Justiceiros: riqueza não é sinônimo de bondade

Por Maíra Souza

JUS.TI.ÇA s.f. Virtude moral pela qual se atribui a cada indivíduo o que lhe compete: praticar a justiça. / Direito: ter a justiça a seu lado. / Ação ou poder de julgar alguém, punindo ou recompensando: administração da justiça. / Conjunto de tribunais ou magistrados: recorrer à justiça.

Para os justiceiros, o sentido único, pleno e verdadeiro da justiça é aquele limitado aos seus semelhantes: os cidadãos de bem da família brasileira. Aí, há uma definição um tanto quanto subjetiva em dicotomias como: o bem e o mal; nós e os outros;  o menor infrator e o adolescente inconsequente; o marginalzinho que furta Iphone e o despachante que sonega impostos; ou o chefe do morro e  os eternos coronéis e suas famílias que ainda mandam em parte do Brasil.

O justiceiro contemporâneo tem dificuldade em aceitar que a sua empregada não quer mais trabalhar todos os dias da semana, não quer mais dormir na senzala no quartinho dos fundos, e que ela pode comprar uma TV igual a sua, ou até mesmo um celular igual ao seu. Ainda que considere “a moça que trabalha lá em casa”, a babá e o motorista como se fossem “da família”, esquece-se de que as famílias reais destes moram do lado de lá da ponte, escondidas pelo insulfilm e pelas liminares que defendem a ~propriedade privada~.

O justiceiro tem licença pra matar, é marrento, olha feio, e, na primeira oportunidade, comenta : “tinha que ser preto”. Ele faz parte da turma de bem com a vida de comentaristas do UOL, crentes de que todas as mazelas do mundo são fruto do PT, da preguiça, do funk, da baderna de mascarados, etczzzz. A relação de causa e consequencia só faz sentido quando não é aplicável aos seus semelhantes.

É claro que o justiceiro se comove quando assiste aos quadros ~filantrópicos~ do Caldeirão do Huck – inclusive, quando chega o Natal, ele doa as suas roupas velhas aos mais desfavorecidos. Porém, para aquela criança que outrora ele deu o pão, hoje ele dá o tapa. Absurdo é sustentar Bolsas Esmolas pra pivete sair por ai roubando. Querem mais é se vingar de todos os transviados, daqueles que sairam da curva – sempre ignorando o fato de que a maioria destes nunca entrou na curva, nem nas vias de acesso aos direitos civis, políticos e sociais.

E, falando em dar tapa, há o justiceiro que crê em Jesus Cristo – aquele que oferecia a outra face, pregava a mudança da ordem vigente, e propagava sentimentos como o amor e a compaixão. O justiceiro, por sua vez, acredita que o correto é oferecer o discurso de ódio, propagar o sentimento de vingança e proliferar seus julgamentos pré-concebidos como forma de provar quem é quem na sociedade.

O atual justiceiro que se considera cristão também parece se esquecer de que Jesus também salvou Maria Madalena do apedrejamento (ou, como diria Rachel Sheherazade, da legítima defesa coletiva), viveu momentos de tensão com as autoridades, foi julgado pela lei dos homens, cercado pela multidão, torturado, ridiculizado e crucificado sem roupas entre os ladrões. Contudo, para o justiceiro, a lógica de “amar ao próximo como a ti mesmo” só se estende aos seus semelhantes, pois caso contrário, ele faz a ronda e ainda posta fotinha no Facebook.

Aliás, por falar em família brasileira, é por ela que o justiceiro luta. Pela tranquilidade nas ruas, pelo passeio pacífico no shopping com a devida segurança pela qual ele paga os seus impostos. Ele acredita que o segredo do Brasil está na educação, mas educa-se assistindo Sheherazades do horário nobre e acha que mídia alternativa é coisa de comunista petista vagabundo vândalo desocupado defensor de bandido tudo sem vírgula mesmo.

Considero, por fim, que o problema não está na Rachel Sheherazade, nem no Reinaldo Azevedo, nem nas novelas, nem no Big Brother Brasil, nem na Veja. Mas sim, na legitimidade dada por grande parcela da população ao discurso de tais jornalistas supracitados, simplesmente porque eles falam o que eles querem ouvir, profanam o senso comum (ou ódio comum?), alimentam ainda mais o círculo vicioso da violência, e não promovem aquilo que é mais urgente na sociedade brasileira: refletir e questionar.

A justiça, quando dada a somente uma parcela da população, e o sentimento de vingança constituíram a linha de raciocínio por trás de aberrações históricas como o holocausto e, não muito distante, a Chacina da Candelária. As vítimas da violência urbana não estão somente atrás das câmeras de segurança, nos carros blindados e nos restaurantes saqueados, mas na periferia desse sistema podre e falido que executa pais, mães e “menores” que também são cidadãos de bem. Enquanto a riqueza for considerada como sinônimo de bondade e merecimento, enquanto houver tanta gente que defenda o conservadorismo, racismo, elitismo e justiça com as próprias mãos, a família brasileira vai continuar assim: hipócrita.

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Um apelo à consciência

por Luís H. Deutsch

Olha que beleza, feriado no Brasil! No meio da semana… Para dar um alívio ao seu estresse.

Feriado do quê, Joãozinho?” – perguntou a professora.

Dia da Consciência Negra, professora” – respondeu o esperto aluno. “Um dia para lembrar-se de um dos heróis nacionais, o Zumbi dos Palmares. Ele salvava os escravos e botava todo mundo pra morar junto nos Quilombos.”, concluiu o garoto.

Muito bem!”, parabenizou a querida professora dando uma estrelinha azul de papel laminado para ele grudar no caderno.

Legal se as coisas fossem simples assim. Porém, em 10 anos que este feriado é aos poucos implantado em terras brasilis, muita gente ainda discute a NECESSIDADE dele. Assim como a necessidade de cotas em Universidades e concursos públicos e uma real reformulação da nossa Polícia Militar. Muita gente mesmo! Desde o pai de Joãozinho, até esclarecidos estudantes de faculdades boas que dizem que o Racismo é uma coisa que não existe nesse carnaval pós-racial que é nosso Brasil. Estes dizem que o dia 20 de Novembro deveria ser o “Dia da Consciência Multicolorida” – e não só da negra. Pois isso significaria dar BENEFÍCIOS a apenas uma parte da população.

Envergonhe-se agora se você pensa desse jeito, leitor. Você não tem consciência, isso sim. E estude mais História também.

O Brasil – desde sua origem como Colônia até um ano antes da Proclamação da República – foi um país movido a escravos. Índios e africanos. Construímos bases para uma economia agrícola poderosa a partir do suor e sangue de pessoas retiradas de seus lares e enviadas para destinos não conhecidos. Para o inferno sobre a Terra chamado trabalho escravo. Um trabalho que concluía que existem raças superiores e inferiores. E que as inferiores deviam servir ao máximo as de cima, sem o mínimo de condição humana necessária. Até quase o início do século XX era assim. Igreja apoiava, política apoiava, sociedade apoiava.

Ignorância achar que o 13 de maio de 1888 realmente quebrou todas as correntes e transformou diretamente o Brasil, num país de todos. Quase 400 anos de escravidão não é uma coisa que se esquece fácil e se muda da noite para o dia.  Estamos hoje há 125 anos da Abolição e – se tratando de História – isso é apenas um pulo. Um pulo que não foi capaz de destruir as estruturas de Casa Grande e Senzala que o país insiste em manter. As populações negras, após serem libertadas, não encontraram o paraíso do bem estar social. Foram para as margens. E lá estão mergulhadas quase que completamente até hoje. Fazem parte de uma parcela ignorada e de um Brasil que, na teoria, é uma nação mista… Mas na hora do vamos ver… Tem raízes importantes simplesmente ignoradas.

Pesquise. Quem ganha os menores salários? Quem demora mais a ser contratado e menos a ser demitido? Quais jovens morrem mais? Que história a gente aprende na escola? Quem é chamado de macaco por humorista? Que religiões são resumidas como “macumba”? Quem não consegue as mesmas chances para estudar? Quem sofre mais na pela a repressão policial e o preconceito? Quem é a protagonista da novela das 9? Quem “precisa” alisar o cabelo para “estar decente”?

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E o que achou das respostas? 😦

Então, aqui vai um apelo às consciências:

SIM, pelo Dia da Consciência Negra! SIM para as cotas, para a inserção cada vez mais ampla! SIM para rigor na lei e na cultura! E finalmente, SIM por uma reflexão sobre o que nós estamos fazendo para um futuro realmente igualitário e para um Brasil verdadeiramente multiétnico e multicolorido. 

Contra as cotas e o Mais Médicos: o preconceito em nome do bem do país

Por Fernando Rinaldi

A Lei de Cotas, válida a partir de agosto de 2012, garante 50% das vagas das universidades federais para os alunos que fizeram o Ensino Médio em escola pública. Metade dessas vagas se destina àqueles com renda familiar igual ou inferior a 1,5 salário mínimo e a outra metade àqueles com renda superior a 1,5 salário mínimo. Um percentual dessas duas condições de renda é destinado a quem se declarar preto, pardo ou indígena – a famosa cota racial.

O programa Mais Médicos, lançado pela presidente Dilma, foi criado com a intenção de enviar médicos para regiões onde há carência desses profissionais, como as periferias e as cidades no interior do país. Dados apontam que 70% dos médicos formados aqui atendem nas regiões Sul e Sudeste, enquanto que as regiões Norte e Nordeste sofrem com a falta deles. Como resultado do primeiro mês do programa, foram selecionados 1.618 médicos, entre eles 358 estrangeiros, que irão trabalhar nos 701 municípios que não interessaram os médicos brasileiros apesar da bolsa de R$10.000,00 oferecida pelo governo brasileiro.

Embora as implementações do sistema de cotas e do programa Mais Médicos visem melhorias – diminutas se considerarmos a dimensão dos problemas, é verdade – em áreas deixadas de escanteio desde sempre, elas foram amplamente criticadas, a primeira no ano passado e a segunda agora, com a justificativa de que elas não trariam o verdadeiro avanço de que o país precisa.

As pessoas que pensam assim querem que o país mude num passe de mágica – e sem que seja preciso fazer concessões ou dividir os seus direitos com os outros, é claro – e esquecem que há seres humanos pobres e negros que não podem e não querem esperar décadas até que o sistema de educação seja inclusivo o suficiente a ponto de poderem dispensar as cotas; esquecem que há seres humanos que precisam se deslocar de seu município para serem atendidos por um médico.

Frases como “sou contra as cotas porque sou a favor da educação” e “sou contra o programa Mais Médicos porque sou a favor da saúde do nosso povo” resumem bem a contradição em que caem os falsos progressistas, dopados de “moralina” (cf. definiu Nietzsche). Sim, pois a rejeição das cotas nas universidades e do Mais Médicos parece ter as mesmas raízes do repúdio ao auxílio do governo aos mais pobres com o argumento de que o programa é uma compra de voto disfarçada e uma frágil sutura para a ferida aberta que é o problema da miséria no Brasil. Seguindo essa linha de raciocínio, a Lei de Cotas não deveria existir, pois trata-se de uma forma de maquiar o problema da educação. O mesmo se aplica ao Mais Médicos: médico estrangeiro nenhum deveria vir para um país sem uma infraestrutura mínima nos hospitais.

O que há por trás disso é um preconceito embutido, recôndito, nem sempre muito claro mesmo para quem o tem. A crítica às cotas está fortemente ligada ao apreço à meritocracia, que pode funcionar em outros lugares mas nem tanto no Brasil. Basta estudar um pouco da nossa história para entender por quê. É ignorância supor que um negro, que teve poucas oportunidades na vida e estudou em escola pública, tem as mesmas condições de entrar na faculdade que um branco, de classe média, que estudou a vida inteira em colégio particular e que tem dinheiro para pagar um bom cursinho por um ano ou mais. É estupidez ver esse negro, egresso de escola pública e que pôde entrar numa universidade federal pelo sistema de cotas, como alguém que roubou a vaga de alguém que tinha mais direito e mais capacidade de entrar na faculdade e, mais grave ainda, como uma ameaça à excelência da universidade. Esse estudante que teve uma vantagem na prova do vestibular é imediatamente desqualificado por aqueles que se sentem injustiçados, como se os exames pudessem avaliar igualitariamente a sociedade desigual em que são aplicados.

Já as críticas aos Mais Médicos, advindas sobretudo dos próprios médicos, partem de duas premissas: a de que o Brasil não precisa de mais médicos, mas de hospitais melhores, mais bem equipados e com melhores condições de trabalho; e a de que os médicos cubanos não são capacitados para tratar de qualquer doenças. Com relação à primeira premissa não há o que se discutir: o Brasil realmente precisa melhorar o sistema de saúde e a infraestrutura dos hospitais. Essa melhoria necessária, no entanto, não precisa excluir a ida dos médicos a lugares onde há pouquíssimos ou nenhum. É sabido que organizações médico-humanitárias, cujo maior exemplo é o Médico Sem Fronteiras, atuam em condições adversas e mesmo assim auferem grandes resultados de suas missões. Já quem parte da segunda premissa parece desconhecer, em primeiro lugar, que médicos de outras países também virão para trabalhar para o Mais Médicos. Desconhece também que Cuba tem a taxa de mortalidade infantil mais baixa do continente americano e uma expectativa de vida tão alta quanto à dos países chamados de desenvolvidos, além de certamente não ter-se informado sobre os médicos que vêm para cá nem ter parado para averiguar seus currículos. Quem parte dessa premissa não leu também que os médicos formados em Cuba foram os mais aprovados em 2011 e 2012 no Revalida, o famoso Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos que tem gerado tanta polêmica recentemente. Essa série de desconhecimentos e desinformações traz à tona um lado obscuro do Brasil: o julgamento dos imigrantes pelas suas origens.

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A foto dos médicos cubanos sendo vaiados é emblemática e choca pela quantidade de denotações acumuladas em uma só imagem: o estrangeiro negro sendo chamado de escravo pelos médicos brasileiros, que não cruzaram com quase nenhum ou nenhum negro na universidade em que estudaram, na mesma época em que o governo tenta concertar uma realidade completamente desacertada, consequência dos séculos de escravidão e de mais décadas e décadas de marginalização dos negros. E o tweet da jornalista Micheline Borges, e a declaração do João Batista Gomes Soares, e a farsa da Folha de São Paulo corroboram não só que o Brasil é só racista e xenofóbico. A grande impressão que fica é a de que nossa elite é completamente vulnerável e pusilânime, uma vez que se sente acuada ao menor sinal de fratura de seus privilégios.

Diante dessa situação, fica claro que as críticas a esses dois programas, cujas falhas certamente podem ser apontadas aqui e ali, não têm como intenção aprimorá-los, e sim eliminá-los. Pois o medo de que os cubanos, os negros, os pobres etc. ocupem um espaço que seria da elite brasileira por mérito é maior do que a vontade de tentar mudar o Brasil, ainda que ela, patriota quando lhe convém, argumente que se opõe a essas mudanças pelo bem do país. Um bem que, sem sombra de dúvida, não quer dizer outra coisa senão o seu próprio bem.

A miscigenação, a identidade e o racismo brasileiro

Por Ana Carolina Franco

“from the slaveship to the citizenship we faced a lot of bullship”

― Amiri Baraka

O Brasil é o país com a segunda maior população negra do mundo, só depois da Nigéria. Também foi o país que mais recebeu pessoas negras sequestradas, o tal do período do tráfico escravista. É muito difícil contabilizar, mas é raro conhecer alguém que não tenha ao menos um ascendente africano ou indígena, mesmo que isso não se expresse em traços físicos ou na cor da pele.

Sempre me senti conectada e interessada por diásporas e pelas incontáveis culturas africanas, mas isso é só parte de quem eu sou. Entre os meus conhecidos, poucos vieram de uma relação interracial como eu, apesar da grande mistura que é o Brasil. É uma sensação de não pertencimento total a nenhum dos dois lados. Tenho noção do meu privilégio como branca, pois nunca passei na pele o que é sofrer racismo, mas ao mesmo tempo consigo compreender ao ver o que metade da minha família já passou.

Meu pai cresceu em Xerém, no Rio de Janeiro, e trabalhou desde a infância lustrando sapatos, entre outras coisas. Ele, de origem pobre e cuja mãe índia fora escravizada quando criança, ignora a herança histórica escravocrata e indígena. Ele acredita na meritocracia, pois se mesmo com todos os empecilhos ele conseguiu chegar à classe média e criar seus 06 filhos, então por que todos os outros não conseguiriam?! Esse é um discurso que vejo de muitas pessoas, reflexo da falta de identidade própria, de noção da história de luta e opressão do próprio povo, que parece insistir e persistir no Brasil.

A mulher

Paralelamente, a questão da identificação da mulher negra na mídia é também algo que eu, parcialmente, sempre pude compreender por causa do meu cabelo. Comentários que afirmavam que eu não merecia ter esse cabelo ruim por ser tão boa (ou seja, branca) faziam com que eu me sentisse amaldiçoada quando criança. Não foram poucas as vezes que correram comigo para alisar meu cabelo, processo que começou quando eu tinha apenas 12 anos, pois fui criada pelo lado branco da família que nunca soube o que fazer com esse cabelo que meus genes recessivos deixaram junto com todos os traços que herdei do meu pai cafuzo (mestiço africano e indígena) – exceto a cor da pele.

Em duas viagens que fiz à Europa, também fui obrigada a questionar alguns aspectos de mim mesma ao ser considerada exótica por ser mestiça e de fácil identificação para os europeus e para os africanos que moram em Paris – dado o baixo índice de miscigenação existente lá. Suheir Hammad em Not Your Erotic, Not Your Exotic sempre ecoa na minha cabeça quando me chamam de exótica. Novamente, por continuar sendo muito privilegiada, eu só posso compreender parcialmente o que a mulher negra passa numa sociedade que, ou a hipersexualizou  ou a torna invisível, sujando-a da “cor do pecado”.

No hemisfério norte, começou há pouco tempo um movimento que eu assisto entusiasmada de longe: a Transition, onde mulheres afrodescendentes raspam os seus cabelos quimicamente tratados e os deixam crescer naturalmente. Trata-se de um movimento de auto-afirmação da própria imagem, por meio da tomada de mídias sociais como o Youtube, onde elas se ajudam e compartilham todos os tipos de tutoriais e dicas. A noção de pertencimento começa a surgir, seja através das mídias alternativas ou de si mesmas, num movimento social contra o estereótipo europeu que sempre foi empurrado goela abaixo naquelas que não se assemelham à imagem da mulher nórdica.

A identidade e a representação negra

Recentemente, tive discussões com afro-americanos acerca da questão da identidade, e foi muito interessante contrastar a percepção que as pessoas fazem de si mesmas, do que as cerca, suas origens, seus futuros e seus lugares na sociedade. Em 2012, fiz amizade com vários africanos que estavam no Brasil fazendo intercâmbio universitário – embora eu quem tenha vivido a sensação de intercâmbio em si: pude aprender sobre danças, música pop, comida e especificidades do país de cada um (Camarões, Congo, Senegal, Nigéria, Benin, Gana).

Discutindo sobre questões raciais, os africanos disseram que ao mesmo tempo em que eles podem se passar por brasileiros fisicamente, eles conseguem fazer a distinção entre um africano e uma pessoa da diáspora. Um amigo senegalês que morou durante anos nos Estados Unidos afirmou que, na rua, o negro da diáspora anda de cabeça baixa, submisso e oprimido, enquanto o negro africano anda de cabeça erguida, numa postura perante a vida diferente da que o negro da diáspora tem depois dos séculos de opressão.

Existe na diáspora americana, por exemplo, uma busca incessante pelas diversas raízes, e uma organização de luta que, apesar de existir no Brasil*, não se mostra expressiva como deveria no país com a segunda maior população negra do mundo. Em sua grande maioria, não há tamanha valorização da origem de seus pais, avós e bisavós. Não sei se devido ao histórico de opressão tão extremo, ou se pela diferente forma de colonização, ou mesmo se pela falta de educação e pela luta diária das pessoas em sobreviver, mas o fato é que a questão da identidade não tem papel tão importante para a grande maioria. Grande parte das pessoas não se incomodam ou deixam de assistir a Globo, mesmo com seu blackface semanal aos sábados, ou sequer questionam porque uma novela chama-se “Da Cor do Pecado”, ou ainda da falta de representação de personagens que não sejam empregados, ladrões, escravos ou vilões.

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Em suma, o que pude notar nesses intercâmbios sem sair de São Paulo foi a forma em como a questão da identidade é vista e percebida pelas pessoas de maneiras tão distintas. Tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, a segregação sempre existiu. A diferença é que lá, ela se dá de uma forma aberta, ao contrário daqui, pois além de ser uma segregação automaticamente econômica, ela se dá de uma forma bem mais passiva e ignorada pelos que não vivem isso.

Há pessoas que insistem em dizer que se houvesse uma grande miscigenação os problemas de racismo desapareceriam. E o Brasil, como o perfeito exemplo disso, pode afirmar: não é a solução.

Obs.: Meu interesse não é colocar o movimento negro americano acima de algum outro, pois ele certamente carece em especificidades que não cabem a mim dizer. Somente comparo a forma em como a identidade é percebida nos dois países.

Recomendação de leitura aos interessados no assunto (autores de diversas diásporas escrevendo sobre identidades): Zadie Smith, Junot Díaz, Amiri Baraka, Aimé Césaire, James Baldwin e Noemia de Souza.

* Links explicativos:

http://mnu.blogspot.com.br

http://blogueirasfeministas.com/2013/03/enegrecer-o-feminismo-movimentos-de-mulheres-negras-no-brasil/

http://gppgrpinheiros03.blogspot.com.br/p/movimentos-negros-no-brasil.html)

http://blogueirasnegras.org/2013/05/20/a-face-racista-da-miscigenacao-brasileira-2/

Cronologia da luta pelo fim da discriminação racial no Brasil: http://www.palmares.gov.br/2011/03/a-cronologia-da-luta-pelo-fim-da-discriminacao-racial-no-pais/

Racismo: Como É Ser “01 em cada 10”

Por Maíra Souza

Em 2010, tive a oportunidade de conhecer Paris. Numa tarde durante a minha primeira semana lá, estava esperando o ônibus no ponto de um bairro nobre da cidade. Um homem se aproximou de mim e começou a puxar assunto. Ele perguntou de qual país eu era, o que fazia em Paris, e como eu havia aprendido francês. Meio seca, disse que estudei o idioma durante alguns anos no Brasil, e que estava em Paris para um intercambio acadêmico na Sciences Po. Ele respondeu: então você não sabe sambar?

Fiquei sem reação. Milhares de respostas passaram pela minha cabeça, milhares MESMO. Porém, optei pelo silêncio acompanhado da cara feia de reprovação. Felizmente, o ônibus chegou e foi o cenário de uma das reflexões mais importantes que tive na vida. Durante os minutos daquela viagem, refleti sobre quem eu era, o que eu significava e o que eu representava, preparando-me para quantas vezes mais teria que ouvir aquela pergunta durante o intercâmbio.  Quantas mulheres do mesmo porte físico que eu estavam vivendo em situações completamente opostas – e não por serem brasileiras, mas por serem negras?

Sim, eu sei sambar, assim como sei ler, escrever e pensar. Igualmente sei da responsabilidade que, ainda inconsciente, carrego: a responsabilidade de ser uma exceção. Sou aquele “01 a cada 10” das melhores escolas, das melhores universidades, dos cursos de idiomas. Sou o “01 em cada 10” dos hospitais particulares. Sou o “01 em cada 10” do público consumidor de acima de 3 salários mínimos. Sou o “01 em cada 10” que nunca foi abordado pela polícia.

Do berçário até o fim da faculdade, eu era uma das poucas – ou se não a única- negra da sala de aula. Os meus amigos, em sua grande maioria, são brancos, afinal, compartilhamos da mesma realidade socioeconômica, frequentamos os mesmos lugares e temos os mesmos acessos ao lazer e a cultura. A minha realidade é uma exceção porque a cor da minha pele nunca me impediu de nada, assim como tenho nenhuma recordação de ter sofrido racismo. Simplesmente porque o dinheiro nos torna transparentes.

A diferença era mais berrante quando eu era criança. Cheguei a pensar diversas vezes que as minhas amigas eram mais bonitas do que eu, e que, consequentemente, atraiam mais a atenção dos garotos que eu gostava. Ué, não era a Barbie quem conquistava o Ken?! Eram as protagonistas brancas das novelas que tinham o seu final feliz com o mocinho.  Ou seja, eu queria o cabelo das minhas bonecas, e sonhava com um Ken pra chamar de meu no final feliz da minha própria história. Mas a moça negra dos filmes e das novelas era das duas, uma: ou a empregada, ou a pobre.

http://www.youtube.com/watch?v=DDO3RrxmCeQ

Conforme fui crescendo, deixei tudo isso pra lá e percebi que a beleza se dá de inúmeras formas. O que passou a incomodar mesmo eram outras coisas como, por exemplo, a pejoratividade implícita no termo “neguinha”-  ao contrário de “branquinha”, que não tem uma conotação negativa. Da mesma forma , os homens que me “””””””””elogiam””””””””” ” na rua se referem a mim como morena, demonstrando o eufemismo existente nas palavras morena/moreninha/morena de pele,  numa tentativa de não “ofender” o afrodescendente.

Não, não ofende. O que ofende é uma sociedade que insiste em ignorar a herança histórica do Brasil escravocrata. O que ofende mesmo é esquecer que a Lei Áurea não trouxe a liberdade em seu sentido pleno, pois os ancestrais de grande parcela da população negra continuaram sem receber nada pela sua força de trabalho, restando-lhes as beiradas da sociedade como moradia. Seus filhos, seus netos, seus bisnetos  e seus tataranetos continuam ali, às margens: nas periferias, nos subempregos, nas favelas, nos orfanatos, nas prisões.

Gostaria de deixar claro que estou me referindo a uma maioria comprovada por estatísticas e por análises a olho nu, e não generalizando a imagem que todo negro é pobre e de que todo pobre é bandido. Mas sim, reafirmando que a cor da pele ainda faz com que o buraco seja sempre mais embaixo.

Se, hoje, eu me considero uma exceção, é porque meus pais foram uma exceção, porque meus avós foram uma exceção, porque meus bisavós foram uma exceção. Minha família se construiu no “01 a cada 10”. Mas meus tataravós não. Eles foram reféns de sua própria condição de existência, tiveram sua cidadania, cultura e religião reduzidas. Em 1800 e pouco, não havia a opção de traçar o próprio caminho, não existia auxilio do governo, não existia cotas.

Quanto a mim, continuarei sendo uma exceção até as minhas próximas gerações não o serem; até a maior parte da população carcerária não ter o mesmo tom de pele que o meu; até os hospitais, escolas particulares, universidades, shoppings Iguatemis, e tantos outros espaços privados da elite brasileira estiverem tão definidos por um só tom.  E se eu e a minha família somos exceções, é porque a regra existe. E a regra está muito clara na nossa sociedade, basta perguntar para a família dos milhares de Amarildos.

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Gente Estúpida

 

 

 

 

 

Por Marcelo Rubens Paiva

 

Quando a estupidez vira tendência

Giorgios Katidis, jogador do AEK Atenas, faz um gol contra o Veria, corre pra galera, para e… faz a saudação NAZISTA?!

Espera lá!

Ele está diante de filhos, herdeiros e talvez de sobreviventes partisans que lutaram ferozmente contra a invasão alemã na Segunda Guerra, num dos cenários mais sangrentos da ocupação do Mediterrâneo.

Tá maluco?!

O meia pediu desculpas depois. O gesto lhe custou uma suspensão da seleção de país por toda vida, imposta pela Federação Grega de Futebol.

“Foi um ato de estupidez. Eu cometi o erro e sou o único culpado que deve ser punido por isso”, admitiu.

Katidis, de 20 anos, tem um irmão adotado de Porto Rico e toda a minha família é do Mar Negro, “onde as experiências racistas foram as piores possíveis”, diz.

De estupidez, desconhecimento da História e caso de internação.

Assim como estudantes da POLI-USP que, em trote neste ano, cometeram abusos sexuais.

Ou da UNESP, que invadiram um cemitério e roubaram e violaram sepulturas.

Dois estudantes, Juan Takehiko Kumagai Mendes, de 19 anos, e Raphael Sussumu Mizu Koshi, de 18 anos, foram presos em flagrantes por guardas municipais saindo do Cemitério São Bento.

Calouros dos cursos de economia e química, culparam os veteranos que teriam obrigado a pegarem o objeto como parte de um trote.

Trote que humilhou em Minas.

 

 

Estudantes da faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) pintaram uma caloura de preto e a fotografaram acorrentada junto a uma placa com a inscrição “caloura Chica da Silva”.

Em outra foto, estudantes, um deles com um bigode do Hitler, também fazem saudações nazistas, ao lado de um calouro amarrado com fita adesiva uma pilastra.

Sem contar que na semana anterior 3 estudantes da USP de São Carlos foram acusados pelo crime de atos obscenos.

Hostilizaram feministas durante um trote em fevereiro: 2 ficaram pelados no campus e outro simulou fazer sexo com uma boneca inflável.

A confusão rolou num protesto contra desfile de calouras conhecido como “Miss Bixete”.

A garotada enlouqueceu de vez?

E pensar que sou num tempo em que num trote não humilhávamos as garotas.

Dávamos as boas-vindas. Com gentileza.

Mostrávamos o funcionamento da máquina de copiar, dicas da biblioteca, indicávamos o melhor lugar para almoçar e convidávamos para uma batida à noite. Mais esperto, não?