Para quem eu mando um abraçaço?

Por Fernando Rinaldi

Abraçaço: abraço grande, muitos abraços, abraços intermináveis, múltiplos. Até o fim, até cansar, só abraços. Um abraço que é passado adiante, de novo e de novo, como se ele de repente ganhasse autonomia e continuasse se repetindo em outros braços. Senhor Veloso, Caetano, Caê, braços abertos sobre a plateia espremida. Abraçou-me, eu senti. Recebi um abraçaço do senhor Veloso no sábado passado e achei que pudesse dar continuidade a ele.

Eis que abro o jornal e descubro com grande espanto que mais de 90% dos paulistanos são a favor da redução da maioridade penal. Boquiaberto, de braços fechados, dou-me conta de que quase todos ao meu redor acreditam que é assim que se resolve o problema da violência no Brasil – amontoemos jovens infratores em cadeias superlotadas, retiremos da sociedade esses delinquentes que sabem muito bem o que estão fazendo, vamos viver nossa vida aqui em paz, deixemos os bandidos apodrecerem, padecerem, morrerem. Eles não são iguais a nós. Eles são do mal, nós somos gente de bem.

Quase todos ao meu redor passaram a pensar nessa questão recentemente. É que um jovem de dezessete anos matou um jovem universitário de dezenove. Passou no jornal, nós vimos. Eles foram filmados pela câmera do prédio. Só vai ficar três anos na cadeia? Merecia muito mais. Pelo menos o nosso governador quer aumentar para oito. Ainda assim não é o suficiente. Trinta é a pena máxima para maiores de dezoito, não é? Vamos nos mobilizar, nós, da sociedade civil, que estamos cansados de impunidade. Com dezesseis anos já temos consciência dos nossos atos. Se tem idade para ser bandido, tem idade para ser preso. Criminoso é criminoso, não importa a idade.

Quase todos ao meu redor não sabem muito bem o que pensar da reinserção na sociedade desses sujeitos que, em sua opinião, escolheram de bom grado o caminho da criminalidade. É cada um por si, Deus por quase todos. Vamos combater esses indivíduos que escolheram o caminho errado. Depois da pena, aprenderão a lição. E se não aprenderem? Sigamos o exemplo dos EUA. Lá existe prisão perpétua e pena de morte.

Quase todos ao meu redor desejam o confinamento daqueles que se constituem como ameaça, daqueles de quem têm medo. Com medo, alguns confinam-se em casas ou prédios monitorados, com muros altos e protegidos por câmeras e seguranças particulares. Para sair, carros blindados, empresas de segurança para observar quem entra e quem sai. Se o governo não nos protege, vamos nos proteger a nós mesmos. Nós podemos fazê-lo.

Quase todos ao meu redor preferiram o caminho mais fácil, a solução que estava ali, disponível sem que fosse necessário fazer nenhum esforço mental. Quase todos reduziram a solução do problema ao castigo. Quase todos endossaram a exclusão social dos desajustados – as párias, os bodes expiatórios. Quase todos ao meu redor cruzaram os braços para os problemas da violência, do sistema penitenciário e da educação no Brasil.

Quer essa mudança prospere ou não no Congresso, não dá, não consigo mais mandar um abraçaço, aquele abraço ou mesmo um abracinho. Desculpe-me, Caê, não fui capaz de ser elo dessa corrente. Pode ser que eu esteja ficando descrente deste mundo antes dos trinta, pessimista antes dos quarenta e ranzinza antes dos cinquenta. Pode ser. Mas o esforço seria demais.

Por outro lado, sei que não posso, não quero segurá-lo por muito mais tempo. Temo que perca o alento, a potência. O que fazer? Só me restou escrever este texto para que você recebesse, leitor, o abraçaço de Caetano Veloso que não poderia simplesmente morrer em meus braços.

Passe adiante, por favor. Ou não.

Show “Abraçaço” (13/04/13) Foto: Jéssica Rezende

Show “Abraçaço” (13/04/13)
Foto: Jéssica Rezende

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Bandido bom é bandido morto

Por Maíra Souza

Essa semana li um texto que me provocou um inicio de úlcera. Compartilhado por mais de 40 mil pessoas e com quase 10 mil curtidas, o texto de suposta autoria do Arnaldo Jabor (duvido que seja mesmo dele) discorre as razões pelas quais o Brasil “não vai pra frente”, como se fosse aquele MITO ou VERDADE do Fantástico.

Em alguns parágrafos, o autor afirma que o brasileiro é babaca por pagar uma fortuna de impostos e ainda dar esmola para pobres na rua, e por “aceitar que ONG’s de direitos humanos fiquem dando pitaco na forma como tratamos nossa criminalidade”. Em seguida, o texto afirma que a maioria das pessoas que moram em favelas não são honestas e trabalhadoras, pois “muito pai de família sonha que o filho seja aceito como ‘aviãozinho’ do tráfico para ganhar uma grana legal”, e que se a maioria da população da favela fosse honesta, não haveria bandidos lá, pois os moradores não seriam coniventes com os criminosos. Além disso, o texto diz que não há da democracia no Brasil porque a maioria da população acha que bandido bom é bandido morto, e que quem é contra a execução de um bandido não passa de uma “minoria barulhenta e hipócrita” que sucumbe o inteligente povo brasileiro, transformando o Brasil numa anarquia (oi?).

Posso soar arrogante e ser muito xingada no Twitter, mas não encontro nenhum sinal de lógica, inteligência ou efetividade na promoção de um genocídio prisional ou algo que o valha, ao invés de enxergar o problema um pouco mais além do que passa no Cidade Alerta. Da mesma forma, não vejo coerência em ser a favor dos direitos humanos para apenas uma parcela da população – aquela do bem, defensora dos valores da família, da moral e pagadora de impostos: os guerreiros da classe média conservadora.

Como o Pão comentou na semana passada, quem defende essas opiniões usa sempre aquela frase de efeito: “queria ver com seu filho, com seu pai, ou com um de seus irmãos… O que você faria?”. Sugiro um olhar um pouco menos raso antes de criticar a galera que “defende bandido” e menos obtuso para a questão da criminalidade e do sistema prisional antes de propor um incêndio na cadeia. Acredito que enquanto houver esta mentalidade, não haverá nenhuma mudança na segurança urbana, no sistema penal e, tampouco, justiça social.

A inadmissibilidade dos direitos humanos para alguns está de acordo com a doutrina do ídolo nacional Capitão Nascimento, das ditaduras, ou da sociedade escravocrata de outrora. Poucas pessoas se preocupam em ver e em entender o por que determinado individuo “desumanizou-se”, por que o pivete não se comporta como uma criança normal, por que o ladrão roubou, por que o delinquente transgrediu-se, e por que o marginal não sai das margens da sociedade. Não creio que a haja uma homogeneidade de histórias de vida e de caminhos que os indivíduos possam traçar, mas as opções de fuga se reduzem quando não há educação; quando a violência e a agressão foram os valores que o adulto de hoje recebeu desde o berço; e quando não há meios de inserção econômico-social para todos.

Gostaria de deixar claro que não defendo a ideia de que as camadas menos favorecidas da sociedade sejam forçadas a entrar para o crime, assim como não acredito que a figura do bandido não exista no rico, pois penso que o ser humano por si só é capaz de cometer atrocidades e crueldades – independentemente da classe social. Também não penso que todo criminoso seja um órfão das Chiquititas e que deva receber diariamente chocolate quente na cama.

Porém, sou consciente da existência de um círculo vicioso, de desigualdade de oportunidades e da privação de liberdades – de escolha, de propriedade, de adquirir bens, de ir e vir etc. -, e que não se pode usufruí-las sem a grande força motriz do sistema capitalista: o dinheiro. Quando essas possibilidades são comprimidas e/ou suprimidas, qualquer um pode optar por caminhos mais curtos, como o crime organizado, narcotráfico, roubo, furto, jogos ilegais, pirataria, e uma série de outras vias de acesso que não estão legitimadas na lei.

O sistema penitenciário, por sua vez, não está imune à primazia do dinheiro nas relações  sociais, pois ele é reflexo dos demais âmbitos da sociedade brasileira: um ambiente muito fácil de ser corrompido, com subornos, hierarquias, trocas de favores e, inclusive, execuções em prol da incessante luta pelo poder. Embora haja a tendência em encarar a prisão como um ambiente delimitado e excluído do “mundo real”, ela não está alheia a nenhum de nós. A prisão acaba sendo um “não-lugar”, um canal e um meio em que se dão diversas relações de poder, onde quem manda está dentro ou fora das celas. Prender ou matar não elimina a criminalidade, mas a alimenta.

Enfim, ninguém tem o direito de negar ao outro o direito de sobreviver, de lutar por sua liberdade, de não ser preso sem provas, de ter torturado etc. O tratamento indigno e as condições de superlotação, por exemplo, são punições que levam qualquer um a desvalorizar a vida, e que também refletem a falência e o fracasso dos modelos de “tolerância zero”, do “tapa na cara pra aprender” e do pagamento na mesma moeda. O índice de 60% de reincidência de ex-dententos prova que a experiência adquirida na prisão não desvincula o indivíduo das atividades criminais e não incentiva a um caminho alternativo. É preciso um sistema penitenciário que não tente empurrar os criminosos para baixo do tapete, que dialogue e que promova programas de educação e profissionalização eficientes, a fim de fomentar novas oportunidades.

Fecho o texto com um trecho de uma música do Racionais Mc’s: “Miséria traz tristeza, e vice-versa. (…) Não importa, dinheiro é puta, e abre as portas. E em São Paulo, Deus é uma nota de 100.”

carandiru