Dona J.K., 43 anos, chateada e desfavorecida

Por Maíra Souza

Você leu a VEJA dessa semana, menina? Olha, achei uma palhaçada esse negócio de lei pra empregada. Eu já pago uma fortuna pra Cidinha (muito mais do que o pessoal aqui do prédio paga pras moças), e ela ainda vem reclamar que quer direito a férias, a pagamento de horas extras, FGTS e o escambau a quatro.  Como se já não bastasse o tanto que eu gasto com a escola do Junior e a creche do Rex, as coisas aqui de casa e as minhas despesas pessoais, agora ainda vou ter que desembolsar mais uma grana para ter a casa e as roupas da minha família nos trinques.

Como se eu já não tivesse que me preocupar com a educação do Junior e com as coisas do MEU trabalho, ainda vou ter que ficar assinando carteira de trabalho e fazendo planilha pra controlar os horários da Cidinha. Pelo amordi, gente!  Esse povo não estuda, e eu que tenho que fazer com que a minha família vire uma empresa. Só falta agora ter lei pra obrigar a empregada a sentar na mesa de jantar com a gente, né?! Assim não dá!

Mas o que eu posso fazer?!  Lavar, secar e passar as minhas próprias roupas no final de semana? Ele passa rápido demais… quando a gente vê, já é segunda-feira, e eu mereço ter vida social. Passar pano nos móveis e no chão? Ai, não dá. Além de acabar com as unhas, isso exige um tempo que eu não tenho a perder. Limpar o banheiro? Puts, confesso que tenho nojinho. Meu marido e o Junior parecem que nunca acertam a privada, impressionante. Em compensação, acho que daria pra eu cozinhar a janta, assim a Cidinha pode ficar menos do que 8 horas por dia… hum, acho que vou pegar umas receitinhas naquele canal de cozinha da GNT.

Mas ai, não dá pra ficar sem a Cidinha. Mesmo se eu não tivesse nessa correria do dia-a-dia, ela é praticamente da família, sabe?!  Ela tem até um quartinho super bacana lá na área, e a gente nunca deixou faltar nada pra ela… inclusive, sempre dou as roupas que não servem mais em mim, dou de coração os brinquedos que o Junior não brinca mais pros filhos dela, e, todo Natal ela ganha uma cesta enorme. Ela ta com a gente há anos, tanto que viu o Junior nascer, acredita?! Ela sempre me ajudou em tudo, é super jeitosinha e engraçada (me divirto com as pérolas de português que ela fala!) e quase nunca estraga nada – afinal, ela não é nem louca de manchar o sofá e o tapete lá da sala, e, muito menos, de quebrar alguma tacinha da cristaleira. Acho que o único problema da Cidinha é ser um pouco inconveniente e fofoqueira às vezes, mas ela é uma pessoa do bem – e, hoje em dia, não dá pra confiar em empregada, né?!

Inclusive, me disseram que agora o esquema será contratar diarista, porque daí não precisa ter todo esse trabalho de carteira assinada e blablabla. Mas eu não tenho coragem de colocar qualquer uma aqui em casa, não. É complicado viver no Brasil, mas disseram que na Europa a coisa não ta fácil também, porque lá fora é super caro pra classe média ter empregada… como se isso fosse grande luxo! Hahaha, né?!  Tanto que quem se sujeita a esse tipo de trabalho é tudo imigrante ilegal. Imagina se essa moda pega no Brasil, menina! Eu é que não vou por nenhum boliviano, peruano (sei lá, é tudo igual esse povo) aqui em casa. Era só o que faltava!

Esse PT é foda, viu. Parece que nunca pensa, em nós, da classe média – que pagamos os nossos impostos em dia e sustentamos esse país que vai passar vergonha na Copa. Queria ver ter leis para dar privilégios pra mim…afinal, diminuir o preço da gasolina ninguém quer, né?!

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A vida de empreguete

por Luís H. Deutsch

Ano passado, uma novela global fez sucesso juntando nos papeis de protagonistas, três mulheres que – no decorrer da trama – se transformavam em estrelas depois de anos de luta ralando como serviçais. Aliadas às músicas do trio,  campanhas para melhores condições aos trabalhadores que , fazendo o que ninguém tem tempo / tem saco para fazer, ganham a vida trampando na casa dos outros.

Na ficção, tudo muito bom, tudo muito bem. Na real life, a sujeira fica um pouco mais difícil de se limpar.

Mesmo com a recentemente aprovada PEC  (proposta de emenda constitucional), polêmicas e incertezas ainda assustam a vida de domésticas. Bem mais que uma casa de três homens solteiros pós final de semana. Na nova lei, FGTS obrigatório, horas extras, adicional noturno e auxilio-creche. É… Na teoria parece final feliz de novela mesmo. Na prática, as cenas do próximo capitulo não agradam.

Bastou saírem tais decisões e bastante gente ficou em choque. Bastante gente ficou duvidosa. Ouve-se muito em demissões desde já para evitar o mal maior – “desperdício de grana” para alguns. Dentre uma salada de babaquices, o único comentário sensato que escapa é de que vai ser complicado fazer valer esses direitos em nosso país.

Crises já afetam as não tão sadias cabeças das não tão pomposas madames que não abrem mão da criadagem, mas que também deixam fechada a mão para questões financeiras. Terão de pegar no pesado? Vida de empreguete, pegar às sete?!1 Meu deus!

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Classe média sooooooofre.

Estima-se que o valor médio gasto anualmente com uma empregada mensalista , levando em conta as novas premissas legais, saltará de r$ 18 para r$ 21 mil. 3 mil reais por ano.

Tá, não cabe a ninguém sair julgando como cada família pode dispor de 3 mil reais extras. Nem sair xingando seus pais de capitalistas escravagistas selvagens. Grana é grana e cada um sabe quanto tem.

Porém, as questões são:
1. O Brasil é o país com mais empregados domésticos do MUNDO segundo a OIT.
2. As regulações nacionais para se contratar um empregado eram as mesmas do que para empinar pipa (contanto que você não jogue a sua empregada na rede elétrica, ok). 
3.  Muitos, muitos, funcionários são enganados e abusados à exaustão. Ganham mal e mal podem batalhar por alguma coisa.
4. E sim, depois de quase 125 de Lei Áurea, ainda tem trabalho escravo por aqui. Acredite.

Logo, a atualização da lei é mais do que necessária. Pelo menos bem mais que a manutenção dos lucros e vantagens da nossa elite. 

Pois bem, ou comecemos a dar devido valor às pessoas que nos prestam essenciais serviços, ou comecemos nós mesmos a fazê-los. E sem cara de #chateado na capa da Veja.  

Empregado não é escravo como tem gente que ainda acredita. Por mais que seja difícil e lento, a lei vai ter que funcionar.

E por favor, nada de iludir e mandar a empregada ir em manifestação para que o patrão ganhe mais para sustentar as “mordomias” dos funcionários. Tem gente que não consegue fazer nada sozinho mesmo, né? Se nem pra passar pano no chão serve, pra protestar nem se fale…