas e usa civis como escudo humano’. A chuva de mísseis do grupo contra o território israelense não para, são mais de 2.300 – chegando até cidades onde o armamento antigo não conseguia alcançar.

Na fronteira entre Israel e a Faixa da Gaza, poucos dias depois do início da Operação Margem Protetora. Ao fundo, em Gaza, uma explosão resultante do ataque aéreo israelense.

Na fronteira entre Israel e a Faixa da Gaza, poucos dias depois do início da Operação Margem Protetora. Ao fundo, em Gaza, uma explosão resultante do ataque aéreo israelense.

Ambos envolvidos acusam-se de cometer crimes de guerra.  Na mídia, jornalistas e meios de comunicação travam batalhas paralelas em apoio às causas. Protestos das mais variadas tendências ganham as redes sociais e também as ruas do West Bank, das cidades israelenses e do mundo todo, tendo a violência de manifestantes, das IDF e da polícia como pano de fundo em muitas ocasiões. Todas as tentativas para um cessar-fogo falharam até agora e apenas tréguas “humanitárias” de poucas horas foram aprovadas.

Movimento militar nas estradas de Israel em direção à Gaza, uma semana antes da fase terrestre da operação israelense.

Movimento militar nas estradas de Israel em direção à Gaza, uma semana antes da fase terrestre da operação israelense.

O medo e a morte tornaram-se rotina em Israel e em Gaza. De dentro, vemos que a situação é uma moeda com dois lados manchados de sangue e desesperança.

E onde parece haver apenas espaço para o desespero e rancor, venho com minha inevitável opinião sobre o assunto. Mas, tento ser o mais construtivo possível. Pois, acredito que disseminar o ódio e escolher um lado para sustentar 100% como uma cega torcida de futebol é apenas prestar um desserviço à solução pacífica.

Afirmo com coragem que sou a favor da solução dos dois Estados. Pois é assim que a situação já “é”, apesar de não ser formalmente aceita.  Ambos precisam se aceitar. Israel, como o lado mais forte do conflito, naturalmente apresenta sua superioridade bélica. Porém, precisa apresentar uma urgente proposta para realmente trazer “tranquilidade” para toda a região. Instável desse jeito, ela só se mostra vulnerável a perigos muito maiores e infinitamente mais radicais, como o ISIL, por exemplo.

Não creio que a ação militar israelense – por mais implacável que seja – botará um ponto final na luta armada do Hamas. O financiamento do grupo persistirá e as sementes para represálias violentas vingarão nos terrenos arrasados pelos ataques da força aérea de Israel. Assim como acontece em qualquer caso onde a violência substitui a razão, a educação precisa entrar para mudar as coisas.

Israel e Palestina precisam trabalhar juntos para que haja a opção justa e pacífica na representação de um povo hoje tão sofrido. Só a cooperação pode trazer benefícios eternos e estabilidade.

A coalizão atual do governo israelense não considera parar sua política de assentamentos na Cisjordânia nem o bloqueio à Gaza, o que é essencial para fomentar as premissas de qualquer discussão, ao ponto que , atualmente, ela só gera mais ranhuras na relação entre os lados e isola Israel na comunidade internacional.

O Hamas – sendo uma organização terrorista reconhecida internacionalmente, precisa ser desmantelado. Seu modo de lutar não é legítimo e caberá a um futuro Estado Palestino, o papel de combater e eliminar a via política do terror. Só uma Gaza livre do grupo e com acesso a uma economia aberta sem as sanções israelenses será capaz de destruir a opção belicista de dentro.

Ambos lados desconfiam dessa solução. Mas é a única possível. Esse voto de confiança precisa ser dado, uma vez que todos os olhos do mundo – mesmo com todas as podridões que o planeta passa – são focados quase que totalmente nessa região. Isso é urgente.

Por fim, as pessoas precisam conviver. Só quando conhecemos a rotina dos outros, somos capazes de dividir os problemas que nos afetam e construir uma nova realidade. Sendo assim, conheçam e apoiem o projeto da Peace Factory.

O mínimo que pode ser feito por organizações como a Peace Factory já é um passo importante na coexistência pacífica no Oriente Médio.

O mínimo que pode ser feito por organizações como a Peace Factory já é um passo importante na coexistência pacífica no Oriente Médio.

Sim, pode parecer que tudo o que eu falo funciona para colocar minha cabeça levemente em meu travesseiro. Sim, é exatamente por isso.

Enfim, Tel-Aviv continua segura. Mas ainda é um alvo. Mesmo durante os preparativos do jantar de Shabbat – dia sagrado para a religião judaica, a equipe especial de resgate segue em alerta na estação central. Completamente uniformizados e preparados para qualquer situação, soldados cantavam as rezas enquanto eu entrevistava o Tenente Goldman – ou apenas Gal, pois é um grande amigo meu. No final da visita, presenteei meu brother com uma fitinha do Bonfim e o lembrei da importância de fazer os desejos.

Fui embora alimentando minha alma de esperança, mesmo no meio de toda essa zona. Pois é isso o que venho fazendo desde que toda a confusão começou. Fui embora esperando que as preces desse Shabbat em Israel, as do final do Ramadã em Gaza e os desejos do meu amigo falem a mesma língua: a da paz.

Salaam e Shalom

por Luís Henrique Deutsch

Antes que o título do post vire uma deselegante comparação a uma dupla de sertanejo universitário, a explicação: ambas palavras apresentadas acima, significam respectivamente em hebraico e em árabe, “PAZ”.

Ambas palavras, tanto para os árabes, como para os judeus são muito utilizadas. Fazem parte dos cumprimentos mais básicos, dos brindes e dos desejos. 

Ambas palavras, à mim, transmitem uma sensação boa. Por serem parecidas e por me lembrar de quando atravessei o planeta até chegar na casa do c… Até chegar ao Oriente Médio. Ao lugar mais incrível que eu fui em toda minha vida.

Há pouco menos de um ano, peguei minhas malas e fui encontrar um grupo muito especial de pessoas. Graças a um programa da horíssima financiado pelo governo israelense, filantropos americanos e comunidade judaica mundial, fui parar em Israel… A Terra Prometida.

Nem todos os anos em que ouvi as histórias da minha família, que fugiu da Áustria anexada ao governo de Hitler… Nem todo o período antes da viagem, nas reuniões do Taglit (o tal programa da hora)… Nem as tortuosas 95 mil horas sentado no avião vendo o mundo passando diante dos meus olhos me fizeram cair a ficha do que eu estava prestes a descobrir.

A viagem, perfeita, me ajudou a definir algumas coisas:

1. Eu nunca mais vou passar o Ano Novo fora de Santos.

2. Falafel é a comida mais gostosa do universo.

3. Eu acredito em alguma entidade supra humana, só não sei o quê.

4. Eu estava na região mais tensa do planeta.

5. Eu ainda acredito na paz. Em árabe e em hebraico.

Estar naquele lugar, além de ouvir e ver de perto coisas que eu só via através da lente fosca da nossa querida mídia brasileira me ajudou muito a entender algumas coisas. Larguei de lado o evidente preconceito que existe aqui. Seja quando você defende Israel, ou quando você defende a Palestina.

Hoje, quando eu vejo as notícias de uma iminente e infeliz guerra entre Israel e o Hamas – que controla a Faixa da Gaza, eu paro e penso em vários fatores. Não fico divulgando vídeo do soldado israelense revistando criança, ou justificativas do ataque perfeito do IDF. Penso e discuto coisas que realmente importam, como a vida de pessoas e amigos que moram lá, desde um brother que está fazendo mestrado lá, até os soldados que conheci – pessoas que aos 18 anos, começam a carregar uma pesada missão. Penso também na barbaridade e na escala de violência. E penso também quem são os culpados.

Ao meu modesto ver, o governo de Israel atual e o Hamas, são duas aberrações. Causam os mesmos problemas com suas atitudes quase parecidas, para não dizer IGUAIS. Tanto o primeiro como o segundo adotaram a política do ódio tornando quase impossível a manifestação de outras ações para mudar a realidade para ambos os lados.

São bloqueios, muros, doutrinas, assentamentos do lado israelense… E são mísseis do lado do Hamas. E por mais que ambos defendam suas causas de uma guerra justa e bem delimitada. Eu só enxergo a violência sem noção e irrestrita de ambos os lados. 

Inconcebível é uma vida normal, em um lugar onde aviões despejam panfletos e SMS sobre ataques iminentes. Impossível de ficar controlado quando você ouve uma sirene medonha que te deixa com o cu na mão. O povo pensa isso. Mas os governos não.

Os lados não querem paz. A “comunidade internacional” também não quer. Os países da “grande irmandade mundial pela paz” ainda não decidiram se preferem petróleo ou democracia. Enquanto isso, o mundo assiste de camarote a treta que já é considerada “normal”. Daqui a pouco vão considerar “turística”.

Mas as pessoas querem PAZ. As pessoas em Gaza que carregam seus mortos pelas ruas precárias e furadas por metralhadores clamam por isso. Os habitantes da fervorosa Tel Aviv recém bombardeada pedem por isso. Os movimentos israelenses e palestinos pró re-educação popular pela condução diplomática-pacífica do conflito imploram por isso. Eu sonho com isso!

Mas nada adianta se estes não forem escutados por aqueles que realmente importam. Alô, Bibi! Alô, Hamas! Né?!

Mesmo assim, aquele país, aquela região me fascinou. E é pelo bem dela que eu escrevo aqui. Entre SHALOM e SALAAM, a gente escolhe os dois lados.