Justiceiros: riqueza não é sinônimo de bondade

Por Maíra Souza

JUS.TI.ÇA s.f. Virtude moral pela qual se atribui a cada indivíduo o que lhe compete: praticar a justiça. / Direito: ter a justiça a seu lado. / Ação ou poder de julgar alguém, punindo ou recompensando: administração da justiça. / Conjunto de tribunais ou magistrados: recorrer à justiça.

Para os justiceiros, o sentido único, pleno e verdadeiro da justiça é aquele limitado aos seus semelhantes: os cidadãos de bem da família brasileira. Aí, há uma definição um tanto quanto subjetiva em dicotomias como: o bem e o mal; nós e os outros;  o menor infrator e o adolescente inconsequente; o marginalzinho que furta Iphone e o despachante que sonega impostos; ou o chefe do morro e  os eternos coronéis e suas famílias que ainda mandam em parte do Brasil.

O justiceiro contemporâneo tem dificuldade em aceitar que a sua empregada não quer mais trabalhar todos os dias da semana, não quer mais dormir na senzala no quartinho dos fundos, e que ela pode comprar uma TV igual a sua, ou até mesmo um celular igual ao seu. Ainda que considere “a moça que trabalha lá em casa”, a babá e o motorista como se fossem “da família”, esquece-se de que as famílias reais destes moram do lado de lá da ponte, escondidas pelo insulfilm e pelas liminares que defendem a ~propriedade privada~.

O justiceiro tem licença pra matar, é marrento, olha feio, e, na primeira oportunidade, comenta : “tinha que ser preto”. Ele faz parte da turma de bem com a vida de comentaristas do UOL, crentes de que todas as mazelas do mundo são fruto do PT, da preguiça, do funk, da baderna de mascarados, etczzzz. A relação de causa e consequencia só faz sentido quando não é aplicável aos seus semelhantes.

É claro que o justiceiro se comove quando assiste aos quadros ~filantrópicos~ do Caldeirão do Huck – inclusive, quando chega o Natal, ele doa as suas roupas velhas aos mais desfavorecidos. Porém, para aquela criança que outrora ele deu o pão, hoje ele dá o tapa. Absurdo é sustentar Bolsas Esmolas pra pivete sair por ai roubando. Querem mais é se vingar de todos os transviados, daqueles que sairam da curva – sempre ignorando o fato de que a maioria destes nunca entrou na curva, nem nas vias de acesso aos direitos civis, políticos e sociais.

E, falando em dar tapa, há o justiceiro que crê em Jesus Cristo – aquele que oferecia a outra face, pregava a mudança da ordem vigente, e propagava sentimentos como o amor e a compaixão. O justiceiro, por sua vez, acredita que o correto é oferecer o discurso de ódio, propagar o sentimento de vingança e proliferar seus julgamentos pré-concebidos como forma de provar quem é quem na sociedade.

O atual justiceiro que se considera cristão também parece se esquecer de que Jesus também salvou Maria Madalena do apedrejamento (ou, como diria Rachel Sheherazade, da legítima defesa coletiva), viveu momentos de tensão com as autoridades, foi julgado pela lei dos homens, cercado pela multidão, torturado, ridiculizado e crucificado sem roupas entre os ladrões. Contudo, para o justiceiro, a lógica de “amar ao próximo como a ti mesmo” só se estende aos seus semelhantes, pois caso contrário, ele faz a ronda e ainda posta fotinha no Facebook.

Aliás, por falar em família brasileira, é por ela que o justiceiro luta. Pela tranquilidade nas ruas, pelo passeio pacífico no shopping com a devida segurança pela qual ele paga os seus impostos. Ele acredita que o segredo do Brasil está na educação, mas educa-se assistindo Sheherazades do horário nobre e acha que mídia alternativa é coisa de comunista petista vagabundo vândalo desocupado defensor de bandido tudo sem vírgula mesmo.

Considero, por fim, que o problema não está na Rachel Sheherazade, nem no Reinaldo Azevedo, nem nas novelas, nem no Big Brother Brasil, nem na Veja. Mas sim, na legitimidade dada por grande parcela da população ao discurso de tais jornalistas supracitados, simplesmente porque eles falam o que eles querem ouvir, profanam o senso comum (ou ódio comum?), alimentam ainda mais o círculo vicioso da violência, e não promovem aquilo que é mais urgente na sociedade brasileira: refletir e questionar.

A justiça, quando dada a somente uma parcela da população, e o sentimento de vingança constituíram a linha de raciocínio por trás de aberrações históricas como o holocausto e, não muito distante, a Chacina da Candelária. As vítimas da violência urbana não estão somente atrás das câmeras de segurança, nos carros blindados e nos restaurantes saqueados, mas na periferia desse sistema podre e falido que executa pais, mães e “menores” que também são cidadãos de bem. Enquanto a riqueza for considerada como sinônimo de bondade e merecimento, enquanto houver tanta gente que defenda o conservadorismo, racismo, elitismo e justiça com as próprias mãos, a família brasileira vai continuar assim: hipócrita.

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Morrer na praia

por Luís H. Deutsch

O balanço de vítimas do naufrágio  na Itália expressa uma triste realidade. Quase 300 pessoas morreram na tentativa de buscar uma nova vida na Europa. Mais que uma nova hecatombe, “Lampedusa é uma vergonha” (Papa Francisco).

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O que vão fazer milhares numa terra que “não é a deles”? Por que saem de suas casas? As perguntas ao Globo Repórter-style são levantadas diariamente, mas as respostas – mesmo óbvias – parecem ser esquecidas de vez em quando.

O assunto da imigração, ainda mais na Europa, nunca está fora da pauta. Independente de uma tragédia, ou de uma declaração polêmica recente, o convívio com um grande número de pessoas que vêm de fora é um fato social. E não acontece há pouco tempo.

Imigrantes vindo da Ásia vão para a Europa desde os anos 60. Na década de 70, com a descolonização da África, foi vez de algerianos, marroquinos e líbios. Final da Guerra Fria, desmantelamento da URSS e migrantes do Leste Europeu se aproximam “Ocidente”.  Anos 2000, e temos um mix de nacionalidades que constituem uma Europa cada vez mais plural, mas não necessariamente mais unida.

Todos os dias é um vai e vem e a vida se repete na estação. Gente que vem, mas que não viaja à Paris a turismo. E sim para garantir um modo de sobrevivência.

Muitos parecem esquecer que, atrás das vestes típicas, de uma família grande e da dificuldade em falar a língua nativa do novo lar, está um ser humano. Uma pessoa que provavelmente cansou de passar FOME. De não ganhar o suficiente para sustentar filhos. Que cansou de uma coisa chamada miséria.

A extrema-direita, famosa na Europa pelo abominável nazi-fascismo, ressurge com um ignorante discurso: “Imigrantes roubam nossos empregos.” “Destroem nossa cultura.” “Os muçulmanos são ainda piores. Suas mulheres são o símbolo da repressão e do terrorismo (?!).” “Os ciganos são sujos.” “Não conseguem se adaptar a um país ocidental.” “Não faz parte da cultura deles.” Assim, ganham as pessoas mais simples e desesperadas. Com uma demagogia pobre, fraca, boba e burra.

Estranho. Já ouvimos antes… EM ALGUM LUGAR! Que não estava na cultura / na genética de um povo xis, pertencer a país/povo ípsilon. E que eles deveriam ser mandados para onde vieram. Ou DESCARTADOS. Mas não são todos que se lembram das aulas de história. E nem são todos políticos que querem dar uma revisão para a galera.

Os países europeus, em primeiro lugar, tem sim uma dívida história com outros países os quais colonizaram durantes anos. Lá, o Ocidente implantou um idioma. Uma institucionalização, um modo de vida e um status que destruiu quase completamente as características iniciais das colônias. As independências vieram com mais destruição e guerra, além do mais. E nada mais natural de se esperar do que as pessoas buscarem na antiga metrópole, uma forma de recomeçar. Ou de enfim, começar uma vida.

Ficar esperando a cooperação internacional não dava. A própria ONU estima que as mais de 200 milhões de pessoas que trabalham fora de seus países de origem geram uma renda de mais de 400 bilhões de dólares anuais de remessas para suas terras natais. Esse montante representa um valor quatro vezes maior que a ajuda que países ricos dão a países pobres.

Ué… Os EUA mesmo não ensinaram a filosofia do “faça você mesmo”? O calvinismo europeu não dignifica o esforço e o trabalho? Ou isso só vale para legítimos europeus e norte-americanos?

Fica claro que a melhor forma de lidar com o tema não é o combate. Para que não se repitam tragédias como essa, o mundo precisa de um ato de coragem que é a integração. O verdadeiro exemplo de cooperação internacional que esperamos não é nem de longe um grande muro que separe povos ricos de povos pobres. Já vimos que isso não funciona, e que vai ter gente sempre arriscando sua vida, para poder viver.

A miscigenação, a identidade e o racismo brasileiro

Por Ana Carolina Franco

“from the slaveship to the citizenship we faced a lot of bullship”

― Amiri Baraka

O Brasil é o país com a segunda maior população negra do mundo, só depois da Nigéria. Também foi o país que mais recebeu pessoas negras sequestradas, o tal do período do tráfico escravista. É muito difícil contabilizar, mas é raro conhecer alguém que não tenha ao menos um ascendente africano ou indígena, mesmo que isso não se expresse em traços físicos ou na cor da pele.

Sempre me senti conectada e interessada por diásporas e pelas incontáveis culturas africanas, mas isso é só parte de quem eu sou. Entre os meus conhecidos, poucos vieram de uma relação interracial como eu, apesar da grande mistura que é o Brasil. É uma sensação de não pertencimento total a nenhum dos dois lados. Tenho noção do meu privilégio como branca, pois nunca passei na pele o que é sofrer racismo, mas ao mesmo tempo consigo compreender ao ver o que metade da minha família já passou.

Meu pai cresceu em Xerém, no Rio de Janeiro, e trabalhou desde a infância lustrando sapatos, entre outras coisas. Ele, de origem pobre e cuja mãe índia fora escravizada quando criança, ignora a herança histórica escravocrata e indígena. Ele acredita na meritocracia, pois se mesmo com todos os empecilhos ele conseguiu chegar à classe média e criar seus 06 filhos, então por que todos os outros não conseguiriam?! Esse é um discurso que vejo de muitas pessoas, reflexo da falta de identidade própria, de noção da história de luta e opressão do próprio povo, que parece insistir e persistir no Brasil.

A mulher

Paralelamente, a questão da identificação da mulher negra na mídia é também algo que eu, parcialmente, sempre pude compreender por causa do meu cabelo. Comentários que afirmavam que eu não merecia ter esse cabelo ruim por ser tão boa (ou seja, branca) faziam com que eu me sentisse amaldiçoada quando criança. Não foram poucas as vezes que correram comigo para alisar meu cabelo, processo que começou quando eu tinha apenas 12 anos, pois fui criada pelo lado branco da família que nunca soube o que fazer com esse cabelo que meus genes recessivos deixaram junto com todos os traços que herdei do meu pai cafuzo (mestiço africano e indígena) – exceto a cor da pele.

Em duas viagens que fiz à Europa, também fui obrigada a questionar alguns aspectos de mim mesma ao ser considerada exótica por ser mestiça e de fácil identificação para os europeus e para os africanos que moram em Paris – dado o baixo índice de miscigenação existente lá. Suheir Hammad em Not Your Erotic, Not Your Exotic sempre ecoa na minha cabeça quando me chamam de exótica. Novamente, por continuar sendo muito privilegiada, eu só posso compreender parcialmente o que a mulher negra passa numa sociedade que, ou a hipersexualizou  ou a torna invisível, sujando-a da “cor do pecado”.

No hemisfério norte, começou há pouco tempo um movimento que eu assisto entusiasmada de longe: a Transition, onde mulheres afrodescendentes raspam os seus cabelos quimicamente tratados e os deixam crescer naturalmente. Trata-se de um movimento de auto-afirmação da própria imagem, por meio da tomada de mídias sociais como o Youtube, onde elas se ajudam e compartilham todos os tipos de tutoriais e dicas. A noção de pertencimento começa a surgir, seja através das mídias alternativas ou de si mesmas, num movimento social contra o estereótipo europeu que sempre foi empurrado goela abaixo naquelas que não se assemelham à imagem da mulher nórdica.

A identidade e a representação negra

Recentemente, tive discussões com afro-americanos acerca da questão da identidade, e foi muito interessante contrastar a percepção que as pessoas fazem de si mesmas, do que as cerca, suas origens, seus futuros e seus lugares na sociedade. Em 2012, fiz amizade com vários africanos que estavam no Brasil fazendo intercâmbio universitário – embora eu quem tenha vivido a sensação de intercâmbio em si: pude aprender sobre danças, música pop, comida e especificidades do país de cada um (Camarões, Congo, Senegal, Nigéria, Benin, Gana).

Discutindo sobre questões raciais, os africanos disseram que ao mesmo tempo em que eles podem se passar por brasileiros fisicamente, eles conseguem fazer a distinção entre um africano e uma pessoa da diáspora. Um amigo senegalês que morou durante anos nos Estados Unidos afirmou que, na rua, o negro da diáspora anda de cabeça baixa, submisso e oprimido, enquanto o negro africano anda de cabeça erguida, numa postura perante a vida diferente da que o negro da diáspora tem depois dos séculos de opressão.

Existe na diáspora americana, por exemplo, uma busca incessante pelas diversas raízes, e uma organização de luta que, apesar de existir no Brasil*, não se mostra expressiva como deveria no país com a segunda maior população negra do mundo. Em sua grande maioria, não há tamanha valorização da origem de seus pais, avós e bisavós. Não sei se devido ao histórico de opressão tão extremo, ou se pela diferente forma de colonização, ou mesmo se pela falta de educação e pela luta diária das pessoas em sobreviver, mas o fato é que a questão da identidade não tem papel tão importante para a grande maioria. Grande parte das pessoas não se incomodam ou deixam de assistir a Globo, mesmo com seu blackface semanal aos sábados, ou sequer questionam porque uma novela chama-se “Da Cor do Pecado”, ou ainda da falta de representação de personagens que não sejam empregados, ladrões, escravos ou vilões.

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Em suma, o que pude notar nesses intercâmbios sem sair de São Paulo foi a forma em como a questão da identidade é vista e percebida pelas pessoas de maneiras tão distintas. Tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, a segregação sempre existiu. A diferença é que lá, ela se dá de uma forma aberta, ao contrário daqui, pois além de ser uma segregação automaticamente econômica, ela se dá de uma forma bem mais passiva e ignorada pelos que não vivem isso.

Há pessoas que insistem em dizer que se houvesse uma grande miscigenação os problemas de racismo desapareceriam. E o Brasil, como o perfeito exemplo disso, pode afirmar: não é a solução.

Obs.: Meu interesse não é colocar o movimento negro americano acima de algum outro, pois ele certamente carece em especificidades que não cabem a mim dizer. Somente comparo a forma em como a identidade é percebida nos dois países.

Recomendação de leitura aos interessados no assunto (autores de diversas diásporas escrevendo sobre identidades): Zadie Smith, Junot Díaz, Amiri Baraka, Aimé Césaire, James Baldwin e Noemia de Souza.

* Links explicativos:

http://mnu.blogspot.com.br

http://blogueirasfeministas.com/2013/03/enegrecer-o-feminismo-movimentos-de-mulheres-negras-no-brasil/

http://gppgrpinheiros03.blogspot.com.br/p/movimentos-negros-no-brasil.html)

http://blogueirasnegras.org/2013/05/20/a-face-racista-da-miscigenacao-brasileira-2/

Cronologia da luta pelo fim da discriminação racial no Brasil: http://www.palmares.gov.br/2011/03/a-cronologia-da-luta-pelo-fim-da-discriminacao-racial-no-pais/

Golaço

por Luís H. Deutsch

Olha, mano. Nunca gostei do Emerson Sheik. Deveria estar figurando na lista das últimas pessoas que defenderiam o cara. Por quê?

Primeiro porque ele meteu um puta golaço no Santos na semi-final da Copa Libertadores de 2012. Isso ajudou e muito o meu time a ser eliminado da competição naquele ano. Depois, ele meteu 2 no Boca na final do torneio intercontinental o que acabou de vez com a maior piada do futebol mundial e levou o Corinthians ao título o qual achei que eles nunca iriam ganhar (e o qual eu torci contra desde sempre).

Aliado a isso, achava o cara sem graça e que fazia o que fazia para aparecer. E era mesmo.

Jogadores de futebol, em sua ampla maioria, fazem coisas para aparecer. Nisso envolve:

Casamento relâmpago

Problemas com pensão alimentícia

Ter quadro no Fantástico para perder peso

Posar pelado

Ou ter uma macaca de estimação, como o próprio Emerson.

Muitas vezes, eles chamam a atenção para coisas bem fúteis. Fica a risada, foge a discussão. Só que dessa vez o Sheik marcou um gol de placa. Fez piada para aparecer, apareceu e deu o que falar. Colocou uma ingênua foto no Instagram dele dando um selinho em um brother e isso já foi o suficiente para a polêmica de programa da tarde e para os programas esportivos do almoço terem ampla pauta de fofoca inútil notícia.

“Foi uma brincadeira, qual o problema?”.

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Qualquer sociedade minimamente civilizada falaria isso. “Olha que legal! kkkk Uma foto dele com o amigo / namorado / irmão… Vou dar um like.” 

Mas… A hipocrisia vence. Faz falta dura, perto da área… Daquelas de deixar a gente nervoso. Não toma cartão amarelo, nem vermelho. Faz gracinha e ainda vence o jogo. Sai de campo tranquila e ainda joga na semana que vem.

O feito do Sheik é uma tentativa de calar a boca da parcela acéfala de profissionais e amantes do futebol. Aqueles que dizem que não são homofóbicos, mas no clube deles / na família deles / dentre os amigos deles NÃO pode ter “viado”. Aqueles que acreditam realmente que entre milhões de homens que jogam ou trabalham com esse esporte não tem nenhum homossexual e que todos são machos alfa exemplares, que constituem uma família casando com a oficial e comendo toda piriguete que der sopa. Aqueles que concordam que futebol é coisa de menino… Que gay não sabe jogar porque é uma boneca e vai se apaixonar pelas coxas do jogador adversário… Que mulher que joga bola é “sapatona” e a bandeirinha gostosa que está trabalhando no jogo tem a obrigação de sair com algum jogador (ou jogadores) depois dos 90 minutos.

A idiotice deste meio é mais difícil de se vencer do que o Barcelona (ô time desgraçado). Não vem só de trogloditas que ocupam o CT do Corinthians com faixas homofóbicas mandando um dos ídolos do Timão ir beijar a PQP. Vem também de jornalistas, dirigentes, técnicos e juízes… Pessoas das quais a gente esperaria atitudes mais civilizadas e não vistas grossas ou declarações infelizes. Realmente, alguns estão mais perto de criar grupos de extermínio

Sheik fazendo o que a Hebe fazia, marca um gol daqueles que a gente pede replay, acha legal e comenta no dia seguinte. Tivéssemos já vencido o tradicionalismo idiota e esse selinho (que nem BEIJO de verdade é) passaria completamente despercebido. Mas está aí um título que o Brasil ainda não garantiu. Nem dentro, nem fora dos campos.

Mulheres de branco

Por Fernando Rinaldi

As mulheres de branco são aquelas que carregam as crianças dos outros no colo, vão com elas à escola, ao clube, às atividades extracurriculares, vão à praça ou ao parquinho passear. E ficam em casa e cuidam e brincam e dão bronca também. As mulheres de branco são uma mão na roda para pais de uma classe social elevada que tiveram um ou mais filhos e não têm tempo de cuidar dele(s). Será? Às vezes, nos shoppings, enquanto as outras mulheres olham as vitrines e gastam ostensivamente seu dinheiro, as mulheres de branco andam atrás, cuidando dos filhos que não são seus. Nos restaurantes, as mulheres de branco dão comida à criança enquanto a mãe e o pai aproveitam o momento do casal. A profissão das mulheres de branco é esta: viver a vida de uma família que não é a dela. Para fazer isso, no entanto, elas ganham muito mal e é exigida delas dedicação exclusiva.

Todos reconhecem as mulheres de branco por causa da roupa branca, todinha branca, que são obrigadas a usar. Se a roupa branca tiver um detalhe que não for branco, das mulheres de branco a atenção é chamada. Sandália também não pode. As mulheres de branco precisam usar tênis fechado. E branco. A polêmica recente envolvendo a obrigatoriedade do uso da roupa branca para que as babás sejam autorizadas a entrar nos clubes paulistanos e cariocas virou notícia. Se virou notícia e gerou polêmica, talvez as pessoas estejam finalmente percebendo o que significa usar branco.

babás

O branco é mais do que um uniforme. É um distintivo, uma marca, um sinal, que serve para diferenciá-las e que as acaba discriminando. É como se o branco que elas usam dissesse ao mundo: eu não pertenço a essa família, eu não faço parte desse núcleo social, eu não sou daqui. Não se sabe muito bem por que elas devem usar branco. Já se estabeleceu que é obrigatório e ponto final. Para fazer parte dessa família que não é a delas e para circular por esse mundo que não é o delas é preciso vestir branco, que as coloca como subordinada e as inferioriza, portanto.

Mas os patrões e as patroas das mulheres de branco nem se não conta disso. Para eles, as mulheres de branco são “úteis”, como se elas fossem mais um eletrodoméstico da casa. Uma tal de Valéria Rios disse no seu blog “Viajando com a família” (hoje fora do ar) o seguinte: “acho que se bem ensinadas, elas podem quebrar um galho danado e nem sempre vão representar um novo integrante à família, porque pra mim família é pai, mãe e filhos e acho no mínimo estranho aqueles que tratam a babá como parte da família (desculpe-me quem pensa o contrário).” E continua: “Em outras oportunidades em que vc quer que ela coma antes porque o restaurante é caro ou porque vão outros casais vc pode dizer problemas, tipo assim, ‘hj vamos a um restaurante com a comidas muito diferentes que vai demorar ou muito caro e etc, então vamos passar pra vc comer em algum lugar, vc prefere pizza ou Mc Donals’ (sic), porque, lembre-se ela está trabalhando.” E termina dando suas dicas assim:  “Então , mais uma vez fica a dica: deixe tudo claro, pra não se arrepender depois, por exemplo, como ela vai pra praia, dê todas as roupas que ela vai usar, inclusive o maiô da praia, pq ela não é obrigada a ter todas as roupas e vc ainda gostar do gosto dela.”

Prezada Valéria Rios e outros milhares de pais e mães iguais a ela: eu penso, sim, o contrário, e não, não desculpo quem tem esse mesmo tipo de raciocínio. Quando eu vejo uma mulher de branco, penso na vida dela fora do seu ambiente de trabalho. Quando eu vejo uma mulher de branco, penso em como ela se sente ao ver todo o conforto financeiro em que as crianças de que cuida são criadas comparativamente aos filhos que ela tem ou pode ter. Quando eu vejo uma mulher de branco, eu me pergunto se ela tem filhos e quanto tempo ela consegue passar com eles.

As mulheres de branco não são mulheres de branco. Elas apenas estão de branco porque essa foi a fantasia que colocaram nelas. Que fique claro, pois, que eu não tenho nada contra a profissão de babá, e sim contra o tratamento que elas recebem. Obrigá-las a usar roupa branca é, a meu ver, uma atitude discriminatória e um sintoma de uma sociedade com uma série de preconceitos que se manifestam, nesse caso, simultaneamente. No ano passado, saiu uma notícia com esta declaração de uma mãe: “O nível cultural delas melhorou demais, e a informação corre muito rápido. Elas agora são politizadas, descobriram o que é ter vida pessoal. Isso para nós, patroas, é pior”. Ou seja, alguns patrões e algumas patroas acham um absurdo o salário que as babás estão exigindo hoje, acham um absurdo que elas tenham uma vida própria, acham um absurdo que elas reivindiquem certos direitos e acham um absurdo que elas não queiram mais usar branco.

Para essas pessoas que ainda acham que podem ter uma escrava de branco em suas casas, deixo aqui minha dica: encontrem uma máquina do tempo e sejam felizes em outro século.