Procura-se Amarildo

Por Fernando Rinaldi

 

Procura-se Amarildo de Souza, 43 anos, negro, conhecido como “Boi”. Procura-se o pedreiro, o pescador, o morador da favela da Rocinha, o pai de seis filhos, o marido de Elizabete, desaparecido desde o dia 14 de julho, logo após prestar depoimento a policiais da UPP sem fosse dada qualquer explicação posterior aos seus familiares e amigos. Procura-se um dos vários desaparecidos políticos da democracia brasileira.

Mas quem procura?

Os políticos? Amarildo representa o completo descaso das autoridades em relação aos seus cidadãos e é a síntese de uma política incompetente. Os olhos de Cabral se encheram d’água quando pediu que os manifestantes respeitassem seus filhos. Cidadãos podem continuar analfabetos, podem continuar doentes, podem continuar sendo depredados, podem continuar vivendo num caos completo, podem continuar morrendo, podem continuar sumindo. Mas, por favor, respeitem os filhos do senhor governador! Cabral, que governa com desleixo e abandono, que quer todos os bônus e nenhum ônus da vida pública, prometeu empenho nas investigações em seu Twitter.

A polícia procura? Segundo dados do Instituto de Segurança Pública, houve um aumento no número de desaparecimentos após o início das UPPs nas comunidades.  Os PMs da Unidade Pacificadora da Rocinha declararam não ter tido contato com Amarildo, versão que foi contestada pela família. Depois do desaparecimento de Amarildo, os PMs vêm perguntando em tom de deboche para a família: “E aí, o Amarildo voltou?”. No Brasil, a polícia pacificadora mata e o feto tem mais direito à vida do que os marginalizados.  No Brasil, desde sempre sobrevive só quem não reage à truculência policial, e os bandidos – ou os que são estigmatizados como tal – são uma categoria diferente de ser humano que merece morrer. A Operação Paz Armada tem o paradoxo no nome e nas ações, justificadas e até legitimadas pelo medo da classe média.

Então quem procura? A família procura sem descanso, apesar de achar que não o encontrará com vida. Querem apenas encontrar o corpo para que ele tenha um enterro digno. Amarildo, que não está vivo nem está morto, continua existindo enquanto uma ausência que não se define como tal, um espaço vazio na sua casa que não pode ser preenchida com lágrimas de luto, mas tão somente com o desespero. A mulher de Amarildo não dorme mais em casa e tem medo que algo aconteça com os outros membros da família.

Quem mais procura? Nós, brasileiros, procuramos. Os moradores da Rocinha protestaram nos dias 17, 19, 21, 22 etc. A Autoestrada Lagoa-Barra foi fechada. Moradores da Rocinha, inclusive crianças, foram para o Leblon. Os manifestantes atravessaram o túnel Zuzu Angel. Outros protestos também se deram em outros lugares do Rio e em São Paulo. Amarildo ligou diferentes classes sociais e regiões por uma mesma causa, colocou todos numa mesma horizontalidade atacando uma verticalidade que custa a se manter rija. Nós, que não aceitamos as histórias mal contadas que até agora surgiram, não procuramos tanto com a esperança de encontrar, mas no afã de não perdermos mais ninguém. Quando perguntamos “cadê o Amarildo?”, estamos perguntando também “qual é a justiça de que precisamos?” – como escreveu Clarice Lispector na famosa crônica “Mineirinho”, “essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela”.

O que encontramos até agora? O corpo encontrado na terça-feira, dia 30, não é de Amarildo. Ou melhor: é sim. Os casos de morte e desaparecimento sem explicação não começaram com Amarildo nem terminarão com ele. Quem não vive no morro não sabe o que é conviver com as linhas de força que buscam controlar uma comunidade, mas a verdade é que nós que pagamos a conta somos também, em maior ou menor escala, Amarildos. Diante de uma polícia militarizada, somos todos inimigos do Estado: alguns são atacados por balas de borracha; outros (os mais pobres), por balas de chumbo mesmo.

Sorte foi que Amarildo se tornou um “homo sacer” conhecido da população e o seu caso não será esquecido tão cedo. Num momento em que as manifestações brotam aqui e ali, o seu rosto acabou virando imagem recorrente nas bandeiras de protesto contra o governo do estado do Rio de Janeiro e a favor da desmilitarização da polícia. Se muitas manifestações não representam as reais demandas da sociedade, como discorri no meu texto de duas semanas atrás, outras são verdadeiros gritos contra um Estado disfuncional, que dispõe de estratégias anacrônicas em muitos sentidos, que claramente patina para os que o olham de perto embora pareça deslizar continuamente para o que o veem de longe. Amarildo é o vácuo entre o poder público e a população, a lacuna entre os anseios do povo e os projetos políticos, o longo caminho da Rocinha ao Leblon, o espaço que separa os que o procuram e os que não o procuram.

Oxalá explicações sobre o seu sumiço não tardem a vir à tona. Enquanto isso, e mesmo depois disso, nós continuaremos procurando. Pois a luta do Brasil agora tem nome: chama-se Amarildo.

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Texto-espanto: os ombros não suportam o mundo

Participação especial de Matheus Jacob *

 

Em tempos de cassetete baixando na cabeça de estudante, em tempos de bombas de gás como resposta ao grito uníssono  “Sem violência!” – ao que parece a única eloquência de alguns é o gás que cerca jovens -, a voz do Drummond vem e ecoa e diz dura: Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.

Mas os nossos ombros não são como os do Drummond, e a mão da criança já é aqui outro tipo de mão, mais dura e mais pesada. O que aconteceu quinta-feira, 13/06, não tem explicação.

Difícil tomar um lado quando os lados se dispersam em contradições internas, ainda mais um tempo (foi década de 40, poderia ser hoje) “tempo de partido / tempo de homens partidos”. Mas o que aconteceu nesta quinta-feira, 13/06, não tem explicação; e hoje não tomar um lado é tomar o lado errado. Ver conhecidos levando bombas (de gás, sim, mas bombas) que lhes caem no rosto e nos pés; ver jornalistas apanhando e levando tiro (de borracha, sim, mas tiros) no olho; ver uma multidão de pelo menos 7 mil pessoal gritar “Sem violência!” enquanto a tropa de choque avança como um bloco e lança bombas de gás: parece um filme muito malfeito, de diretor sem bom gosto e de enredo inverossímil. No entanto, ocorreu. E não foi 70 anos atrás, foi hoje.

Não há justificativa.

Ninguém (ou eu não, ao menos) está assinalando heróis. Nem vilões. Mas não há justificativa, não há lógica naquilo que vi. Há neste texto pouca ou nenhuma filosofia, e ainda menos estrutura e/de argumentação. Há só espanto, e o espanto é tudo às vezes: Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. Nossos ombros não são drummondianos, o peito não é clariciano, mas a boca muito nossa e a mão muito nossa podem falar, podem criam e expressar o espanto. Porque o espanto cria sua lógica e sua ordem, e as destrói depois de a mensagem dada. Cria a forma, a usa e a quebra, porque o espanto é um, e às vezes é tudo. Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus

Ninguém mais acredita ou deveria acreditar em heróis. Ulisses morreu, e levou muitos outros quando caiu segurando o tapete na mão heroica. Ninguém acredita ou deveria acreditar mais em heróis, e vilões são parciais, mas: o que aconteceu não tem justificativa. Não há justificativa.  O que ocorreu 13/06 não se explica, apenas se olha com aquele olho sem expressão, sem esperança e sem mais amor. Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.

O texto ficou por dizer algo que não disse porque não sabe dizer, e fica o dito pelo não dito (como já disseram). Cheguei há pouco, e a manifestação ainda acontece enquanto escrevo estas linhas. Mas ficarão só estas poucas linhas, porque mais não se pode dizer. O espanto é de reconhecimento, e o reconhecimento é uma surpresa ruim às vezes. Péssima na maioria delas.

Coisa muito pior ainda pode acontecer. Hoje talvez. Ou amanhã. Ou todos os dias, em qualquer lugar. Consigo ouvir os helicópteros enquanto digito estas, estas e estas letras. Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.

Não há heróis e não há vilões, mas há espanto ante o que é visto, e há descrença ou vontade de descrença, porque o que é visto dói os olhos. E, em outras pessoas que vi hoje mais cedo, dói muitas outras partes do corpo também.

Fica então o texto-espanto, à espera de uma reorganização futura para que algo mais plausível, mais limpo e mais reto possa surgir depois. Mas, por hora, o espanto é o que há: e o espanto é tudo, às vezes. E é só de Espanto que alguns caminhos precisam para mudar sua direção. O meu acaba de mudar.

 

 

*Matheus Jacob é estudante do terceiro ano de Letras na Universidade de São Paulo.