Direitas já?

Por Fernando Rinaldi

No último dia 10, alguns manifestantes se reuniram na Avenida Paulista, pegando carona na onda extática de protestos do mês passado, para pedir a volta de um regime militar no país. Tendo como uma de suas principais características a aversão ao governo do PT, a “Marcha da família com Deus” queria chamar a atenção para o fato de que o Brasil vai em direção a um golpe comunista. Familiar, não?

Ricardo Galhardo/iG São Paulo

Ricardo Galhardo/iG São Paulo

Não é de hoje que grupos de direita vêm-se formando e ganhando visibilidade. Um desses grupos é o “Direitas Já!”, criado para “as pessoas que acreditam na liberdade, para quem acredita que o ser humano deve ser livre para ir e vir, crer e descrer, falar, ouvir, pensar, ter e ser reconhecido pelos seus méritos.”

Outro desses grupos é o Instituto Endireita Brasil, que se diz “uma associação de direito privado, sem fins lucrativos, apartidária e sem filiação a nenhum partido político, mas que pretende difundir o ideário conservador e de direita”. Um dos textos mais visualizados do site se chama “10 soluções para melhorar o Brasil”, dentre as quais estão a pena de morte para crimes hediondos, alegando que “eliminando os bandidos mais perigosos, os demais terão mais receio em praticarem seus crimes”, e a menoridade penal e trabalhista a partir de 16 anos, com o argumento de que “[a lei] serve apenas para criar bandidos perigosos, que ao atingirem 18 anos, estão formados para o crime, já que não puderam trabalhar e buscaram apenas no crime sua formação”. Em abril deste ano, Ricardo Salles, fundador desse movimento e assessor de Geraldo Alckmin, afirmou: “não vamos ver generais e coronéis acima dos 80 anos presos por crimes de 64, se é que esses crimes ocorreram”, declaração que levou o escritor Marcelo Rubens Paiva a cobrar do governador de São Paulo um pedido de desculpas.

O senso comum tem o costume de alegar que as diferenças entre esquerda e direita não mais existem, sobretudo no Brasil, onde partidos de fachada são criados constantemente e o jogo político exige a construções de coalizões duvidosas entre partidos. Além de carregar certa confusão entre determinados conceitos, tal modo de pensar é perigoso, pois exime quem pensa assim de uma real tomada de posição e impede uma maior participação da população na política.

O nacionalismo tolo que acompanhou os protestos de junho, quando alguns, ingenuamente ou não, “vestiram-se com as cores do país” – como dizia Machado de Assis dos românticos –, foi somente uma pequena amostra do que podemos presenciar daqui para frente. O Brasil, país de interesses privados, acaba de descobrir a rua como espaço público e a consequência imediata disso é que a direita aprendeu a protestar. Esses protestos de direita são, no fundo, protestos contra os protestos, isto é, manifestações contra as reivindicações da população que sempre estiveram aí, latentes ou não. De um modo geral, não são questionados as injustiças e os privilégios que há anos resistem intactos, mas as pequenas mudanças que são pensadas para tornar o sistema atual um pouco menos injusto. No momento em que o governo cria uma solução para uma das demandas da população, mesmo que a curto prazo, a resposta reacionária invariavelmente é de condenar a solução encontrada, acusando os políticos de demagogos ou assistencialistas.

Penso que valha a pena destacar aqui um trecho de um artigo do Slavoj Žižek que fará parte do livro Cidades rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil, a ser lançado em breve pela Editora Boitempo: “Os protestos e revoltas atuais são sustentados pela sobreposição de diferentes níveis, e é esta combinação de propostas que representa sua força: eles lutam pela democracia (‘normal’, parlamentar) contra regimes autoritários; contra o racismo e o sexismo, especialmente contra o ódio dirigido a imigrantes e refugiados; pelo estado de bem-estar social contra o neoliberalismo; contra a corrupção na política e na economia (empresas que poluem o meio ambiente etc.); por novas formas de democracia que avancem além dos rituais multipartidários (participação etc.); e, finalmente, questionando o sistema capitalista mundial como tal e tentando manter viva a ideia de uma sociedade não capitalista.” (leia o artigo completo aqui)

Žižek, que esteve recentemente no Brasil, gosta de repetir que as elites políticas e econômicas não sabem o que querem nem o que estão fazendo. Brinca também que é mais fácil descobrir o que as mulheres querem (a maior das dúvidas freudianas) do que descobrir o que quer um manifestante do terceiro milênio. Portanto, essa combinação de várias pautas representa não só a força das revoltas, mas também sua fraqueza.

Nesta sociedade sem um rumo claro, em que os donos do poder estão perdidos e onde o povo se revolta por vezes sem saber contra o quê, abre-se uma imensa brecha para o reacionarismo. Em outras palavras: já que não está bom do jeito que está e não sabemos para onde vamos, o melhor a fazer é voltar a um lugar seguro do passado. Provavelmente essa é uma razão pelas quais a Europa em crise assiste a grupos neonazistas ganharem força e o Brasil, país que não tem nem trinta anos de democracia, vê uma parcela de sua população apoiar o retorno da ditadura militar. Embora o número de pessoas que participaram da “Marcha da família com Deus” dez dias atrás seja quase ínfimo, não seria exagero dizer que uma parte considerável dos brasileiros a endossou.

Afinal de contas, como serão as caras da esquerda e da direita pós-junho de 2013? Difícil saber. Deleuze definiu neste vídeo que a esquerda é a minoria que é todo mundo e a direita é a maioria que não é ninguém. Será que ainda conseguimos reconhecer essa equação em nossa sociedade? Caso contrário, o que será que há de errado?

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