Cinema, política e o 4º poder

por Maria Shirts

Alô alô estudantes de Relações Internacionais e Audiviosual, apaixonados por cinema, museus e cultura em geral: o Museu de Imagem e Som (o MIS) inaugurou um programa de cinema e política que vai até o mês de abril. O evento, que acontece todas as terças, conta com a exibição de um filme e, depois, com um debate entre os convidados (bem interessantes, diga-se de passagem). O melhor de tudo é que é grátis!

Na terça-feira de ontem, tive o prazer de desfrutar deste programa com os amigos Fernando Hargreaves e Daniel Escorel. Assistimos ao filme Intrigas de Estado, que conta a história de um suicídio que envolve alguns deputados do Capitólio, uma corporação militar e (não podia faltar) a imprensa. Russel Crowe interpreta (muito bem) o repórter que vai noticiar o caso o qual descobre, posteriormente, ser um furo (a menina dos olhos de qualquer jornalista). A trama toda começa quando este representante da mídia entende que a história vai muito além de um suicídio.

Não chega aos pés do clássico O Quarto Poder, do renomado Costa Gravas, que também recomendo, mas é um filme que retrata bem a interferência da imprensa e o seu papel em situações políticas. O clímax hollywoodiano é bem utilizado, e faz com que o espectador não desgrude o olho da tela. Os amigos concluíram que é um bom filme, desses que você pega no Tele Cine no domingo a noite e se surpreende, sabe?

Falando em surpresas, o filme me agradou mais que o debate posterior. Os palestrantes Susana Singer, a Ombudsman da Folha, e o Dr. Fernando Limongi, coordenador de ciências políticas da USP, tiveram pouco tempo para falar, mas exploraram a questão do relacionamento do jornalista com as fontes, o maniqueísmo do filme, a regulamentação da mídia. Ela, mais do que ele, que deixou a desejar.

De qualquer forma, achei o ponto alto do debate a questão da caricatura do jornalista — como ele é retratado como o profissional mais anti-ético de todos. Apesar de ser o nosso herói, no filme, Russel Crowe bate nas suas fontes até conseguir a informação, grava sem autorização, não respeita deadlines e omite evidências importantes da polícia.

Apesar de saber que sim, há muito jornalistas antiéticos que o fazem (vide aqueles que trabalham para Murdoch), podem ser considerados uma pequena minoria. Claro que estou defendendo a profissão, afinal, faço parte deste mundo. Mas é bom lembrar que filmes, seriados e livros pintam, sim, o repórter como um sem limites, o doido, o mais ganancioso de todos os trabalhadores. E isso não é verdade — pense você, leitor, nos SEUS amigos jornalistas. Como em toda profissão, há pessoas antiéticas, maldosas, trapaceiras; como em toda profissão. Em resumo, não acreditem em todo filme que virem por aí. Mas assistam aos dois que citei lá em cima, porque valem a pena.

Falando em valer a pena, saí com uma boa impressão desse ciclo de palestras do MIS. Apesar de ter superestimado o debate, acho que valeu o programa pelo diferencial: filmes bons, com palestrantes interessantes, num Museu super descolado. E ainda você pode encontrar a Sabrina Sato na saída.

Na semana que vem tem o filósofo político Renato Janine Ribeiro e Edison Nunes, professor de política da PUC-SP conhecido entre nossos colegas na RI. Aquele que se entediar com o debate ainda pode dar uma volta pelo MIS e ver a exposição de fotos do artista chinês Ai Weiwei, que provou ser muito talentoso e totalmente locão.

 

 

ai weiwei

Orgulho de ser PUC?

Assembléia geral na Prainha da PUC-SP discute nomeação de Anna Cintra à reitoria, cadidata com menor número de votos nas eleições de agosto desse ano

Por Maria Shirts

Ontem, dia 13/11, por volta das 18 horas, a comunidade puquiana ficou chocada com a seguinte notícia, divulgada no site oficial da universidade: “Anna Cintra é a nova Reitora da PUC-SP”. Para os que ainda não sabem, vou explicar o motivo do choque.

Há 30 anos a PUC-SP iniciou um processo de votação para o cargo de reitor da faculdade. Pela primeira vez na história deste país, alunos, professores e funcionários de uma universidade puderam escolher seu candidato de preferência para “tocar o barco”. O processo, em vigor até hoje, é simples: os eleitores escolhem, a cada quatro anos, o seu candidato por meio de uma cédula de votação. Os três mais votados irão compor uma lista que, por sua vez, é enviada ao Grão-Chanceler da universidade. Cabe a ele nomear e homologar o reitor.

Desde o início desse processo – que, salvo engano, começou nos anos 80 -, essa “autoridade mor” da instituição escolheu o candidato mais votado pelos eleitores. Até ontem. Até ontem os alunos, professores e funcionários da PUC-SP tiveram o seu direito de escolha respeitado pelo Grão-Chanceler. Tiveram um processo eleitoral, para a escolha do reitor, democrático e legítimo.

No entanto, fomos todos surpreendidos, nessa terça-feira chuvosa, pela última instância da universidade. O atual Grão-Chanceler da PUC-SP, o cardeal Odilo Pedro Scherer, deliberou contra a opção da maioria. O candidato escolhido pela comunidade puquiana, nas eleições do dia 31 de agosto deste ano, não foi a nomeada Anna Cintra, mas sim o atual reitor da faculdade, Dirceu de Mello. Aliás, a candidata em questão foi, na verdade, a terceira colocada nesta eleição. E, bacana lembrar: essa mesma candidata assinou um termo, redigido pelo movimento Roda Viva, de que não aceitaria qualquer nomeação para o cargo de reitora, caso não fosse a mais votada. Será?

Acredito que, neste momento, muitos dos leitores destas mal traçadas já viram a reação do alunato puquiano através da grande mídia. Nos reunimos na famigerada “Prainha”, cenário de inúmeras de nossas reuniões, para discutir o que fazer. Foi votado pela ação de um “cadeiraço”, em protesto, e então colocamos todas as carteiras no âmago de nossa universidade, o Pátio da Cruz. Também optamos, como forma de protesto, iniciar uma greve e ocupar a reitoria da universidade.

Em quatro anos de PUC-SP, vi reivindicações acontecerem. Já presenciei uma ocupação de reitoria, no ano de 2010. Mas a adesão, até então, nunca foi tão significativa e poucos alunos abraçavam as causas propostas.

O que testemunhei ontem, entretanto, me emocionou. Vivi uma reivindicação plural, sólida e, mais do que qualquer outra coisa, muito bonita. Professores com 30 anos de casa; funcionários que ajudaram a por os tijolos naquele “prédio novo”; alunos do Direito, da Economia, da Letras, da Ciências Sociais, de Relações Internacionais, et alli; todos nós bradamos, nesse 13 de novembro, pela cotninuação da tradição democrática dentro da Universidade. Pelo nosso direito de escolha, que sempre fora legitimado. Direito que conquistamos há muito tempo e que, num súbito ato autoritário, nos foi retirado. E, pior, numa manobra ardilosa e trapaceira: minutos antes de um feriado, que é pra ninguém encher o saco.

Mas quem esteve na Prainha, no Pátio da Cruz, na reitoria, em qualquer instância daquele campus Monte Alegre pôde (e continuará a) afirmar: a comunidade ainda vai encher muito o saco. A comunidade vai continuar defendendo o nosso direito de escolha, a nossa democracia, a nossa vontade política. A comunidade vai se consolidar cada vez mais seja na voz dos alunos, dos professores, dos funcionários, e de todo mundo junto.

Por essas e outras posso dizer que, pela primeira vez em quatro anos, eu tive MUITO ORGULHO de ser PUC.