Agite antes de usar

por  Luís H. Deutsch

Entra ano e sai ano, é sempre a mesma coisa. E não estou só falando das tragédias climáticas que pariam sobre o Rio de Janeiro fazendo o Zeca Pagodinho de triciclo virar o herói da história e o meme mais famoso de 2013.

Estou falando de outro episódio que já nos primeiros dias e manchetes do novo ano ganha as discussões internetescas.   O tiozinho do “AGITA AÍ, CARALHO” da Praça Roosevelt, novo recando da paz, do skate, da maconha e do amor em São Paulo. Quer dizer, até que gritem o contrário né.

Pois bem, tardou mas não falhou. Mais uma vez, a queixa sobre a truculência da nossa polícia – civil e militar – vira pertinente. No final de semana, um skatista, que não sei porque cargas d’água estava andando de skate em cima de um banco (queria imitar os carinhas do Tony Hawk  pra PS3 que tá animal) foi abordado e atacado (sim, né pessoal… não vamos trabalhar com eufemismos politicamente apropriados) por um policial da Guarda Civil Metropolitana (a partir daqui, GCM, porque ninguém merece escrever isso toda hora) À PAISANA. Ou seja, fora de serviço.

O que isso (MAIS UMA VEZ) nos mostra?

… *suspiro*

Chega a ser cansativo e repetitivo demais dizer que a polícia do município, do estado e do país – pra não dizer do mundo, está cada vez mais inapropriada para a nossa sociedade. Ter uma força pública que protege o cidadão é ótimo, claro. Mas nossa sensação de insegurança ante os agentes que deveriam nos segurar cresce paulatinamente.

Ainda mais depois de um vídeo desses: http://www.youtube.com/watch?v=ePZ1bGUdXtE

É mata-leão no moleque, é SPRAY DE PIMENTA disparado na galera como se fosse Gleyd Perfumes da Natureza, é invasão em favela, em cracolândia, é internação obrigatória. É cada coisa que parece que os anos não evoluem.

E também, não é pra mais né? Uma polícia que recebe péssimos investimentos estatais chega mesmo a dar raiva, para não dizer dó. Não tem nem como a gente cobrar mais treinamento, mais capacitação. ISSO é utópico. Enquanto não pingar respeito e grana para com eles, isso só tende a piorar. AH, e tem outra coisa… Quem ousa tocar nesse assunto é o famoso “defensor de bandido”.

Vira um assunto tabu. Mais que isso, vira uma coisa chata.

Mas tá aí. Fatos e fatos. “Agita aí, caralho”, diz o coxinh… o polícia. Agitem mesmo, pessoal. Filmem qualquer abuso, compartilhem, opinem, discutam… Nada de panos quentes. Não tenham medo de sair como defensor de vagabundo e de criminosos. Defensor de bandido, é quem apoia a violência e a morte a qualquer custo. Mata-leão dói, quem faz luta sabe.

Amor de Praça

Por volta de 10 dias atrás, presenciei algo inédito enquanto eleitora e “ser político”. Ao chegar na Praça Roosevelt naquele 05 de outubro chuvoso, mas não por isso desanimado, devo confessar que uma sensação peculiar me preencheu; foi um misto entre euforia, indignação e felicidade. Se tratava do evento “Amor Sim, Russomanno Não”.

Pra quem não sabe, “Amor Sim, Rusomanno Não” aconteceu na sexta-feira anterior às eleições, e visava protestar a potencial vitória (ou simplesmente a ida ao segundo turno), naquele 7 de outubro, de um candidato charlatão, até onde eu sei homofóbico, oportunista e cretino chamado Celso Russomanno.

Como estudante de Relações Internacionais e entusiasta de manifestações políticas pela cidade, a Praça Roosevelt do dia 5 de outubro me emocionou. Não só pelos tons de rosa, traje obrigatório para a festa, espalhados pelos teatros alternativos; não só pela música, então discotecada pelos DJs mais badalados de São Paulo; não só pela instalação cômica dos artistas do Coletivo BijaRi, que deu o que falar (veja aqui). Mais do que tudo isso, me emocionei ao perceber a união política (e, diga-se de passagem, bem amorosa) de cidadãos assolados pelo medo de ter São Paulo detruída por alguem como Celso Russomanno.

Logo São Paulo, imaginem vocês. A cidade que não dorme, que tem vida e vontade próprias; a cidade com a maior parada gay do mundo; a cidade mais cosmopolita da América Latina. A cidade mais feroz e selvagem, e, ainda assim, surpreendentemente acolhedora que eu conheço. A cidade mais conservadora do país e, ainda assim, a cidade que tambem teve uma Marcha da Maconha, uma Marcha pela Liberdade, uma Marcha das Vadias e tantas outras marchas que prezam por nossos direitos. Me arrisco dizer, um verdadeiro leitmotiv brasileiro.

É claro que essa é uma visão romântica de São Paulo. Conheço e sei dos seus problemas logísticos, sociais, políticos… De qualquer forma, sou apaixonada por essa cidade e, como todos sabem, o amor é cego. Não sei se Celso Russomanno conseguiria destruir toda a hecatombe cultural supracitada. Imagino que, se eleito, ele faria de São Paulo seu grande mercadão. Pense só, parques, museus, praças, todas privatizadas e cobrando entrada. Achou ruim, cidadão? Você que acione o Código do Consumidor.

Ironias à parte, fiquei muito aliviada e contente com os eleitores paulistanos por não terem levado, ao segundo turno, essa pária chamada Celso Russomanno.

Olha só, Criolo. Talvez exista amor em SP, sim.

Para saber mais sobre o Coletivo BijaRi, acesse: http://www.bijari.com.br/

Obrigada por visitar o Esparrela! Todas as quartas eu, Maria Shirts, estarei aqui escrevendo algumas linhas tortas sobre tudo e mais um pouco (tipo seilá, mil coisas) neste espaço. Espero confortar vocês, leitores, nesse limbo que chamam de quarta-feira. Se não der certo, sempre tem o futebol depois da novela.