O legado de Roberto Civita

Por Fernando Rinaldi

Morreu no último domingo, dia 26/05/13, Roberto Civita, dono do Grupo Abril. Civita nasceu na Itália, estudou nos EUA e, quando voltou ao Brasil, na década de 1960, começou a trabalhar como editor na empresa do pai, Victor Civita, tendo-se dedicado a ampliar e diversificar os negócios do Grupo, sobretudo após 1990, quando Victor faleceu. Até seus últimos dias foi editor-chefe da VEJA, revista semanal de maior circulação no país.

Como se sabe, o Grupo Abril vai muito além da VEJA. É inevitável, numa visita ao edifício da Abril, não espantar-se com o tamanho e com a multiplicidade de ramos desse empreendimento muito bem-sucedido, que não se restringe, como pensam alguns, à atividade jornalística. No entanto, mesmo com tamanha variedade, a VEJA pode ser considerada o filho preferido de Civita, o seu grande projeto, ou a síntese de todos os outros.

A importância do Grupo Abril e da revista VEJA são inquestionáveis e não é de se espantar todas as homenagens post-mortem feitas a Civita. O problema é que, de um modo geral, os jornais e revistas brasileiros lamentaram a perda de um dos maiores baluartes da liberdade de expressão, da liberdade de imprensa e da democracia. Ora, mas não foi Civita um grande apoiador da ditadura militar? Há quem diga que não, mas eu não consigo acreditar – hoje, apesar do verniz progressista, a revista se caracteriza pelo ataque a movimentos sociais, artísticos e estudantis e pela publicação de matérias de conteúdo extremamente reacionário. A cobertura da sua morte foi, nesse sentido, marcada pelo cinismo, assim como toda sua vida também o foi.

Civita gostava de ressaltar, por exemplo, que o leitor era o seu “verdadeiro patrão”. Quando o ouvimos atribuir ao leitor um papel de soberano, sabemos que essa declaração é pura retórica. Basta ler algumas linhas da revista VEJA para notar como a inteligência desse mesmo leitor é descaradamente subestimada. O jornalismo de Civita sempre foi autoritário e prestidigitador, visando a reforçar e difundir ideias oligárquicas dentro de uma sociedade ainda oligárquica, ideias conservadoras dentro de uma sociedade conservadora.

Que fique claro que não estou criticando a existência de uma “mídia de direita” (conceito questionável), tampouco defendendo um “jornalismo imparcial” (conceito ainda mais questionável). Critico, sim, um certo tipo de jornalismo que, aproveitando-se de sua credibilidade, informa meias-verdades, desinformando seus vários leitores. E era justamente esse o jornalismo que Civita fazia, embora muitos estejam dizendo o contrário por aí.

Quem já fez o exercício masoquista de ler os comentários dos internautas nos mais variados portais de notícias, sabe o alcance das ideias reproduzidas semanalmente pela VEJA. Os pontos de vistas difundidos pela revista se reproduzem em bocas e dedos que nem sempre sabem o que estão dizendo ou escrevendo. E não há nada mais desastroso do que a distorção de um discurso já distorcido. A violência desses comentários é brutal, mas frequentemente passa despercebida como qualquer violência que é banalizada.

É claro que não podemos responsabilizar somente a mídia por essa violência. Podemos dizer, talvez de uma maneira um pouco simplificadora, que só existe ética jornalística numa sociedade de leitores éticos. Se no Brasil se dá com facilidade o surgimento de grandes coronéis da informação, não há a menor dúvida de que o buraco seja muito mais embaixo.

Por outro lado, é verdade também que a VEJA vem perdido muito da sua confiabilidade. Nas redes sociais, a revista é constantemente criticada e suas matérias e colunistas não raro aparecem como motivo de repúdio nacional. Assim, a VEJA é ao mesmo tempo a revista mais lida e a mais odiada, a mais ridicularizada e a que mais (de)forma a opinião pública nacional. E assim ela continuará por tempo indeterminado.

Quando faleceram outros coronéis da informação, como Roberto Marinho e Ruy Mesquita, os poderosos sistemas de comunicação que eles deixaram pouco ou nada se modificaram, por isso eu acredito que nada vá mudar também na Abril ou na linha editorial da VEJA com a morte de seu presidente. Civita é mais um cidadão Kane brasileiro que se vai, com cujo legado todos nós teremos de lidar.

Esse legado, no entanto, é uma forma de comunicar através da centralização da informação; não podemos negar que esse formato que vem perdendo força diante dos outros meios de comunicação que inventamos diariamente. Civita nos deixa, portanto, um jornalismo colocado em xeque e uma lição às avessas: os verdadeiros leitores soberanos não são aqueles que consomem passivamente o que os meios de comunicação lhes propõem, mas aqueles que querem quebrar com o monopólio da informação e promover uma ação democratizante. As constantes críticas ao seu filho predileto nas redes sociais indicam uma mudança na maneira com a qual lidamos com os textos que lemos.

Uma nova primavera já começou?

roberto-Civita

Entre cabras e beijos

Por Maíra Souza

No último final de semana, São Paulo e Rio sediaram a apresentação da Mother Monster no Brasil. Lady Gaga, famosa por pregar a defesa dos direitos dos homossexuais no mundo, também condena o bullying e a intolerância por meio de suas músicas e shows, incentivando a galera a ser feliz do jeito que é, afinal you were born this way, baby.

Paralelamente, a maior (em termos de volume de vendas) revista brasileira gera polêmica nas redes sociais por tratar da homossexualidade e da homofobia de maneira um tanto quanto obtusa:

Da homossexualidade

“Homossexuais se consideram discriminados por não poderem doar sangue. Mas a doação de sangue não é um direito ilimitado – também são proibidas de doar pessoas com mais de 65 anos ou que tenham diabete e hepatite.”

O autor entende que a homossexualidade, assim como a diabete e a hepatite, é uma doença – e, como toda doença, deve ser tratada e exterminada, certo?! Entretanto, compartilho a opinião de que a preferência sexual não é adquirida e tampouco contagiosa. Não me lembro de nenhum momento da minha vida em que decidi sentir atração por homens. Assim como não me recordo de nenhuma pesquisa cientifica que prove que o risco de transmissão de doenças – devido ao comportamento promíscuo ou ao uso de drogas – está imune aos heterossexuais.

Da homofobia

“Mas se alguém diz que não gosta de gays, não está cometendo crime algum – a lei não obriga ninguém a gostar de homossexuais, ou de espinafre, ou seja lá do que for.”

A analogia do autor me lembra aquelas falas dos machões e das “mulheres com M maiúsculo”, tipo “ah, eu não tenho nada contra veado ou sapatão, sabe?! É só não encostar ou chegar perto de mim que tá de boa =)”

Não é de hoje que o diferente causa estranhamento, seja por razões físicas, religiosas, sociais, culturais, sexuais etc. Assim como a Constituição não obriga ninguém a gostar de ninguém, afirma a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade (Art. 5º), e pune o tratamento desumano ou degradante. Ou seja, você pode fazer o que bem entender com um espinafre (risos), mas não com um ser humano – lembrando que os homossexuais também se encaixam nessa categoria.

Do casamento e da adoção

“Pessoas do mesmo sexo podem viver livremente como casais. Mas a sua ligação não é um casamento – não gera filhos, nem uma família, nem laços de parentesco. (…) Há outros limites. Um homem também não pode se casar com uma cabra, por exemplo: pode até ter uma relação estável com a cabra, mas não pode se casar com ela.”

Além de grotesca e desrespeitosa, a comparação do casamento gay com o casamento de um homem e um animal vai de encontro com quem diz “mas que aberração!” ou “que nojo!” quando vê um casal do mesmo sexo de mãos dadas na rua.

Acho que no dia em que a galera se preocupar mais com a sua própria felicidade ao invés de se importar com a alheia, a nossa sociedade será mais agradável.

Interessante notar também que além de heterossexuais serem aqueles que geram filhos, família e parentesco, há também aqueles que causam a lotação de abrigos e orfanatos; que geram filhos que vivem e trabalham nas ruas; que cultivam laços de parentesco tão fracos que são capazes de matar uns aos outros. A reprodução não é, necessariamente, uma dádiva.

Há alguns anos, uma mãe ou um pai divorciado vivendo sozinho (a) com seu filho não seria considerado “família”, por exemplo. De acordo com o contexto histórico, os conceitos de família e casamento se modificam, se adaptam e se transformam.

Da violência

“Homossexuais são assaltados, agredidos, assassinados no Brasil – mas heterossexuais também. A violência sofrida por homossexuais no Brasil, portanto, não decorre do fato de serem gays.(…)Hoje em dia os homossexuais não precisam mais levar uma vida de terror, escondendo sua identidade para prover o seu sustento e escapar às formas mais brutais de chantagem, discriminação e agressão”

Realmente, a VEJA ta sabendo legal. Tem gay que é espancado na Paulista só porque estava no lugar errado e na hora errada. Tem gay que apanha do pai, mas não para “aprender a virar homem”, mas só porque o pai estava de mau humor. Tem grupos neo-nazistas por aí, mas não porque “veado tem mais é que morrer”, e sim por causa da violência urbana. Tem gay que não sofre bullying na escola e/ou na faculdade por ser considerado “bichinha”, mas porque bullying é brincadeira mesmo. É normal. Assim como as cabras.