Quando quem mata é heroi

Por Hannah Maruci Aflalo

 

Escrevo hoje meu primeiro post no Esparrela. Sou estudante de Relações Internacionais a se formar o quanto antes e dividirei as terças-feiras com o Luís Henrique Deutsch. Começo aqui com um tema que me incomoda e me instiga e que essa semana, por conta de algumas notícias divulgadas, esteve em pauta.

O Estado Penal em que vivemos hoje, não apenas no Brasil, mas em inúmeros outros países pelo mundo, vai contra a liberdade de todos nós: não apenas daqueles que são presos, mas também, e talvez principalmente, daqueles que ficam soltos acreditando estarem livres e seguros. Falar em um Estado Penal, porém, pode levar ao pensamento de que quem quer punição é apenas o Estado e a polícia, sem considerar que quem pede incansavelmente pelo fim da impunidade é o chamado cidadão de bem. Basta assistir a um noticiário na televisão (e nem precisa ser no programa do Datena) para concluir que são os próprios cidadãos que veem na pena a garantia de segurança, e mais do que isso, de vingança. Isso sem contar a forma como o criminoso é definido. Aquele que rouba um pão porque sente fome será muito mais facilmente chamado de criminoso do que aquele que frauda uma eleição; a esse chama-se corrupto. É apenas quando o corrupto atenta contra a propriedade, desviando dinheiro, por exemplo, que passa a ser chamado bandido e, mesmo assim, de um jeito ainda muito diferente. “Bandido bom é bandido morto” é uma sentença que se aplica apenas para alguns. Seria repetitivo demais dizer que o bandido é aquele da outra classe social, considerado vagabundo, pois prefere roubar da gente de bem ao invés de trabalhar, e que por isso merece ser morto.

No Brasil, a luta contra a impunidade cresce a cada dia. Pode se ver até mesmo estudantes de jornalismo fazendo passeatas reivindicando pela diminuição da maioridade penal. Quem comete um crime deve ser eternamente punido por ele: primeiro, passando pela prisão sob condições desumanas, depois, voltando à sociedade (após cumprida a pena) sem conseguir se livrar do estigma por ter sido já preso uma vez. Pouco se importa com as condições das prisões, pois acredita-se que quem está preso é porque merece estar ali e não deve ter direito a nenhuma condição mínima de vida. O governo brasileiro foi recentemente interpelado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos por causa do Presídio de Araraquara e suas condições escandalosamente precárias, que levaram a um motim em 2006. Pede-se o cumprimento da lei, mas as condições carcerárias brasileiras estão completamente em desacordo com a legislação. Direitos humanos, portanto, só para alguns. Cumpra-se a lei, mas não para todos. Presos ou criminosos são tratados como uma outra classe de ser humano (quando muito) que da sociedade nada deve receber, mas que a ela sempre deve.

Clama-se por punição para quem viola as leis (mais especificamente para aqueles que atentam contra a propriedade), acredita-se na ilusão de que os chamados criminosos nada têm a ver com o “cidadão de bem”, investe-se em prisões de segurança máxima e de condições internas precárias. Negligencia-se, no entanto, o fato de que crime é uma relação social que envolve não apenas os chamados os criminosos. A própria noção de crime, por si só, é imprecisa, maleável e historicamente descontínua. Por isso, pedir que a lei se cumpra por meio da punição está longe de ser um pedido por justiça. Não existe uma lei universal, nem crimes universais e muito menos punições proporcionais ao delito cometido.

            Enquanto o crime continuar a ser entendido como algo absoluto e mensurável que tem sua resposta proporcional definida na lei por meio dos castigos, a punição não cessará, mas os crimes também não. Nessa semana, a divulgação de um vídeo que mostrou o ato “heroico” de um policial atirando em um suposto bandido gerou comemorações e lotou os comentários da UOL (aqueles que sempre que a gente lê promete nunca mais olhar pra não perder a fé na humanidade, sabe?) de papagaios repetindo a frase já mencionada aqui de que “bandido bom é bandido morto” e defendendo que se todo policial fosse assim viveríamos hoje numa sociedade menos violenta. Será mesmo? Por outro lado, quando o PCC anuncia que o governador de São Paulo está jurado de morte, são essas mesmas pessoas que se adiantam logo pra dizer que se trata de um atentado contra os direitos humanos. Não estou aqui defendendo o PCC (nem o Alckmin), mas são as reações a fatos como esses que mostram como as noções de crime e de bandido são completamente flexíveis, e o mesmo vale para os direitos humanos.

A associação do crime à pobreza é algo recorrente e, no entanto, extremamente delicado. Mapear os perigos parece tornar mais possível que o ideal de segurança seja atingido: ora, basta isolar a pobreza. Se fosse assim tão simples, eu estaria agora mesmo fazendo um comentário qualquer na UOL, pedindo por mais punição ou, quem sabe, aplaudindo o policial que atirou no bandido. O único problema dessa lógica é que a miséria é produzida dentro e pelo Estado, e não apartado dele. Os muros da prisão, além de não trazerem segurança, não escondem a relação inseparável entre o criminoso e o cidadão de bem.

geraldo

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Agite antes de usar

por  Luís H. Deutsch

Entra ano e sai ano, é sempre a mesma coisa. E não estou só falando das tragédias climáticas que pariam sobre o Rio de Janeiro fazendo o Zeca Pagodinho de triciclo virar o herói da história e o meme mais famoso de 2013.

Estou falando de outro episódio que já nos primeiros dias e manchetes do novo ano ganha as discussões internetescas.   O tiozinho do “AGITA AÍ, CARALHO” da Praça Roosevelt, novo recando da paz, do skate, da maconha e do amor em São Paulo. Quer dizer, até que gritem o contrário né.

Pois bem, tardou mas não falhou. Mais uma vez, a queixa sobre a truculência da nossa polícia – civil e militar – vira pertinente. No final de semana, um skatista, que não sei porque cargas d’água estava andando de skate em cima de um banco (queria imitar os carinhas do Tony Hawk  pra PS3 que tá animal) foi abordado e atacado (sim, né pessoal… não vamos trabalhar com eufemismos politicamente apropriados) por um policial da Guarda Civil Metropolitana (a partir daqui, GCM, porque ninguém merece escrever isso toda hora) À PAISANA. Ou seja, fora de serviço.

O que isso (MAIS UMA VEZ) nos mostra?

… *suspiro*

Chega a ser cansativo e repetitivo demais dizer que a polícia do município, do estado e do país – pra não dizer do mundo, está cada vez mais inapropriada para a nossa sociedade. Ter uma força pública que protege o cidadão é ótimo, claro. Mas nossa sensação de insegurança ante os agentes que deveriam nos segurar cresce paulatinamente.

Ainda mais depois de um vídeo desses: http://www.youtube.com/watch?v=ePZ1bGUdXtE

É mata-leão no moleque, é SPRAY DE PIMENTA disparado na galera como se fosse Gleyd Perfumes da Natureza, é invasão em favela, em cracolândia, é internação obrigatória. É cada coisa que parece que os anos não evoluem.

E também, não é pra mais né? Uma polícia que recebe péssimos investimentos estatais chega mesmo a dar raiva, para não dizer dó. Não tem nem como a gente cobrar mais treinamento, mais capacitação. ISSO é utópico. Enquanto não pingar respeito e grana para com eles, isso só tende a piorar. AH, e tem outra coisa… Quem ousa tocar nesse assunto é o famoso “defensor de bandido”.

Vira um assunto tabu. Mais que isso, vira uma coisa chata.

Mas tá aí. Fatos e fatos. “Agita aí, caralho”, diz o coxinh… o polícia. Agitem mesmo, pessoal. Filmem qualquer abuso, compartilhem, opinem, discutam… Nada de panos quentes. Não tenham medo de sair como defensor de vagabundo e de criminosos. Defensor de bandido, é quem apoia a violência e a morte a qualquer custo. Mata-leão dói, quem faz luta sabe.