O espertão do trânsito

Por Maíra Souza

São Paulo é assim mesmo, um combo de pressa, tensão, emoção e atenção. Na capital paulista, há 25 milhões de veículos, sendo aproximadamente 5 milhões de carros, acumulando não sei quantas milhões de horas vividas no trânsito. Dessa galera toda, há quem passe esse tempo se entretendo num smartphone, se maquiando, lendo o Metro, ou só curtindo um som de buenas. Tem gente que masca chiclete e abre os vidros para não pegar no sono, gente que liga o Waze quando o trânsito para, e se enfia na primeira viela que vê para fugir do inevitável. Tem gente irritada, gente de bem com a vida, gente #chatida. Além disso, no meio dessa galera, tem muita gente esperta.

De alguma forma, todo dia você interage com os espertos.  Mas como identificá-los?

Em primeiro lugar, o espertão tem sempre prioridade nas ruas. Ele é aquele que buzina assim que o farol abre, porque a pressa dele vem sempre em primeiro lugar e ele desconhece o conceito de paciência. Ele não nasceu para esperar, mas sim para passar na frente dos outros – e ele, de fato, acredita que tem esse direito. Portanto, aqueles que ficam numa faixa para conversão, por exemplo, são trouxas, burros ou desocupados que não tem mais o que fazer da vida. E ai de quem cortar o espertão, viu?!

O espertão acredita no poder mágico e sobrenatural da buzina. Sua crença consiste na convicção de que tal dispositivo é capaz de gerar hélices ao amiguinho da frente, de modo que o veículo transforma-se num helicóptero, dando, portanto, livre passagem ao espertão. Se não funcionar de primeira, ele insiste mais uma vez, e mais uma e mais uma… até reger uma sinfonia!

O espertão tem um tempo diferente dos demais. Ele para na vaga de deficiente e de idosos, mas com ele é tudo rapidinho, é só ali, só 10 minutinhos. Mas daí tem dias que não tem jeito… a Marginal tá travada e ele vai se atrasar de qualquer jeito. Porém, o espertão é bastante apegado ao metro quadrado de asfalto. Logo, ele se mantém o mais próximo possível do carro da frente, de modo a impossibilitar até a passagem de um pernilongo. Imagina só se alguém rouba aquele pedacinho de chão que é só dele?!

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O espertão é muito macho. Ele é tão, mas tããão foda que canta pneu quando sai do farol, reafirmando a sua masculinidade e virilidade até atingir os 60 km/hr. Ah, ele também tem fobia de seta, porque dar seta ou qualquer sinalização é coisa de veado. Daí ele já chega embicando com tudo, não agradece, não gesticula. Gentileza gera gentileza é o c*ralho!

O espertão muito é valente também. Ele sente prazer ao xingar alguém no trânsito, pois esta é a melhor forma que ele encontra em aliviar toda a sua frustração fora das 4 portas. Desta forma, ele mentaliza sua infelicidade e/ou stress na vida profissional, pessoal e amorosa por meio de agressões gratuitas – sejam estas verbais ou físicas. Ele desce do carro mesmo, e se for para uma mulher então… aí que ele não se esconde por trás do insulfilm e se sente realizado como homem! Com sua carinha de marrento, ele profana as palavras “puta”, “vagabunda” e “vadia”… tinha que ser mulher mesmo!

O espertão odeia. Odeia sempre e muito. Odeia motoboys, embora sempre reclame quando o boy da firma se atrasa. Odeia ônibus porque atrapalha o trânsito e a sua capacidade de mobilidade urbana. Odeia o PTralha do prefeito que colocou mais faixas ~inúteis~, mas também odeia quando alguém chega atrasado porque veio de transporte público. Odeia também quando a CET o flagra arrasando nas faixas exclusivas. Pô, puta sacanagem isso… ele é quem nasceu para ser exclusivo!

O espertão é super sortudo. Ele confia cegamente na sorte que tem, pois desde pequeno a sua mãe diz que ele é muito iluminado. Ou seja, ele pode beber o quanto quiser e dirigir, porque além de dirigir melhor quando bêbado, os acidentes só acontecem com os outros – e os outros, são sempre os outros e só. Despreocupado, o espertão para na faixa de pedestres e passa no sinal vermelho sempre que possível, não tá nem ai. O povo desvia, o povo para, ~ISSO É BRASIL~.

O espertão, por fim, compõe a estatística de pessoas com transtornos mentais na maior cidade do Brasil. Se você, querido smartão, estiver lendo esse texto, deixo apenas uma dica: você NÃO é nem um pouco esperto, campeão.

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Territórios ocupados

por Maria Shirts

Ontem fiz um programeta bem “universitário”: sai do trabalho, peguei a linha amarela do metrô (surpreendentemente vazia) às seis da tarde e fui assistir a uma exposição seguida de palestra na FNAC Pinheiros sobre “movimentos sociais e políticos na globalização”, como sugere a descrição do evento Exposição Fotográfica – Atenas, território ocupado no Facebook. Uma filha legítima da PUC, pode dizer. Não precisa nem teste de DNA.

Piadinhas desoxirribonucleicas à parte, deixo a dica para quem se interessa pelo assunto: a exposição de fotos sobre as manifestações atenienses continuará em cartaz na PUC, no Museu da Cultura, a partir do dia 30 de setembro, com fotos emocionantes clicadas com a 7d de Paulo Viard e Marcelo Camera (sim, este é realmente o nome dele!).

Ontem, no encerramento da exposição, na FNAC, assistimos a um documentário da revista VICE (Teenage Riot: Atenas) sobre as manifestações gregas e a situação política local, que ainda é muito frágil, instável. Depois, os professores José Arbex e Reginaldo Nasser, ambos da PUC (Jornalismo e Relações Internacionais, respectivamente), explanaram um pouco sobre o tema que, como todos sabemos, não se restringe a Atenas.

Segundo Arbex, que introduziu sua fala citando Rosa Luxemburgo, a resposta para as manifestações atenienses, paulistas, cairotas, cariocas, londrinas e novaiorquinas está na conjuntura na qual estão inseridas essas sociedades. É importante frisar, aqui, que a análise deve ter (e teve, no caso de ontem) uma ressalva mutatis mutandis. Isto é, as manifestações não são iguais, mas tem algumas semelhanças que podem ser analisadas em conjunto. Tendo isso posto, Arbex afirmou que o sentimento de “basta” presente em diversas cidades não aconteceu por causa de um partido, ou por convocação de um coletivo em particular, mas por uma situação  de insatisfação com o sistema (econômico e até mesmo moral). Além disso, o Estado está, nessa conjuntura, com uma capacidade de repressão diminuta. Não é a toa. Afinal, a polícia está totalmente desmoralizada.

O professor Reginaldo Nasser disse concordar inteiramente com a fala de Arbex, e adicionou um elemento importante à discussão quando usou o conceito de “revoltas urbanas”. Sim, porque as manifestações não podem ser vistas pela ótica do país na sua totalidade, mas das cidades enquanto pólo e abrigo dessas insatisfações. Um analista político e social não mais falará em “revolta grega”, ou “egípcia”, mas ateniense ou cairota. Afinal, as semelhanças entre as cidades ficam cada vez mais evidentes porque elas se tornaram um espaço de reprodução das relações capitalistas. Dividem características comuns como um fluxo de pessoas, de recursos e de ideias. E o Estado, ao mesmo tempo em que demonstra sua competência a partir da força, expõe uma série de debilidades quando não consegue, por exemplo, reprimir “de uma vez por todas” as manifestações. Tivesse o Estado atingido seu objetivo, a população não voltaria às ruas nos dias seguintes.

Por fim, fiquei pensando na conclusão do Reginaldo, que nos disse que as cidades são o palco dessas e d’outras ambiguidades e que, enquanto observadores (sociais, políticos e demais curiosos), devemos nos pautar nessa característica para usá-la enquanto instrumento de análise. Fica a dica. Quem sabe assim conseguiremos entender alguma coisa.

As famosas 1000 palavras

por Luís Henrique Deutsch  (e por milhões de filhos da Pátria Mãe Gentil que tiraram essas fotos e participaram da maior  Manifestação Popular desde o “Fora Collor”)

Meu post hoje economiza no texto. Acho que a velha máxima do que quanto uma imagem vale em palavras pode se expressar vendo as que estão abaixo.  PRE-PA-RA que é palavra de monte, então. Obrigado, brasileiros. Deu orgulho e foi bonito

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” O povo unido, é gente pra caralho”

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“Vem pra rua, vem contra o aumento”

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Hoje tem mais, pessoal. Com partido, sem partido, com bandeira, sem bandeira. De branco, de preto, de vermelho, de rosa.

A rua é nossa.

Crítica pela reformulação das críticas à Virada Cultural de São Paulo.

Por Caio Simi

No último final de semana, tivemos em São Paulo a nona edição da Virada Cultural SP. Penso que a proposta do programa condiz com o que sempre idealizei para uma cidade; a população ocupando espaços públicos, nossos impostos revertidos em eventos culturais abertos e para todos, e pessoas das mais diversas regiões, cabeças, histórias e grana dividindo o mesmo espaço e apreciando o mesmo espetáculo. Embora esta tenha sido a experiência de muitos, dirijo meu post a realidade de outros que, de certa forma, se desiludiram por presenciarem cenas já famosas de arrastões e violência, que desta vez resultaram em 5 baleados, 2 esfaqueados, 1 morto a tiros e 1 morto por overdose de cocaína.

Lembro que antes de começar a pensar políticas públicas, acreditava que o grande passo contra a violência urbana era levar a população às ruas; aqui abro parênteses a uma breve recordação que me levou àquela percepção. Na Av. Fuad Lutfala, próximo ao Morro Grande, temos uma praça que eu e meu colega chamamos de “praça do movimento”, um lugar de grama alta, esquecido pelo Estado, que sempre me atraiu pela aglomeração de skatistas em um half-pipe construído em um de seus cantos. O apelido da praça origina-se porque, em uma noite de praça vazia, enquanto batia um papo e gastava uns neurônios com um colega, eu fui abordado por um rapaz que surgiu do meio do escuro e me perguntou se eu era de lá e se o carro que estava parado ali, próximo a nós, era realmente nosso. Ao responder que sim, o rapaz se desculpou e explicou que ali “rolava um movimento”, “que estávamos ligados”, mas que, como éramos de lá, poderíamos ficar sussa. O susto me fez ter uma breve visão minimalista de que se a praça estivesse cheia, com iluminação eficiente, policiamento ostensivo e em uma melhor localização, aquilo não ocorreria. Não demorou muito para que eu caísse na real e me perguntasse: “mas e o movimento? para onde ele iria?”, se o vigiássemos ali, para a segurança dos que não são dali.

O parênteses vale porque vejo muita gente cometendo a mesma redução de análise ao opinar sobre a violência presenciada na Virada Cultural paulista. O que vi na abordagem da grande mídia foi um show de sensacionalismo cego e sem objetividade, que estendeu as críticas à proposta da Virada Cultural, à ineficiência da polícia e ao “caos que estamos vivendo”. Nosso governador Geraldo Alkmim chegou a dizer que ‘é preciso reavaliar os lugares onde ocorrem os shows e a iluminação nos principais pólos da virada’, e pra não dizer que eu só falei da planta, nosso prefeito Fernando Haddad explicou o aumento da violência desta edição em relação às outras pelas “pessoas que vieram à Virada Cultural com um comportamento diferente das anteriores”. O que digo é que a Virada Cultura mais uma vez escancarou no centro de São Paulo o que ignoradamente ocorre durante todo o resto do ano na cidade; o conflito de uma sociedade totalmente heterogênea e desigual, que se distancia motivada por uma educação oposicionista de ambos os lados, e se vê cada vez mais desintegrada pelo medo e pelo discurso.

Compactando a opinião ao decoro da formatação de um post, inicio minha crítica ao que transformamos no ideal comum de vitória do cidadão paulista; um padrão de consumo sem regras, que importamos desde o P.I.M.P. americano ao iate em Mônaco na Fórmula 1. Se o desenvolvimento do capitalismo em Webber deu-se pela ética protestante da re-conceituação da acumulação do capital e da dignificação do trabalho, hoje, nós o alimentamos pelo nosso próprio ego, e o fortalecemos pela exportação do ideal ilusório de que “ganhar dinheiro é vencer na vida”. Se para muita gente bem-criada, que fala em “meritocracia” com curso de inglês e boa educação, a competitividade já é motivo para passar a perna no primeiro cara que disputar consigo uma vaga de emprego, o que dizer a um moleque de família desestruturada que cresceu na periferia, aprendeu que o sucesso é um carro, celular e tênis que seu dinheiro não poderá comprar, e que vê sua mãe se arrebentar de trabalhar em troca de alguns trocados que mal paga o aluguel do seu barraco? Hoje, a linha que define se o moleque estudará ou fará arrastões, quando não o tráfico, quando não os três, para encurtar o acesso a um tênis de R$ 900,00, é muito tênue; ainda mais se o mesmo moleque pensar que aquele tênis que impressionará sua galera não fará falta a um “playboy” que tem um celular de R$ 2.500,00. Se esperamos outra cabeça deste moleque, sejamos francos, é porque nesta idade tivemos outra educação de nossos pais, avós ou colégios, pois a televisão e internet pouco nos ensinaram sobre respeito e dignidade. Quanto ao “playboy”, aproveito o termo pejorativo para engatar outra crítica. O “playboy”, para o pobre, e o “favelado”, para o rico, convivem de forma extremamente distante em São Paulo, tanto geograficamente quanto ideologicamente, e quando raro ocorre algum evento que reúne certa diversidade social na cidade, suas realidades extremamente distantes fazem com que eles pouco se entendam. Por mais que valorizemos movimentos como o Hip Hop, que ainda criem pontes que encurtem esse enorme vão, a verdade é que enquanto o brasileiro pobre não receber uma educação semelhante ao da verdadeira classe média; conviver com a oportunidade de freqüentar os mesmos colégios e faculdades, sonhar com as mesmas experiências, ter acesso aos mesmos espaços públicos e privados; além de, finalmente, ser tratado como todas as outras classes; este jamais será e se enxergará igual.

Em São Paulo, falamos continuamente em pluralismo e diversidade; mas, cá entre nós, nos centros residenciais de maior acumulação de renda, da Vila Mariana à Vila Madalena, de Moema a Perdizes, convivemos majoritariamente com semelhantes, e não frequentamos os mesmos espaços dos que não puderam estar ali. Concordo que daí à violência há uma grande escala, mas o início é a fronteira larga e imperceptível que ambas as classes criaram contra as formações que delas divergem, e mesmo que algumas vezes a mascaramos com algumas atitudes elucidas e paliativas, sejamos francos, a cara do pobre não convive com a cara do rico nessa cidade, e isto é explícito até no português que falamos.
Abro aqui outra crítica, desta vez à maneira com que tratamos as drogas; temos que reconhecer que se a maconha é a droga mais injustiçada pelo Estado, a cocaína é a droga inversamente mais injustiçada pelo ativista político. Presencio nossa geração levantando diversos debates sobre o enfraquecimento do tráfico pela legalização da maconha e o papel do Estado ao usuário de crack, mas a cocaína é praticamente ignorada por todos que vivem longe de seus reais efeitos sociais. Um parêntese, aos que dizem que a cocaína é droga de rico, respondo, na boa, que esqueçam Paris e cruzem o Rio Tietê. No Brasil e principalmente em São Paulo, a cocaína é forte na periferia, e é especialmente perigosa na vulnerabilidade da nossa adolescência; a cocaína dá a coragem que todo o moleque quer ter, e quando a substituição pelo álcool já não tem mais graça, se desencadeia num vício que só é socialmente e politicamente discutido quando acaba em homicídio ou overdose em pleno viaduto Santa Ifigênia. Que a morte ocorrida na Virada Cultural de SP sirva para que discutamos a cocaína com a mesma eficácia com que discutimos o crack, pois hoje terceirizamos esta responsabilidade a atores sociais paralelos, como ongs e letras de rap.

Já o último ponto que abro é sobre o preconceito e a discriminação social e racial, que por vezes ouvimos não existir mais no Brasil. Concordo que talvez não exista no discurso padrão, mas aplaudir um discurso é mais fácil do que enxergar a realidade, e a realidade é que os espaços da velha classe média, da rede de café americana à faculdade privada, estão carentes do que os economistas chamam de “nova classe média”. Pelo lado racial, a proporção de negros e pardos para brancos no Brasil é praticamente a mesma, mas sua segregação começa quando o perfil dos alunos de faculdades privadas no país é de uma elite predominantemente branca. A diferença é que aqui não separamos nossos bairros por grades como na Cidade do Cabo, mas possuímos a cara do ladrão exposta em nossas mentes, e enjaulamos o funk, o pagode, o boné de aba reta, o moletom colorido e algumas gírias. Para darmos valor à velha cultura popular brasileira, fizemos com que a história o provasse por si próprio. Pobre do africano e boliviano que lutará por trabalho em São Paulo sem a cultura do carnaval a seu favor.

Aos diversos amigos de fora do estado de São Paulo que me perguntaram sobre o que está acontecendo com nossa capital, não encontrei análise antes de me perguntar sobre o que aconteceu com nós mesmos. Discutir a mudança pelo papel do Estado, da polícia, do tráfico e da lei são essenciais, mas como fazê-los com responsabilidade se não começamos a mudar nem a nós mesmos? A integração social vai além do show de rap na augusta e dos artesanatos de reggae na Av. Paulista. Integração de verdade começa com olho no olho, abrir a cabeça para além do discurso, ouvir o que todas as camadas da população têm pra falar antes de discutir qualquer lacuna social ou estatal, e encará-las como demandas efetivas de moradores que compartilham e merecem a mesma cidade que nós. Construir espaços como o que sonhamos para a Virada Cultural requer a estruturação de uma sociedade harmônica, e isso não existirá enquanto nós mesmos não praticarmos uma convivência menos desfragmentada e oposicionista.

Sobre a violência em São Paulo, penso que o paulista precisa primeiro refletir e absorver melhor a realidade da cidade e sua participação neste cenário; caso contrário, seguiremos pegando carona em discussões de caráteres mais políticos do que objetivos. A uma sociedade que demandou redução da maioridade penal antes mesmo de discutir o verdadeiro papel da Fundação Casa e a quem ela se aplica atualmente, a ilusão já não me surpreende mais.

459

Por Paula Elias

Eu francamente não sabia se ia sair um texto hoje.

No aniversário de São Paulo, acordei em Porto Alegre, com restos de mala para fazer, estômago vazio e cabeça cheia. Trabalhei até a hora de ir para o aeroporto, levei um baile da minha própria desorganização no check-in, saí esbaforida para o portão de embarque.

Fila. Paulistano curte uma fila, né? Essa era para entrar no avião, a funcionária da Gol mal tinha terminado de chamar os passageiros e já estávamos lá, bufando. Impacientes.

Ai, agora deu turbulência. Aeromoça, como faz para digitar na turbulência? Preciso escrever pro blog, quero chegar em casa. Eu disse que estou escrevendo durante o vôo? Pois é.

O adolescente na minha frente reclinou a cadeira e me deixou com um mini espacinho para abrir meu computador e tentar juntar umas frases sobre São Paulo. Hoje é o aniversário de 459 da minha cidade, minha loucura favorita, e até agora todas as minhas tentativas de escrever sobre ela foram frustradas. Coincidentemente por um avião cheio de paulistanos.

Um lendo jornal – e eu com a minha alergia. Ô, moço, fecha esse Valor Econômico, vai?

O mini escarcéu das crianças atrás de mim, contando para a única gaúcha ao meu redor suas aventuras pelos pampas. Tudo muito lindo, mas não consigo ouvir meus pensamentos.

Ê, tô muito mal humorada. 24 anos e ranzinza, só podia ser filha de São Paulo mesmo.

Vou descer em Congonhas, fico pensando no trânsito. Será que o feriado-aniversário me salva da hora do rush? Minha paulistana interna deu uma risada sarcástica: lógico que não, você vai pegar o táxi às seis e meia. Vou tentar ser otimista e rezar para as divindades do tráfego sorrirem para mim.

Eu quero chegar em casa, estou cansada e mal humorada. E até agora não escrevi uma linha sobre os 459 anos de SP. Pensei em fazer um texto a la guia turístico, indicando as melhores coisas pra fazer no feriado. Um texto mais político, analisando o jovem governo do nosso prefeito?

Ai, o comandante acabou de anunciar mais turbulência. E eu tentando escrever.

O senhor ao meu lado dormiu com um livro do Nelson Rodrigues na mão: A vida Como Ela É.

Não vou conseguir escrever o texto de feliz aniversário. Mas deixo esse mini retrato de uma paulistana cansada, a minha vida como ela é – ou está.Enquanto conitnuo contando os minutos para o avião por as rodinhas na sua cidade (48 minutos).