Tarja preta sobre os índios

Por Fernando Rinaldi

 

Ouvi no rádio essa semana uma notícia que me chamou a atenção: uma foto do filme As Hiper Mulheres, que mostrava índias do Alto Xingu, no Mato Grosso, foi retirada do ar no Facebook por violar a “a declaração de direitos e responsabilidades” do site. Para que elas pudessem postadas novamente na rede social, a produtora precisou colocar tarjas pretas sobre os seios e os órgãos genitais das índias.

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O leitor do Esparrela há de lembrar que não é a primeira vez que fotos são bloqueadas por violarem os termos de uso do Facebook. Em 2008, uma mulher chamada Heather Farley teve uma foto sua amamentando removida e foi ameaçada de ser banida da rede social se postasse novamente a imagem. Em 2010, o Facebook eliminou fotos estampando uma boneca de porcelana sem roupas que servia como modelo da linha de produtos de uma designer de joias. Em 2011, a foto do CD Nevermind (aquele cuja capa tem a imagem de um bebê nadando pelado), do Nirvana, também foi retirada do ar. Já foram bloqueadas também fotos de mulheres nuas protestando na “Marcha das Vadias”, de mulheres fazendo campanha contra o câncer de mama e de artistas que queriam somente expor suas obras. E não raro vejo usuários do Facebook reclamando de terem postado uma foto tirada por um fotógrafo famoso e de ter essa foto bloqueada por conta de seu “conteúdo inadequado”.

É no mínimo curioso que toda a imagem ou foto contendo nudez seja categoricamente classificada como pornográfica. Parece haver um excesso de puritanismo nas ações de proibição empreendidas para fazer valer os termos de uso do Facebook. Chegam a ser a um só tempo tristes e risíveis as tentativas de controlar a qualquer custo o conteúdo compartilhado, pois, na medida em que não se faz distinção entre um conteúdo erótico e qualquer outro conteúdo, tudo pode ser visto como pornográfico: obras de arte, manifestações, campanhas e até uma imagem de índios.

Contra a proibição de fotos e imagens que o Facebook julga serem de conteúdo pornográfico até já foi redigido um abaixo-assinado no www.causes.com, do qual reproduzo um trecho: “(…) o Facebook favorece, encoraja e pratica sistematicamente a CENSURA de todo tipo de conteúdo erótico ou associado à nudez e ao sexo, o que inclui a exclusão de uma miríade de obras de arte dos mais variados períodos e regiões da história humana, nos mais diversos tipos de suportes (escultura, pintura, desenho, gravura, vídeo, filme, fotografia, textos, inscrições, graffiti, misto, etc, etc), que são parte do patrimônio cultural da humanidade e compõem junto com outras razões alguns dos motivos específicos pelos quais milhões de pessoas visitam museus e espaços culturais dentro ou fora da WWW, hoje e sempre. Associado a isso, o Facebook demonstra ser adepto da prática da INTOLERÂNCIA CULTURAL, ao censurar conteúdos que registram práticas de outras culturas diferentes da cultura ocidental dominante como a nudez de membros de etnias nativas que sempre viveram assim e tem sua própria razão de ser.”

Embora eu ache complicado falar em censura, ainda mais num país como o nosso, em que essa palavra tem um peso histórico considerável, ninguém poderá negar que, no espetáculo de Mark Zuckenberg, toda nudez é castigada. Quanto à intolerância cultural, o episódio da tarja preta só serviu para escancarar a completa ignorância a respeito dessa outra cultura em que a nudez tem outro significado. É espantoso que essa imagem, que tem como objetivo divulgar um filme, só possa circular pela nossa cultura, em que a nudez é encarada por um viés outro, se as “vergonhas” das índias forem escondidas com uma tarja preta.

Como se não bastasse, outra notícia dessa semana que passou conseguiu me deixar ainda mais abismado: a retirada dos índios da Aldeia Maracanã, no Rio de Janeiro, foi marcada por truculência, uso de bombas de efeito moral e gás de pimenta pelos policiais do Batalhão de Choque da PM. O governador Cabral queria que a área do antigo Museu do Índio fosse transformada num estacionamento para a Copa do Mundo de 2014. Depois da reação de artistas, mudou de ideia: agora será transformado num Museu Olímpico. E, para isso, decidiu tirar os índios de lá à força nessa última sexta-feira.

Houve violência e tumulto, houve abuso de poder e de força. Ao que tudo indica, os índios haviam feito um acordo com o governo que não foi cumprido. “Já estávamos retirando os idosos, as mulheres e as crianças para serem levados para um terreno em Jacarepaguá, oferecido pelo governo. Pedimos aos policiais para esperarem mais dez minutos, mas isso não aconteceu e o comandante determinou a invasão do Batalhão de Choque. Isso não precisava ter terminado desta forma. Muitas pessoas foram atingidas por balas de borracha e spray de pimenta. Estamos estudando a possibilidade de entrar com uma representação contra o comandante por crime de abuso de autoridade”, declarou o defensor público Daniel Macedo.

Não é também a primeira vez que os índios são tratados dessa maneira – lembremo-nos do episódio do Guaranis-Kaiowás no fim do ano passado. Pouco aprendemos com séculos e séculos de extermínio. Mais uma vez, o Brasil não se importou em tapar sua memória e sua história com uma tarja preta. Mais uma vez, o governo brasileiro tapou com uma tarja preta os Direitos Humanos, na tentativa de deixar visível somente o “progresso” que suas ações supostamente trarão. Não deu certo: o despejo repercutiu mundialmente e gerou polêmica na supracitada rede social.

Tanto na proibição da foto quanto na ação do despejo, passou-se por cima das particularidades de uma cultura para fazer valer a lógica arbitrária de termos, leis e ordens tão absurdos como os de um texto kafkiano; em ambos os ocorridos, a tarja preta, seja a real ou a simbólica, esta relacionada à antiga violência e descaso direcionados a um grupo específico, revelou mais do que ocultou. E o que ela revelou é, nesses casos sim, indecente e tenebroso.

A cultura do estupro

por Maíra Souza

Ano novo, vida nova, ai que loucura, ai que badalo! Nessa época do ano, muito se fala de planos pro carnaval, do Big Brother Brasil 46, da nova temporada de Mulheres Ricas (risos), de mudanças, de prosperidade etc. E também POUCO se fala das barbáries que são cometidas diariamente por aí – e não me refiro às da Lindsay Lohan.

Pois bem. Pouco antes do natal, uma estudante indiana foi estuprada e assassinada por 6 homens enquanto voltava para casa de ônibus. Paralelamente, uma estudante de direito da PUC-SP foi à festa de fim de ano na empresa em que estagiava, e lá recebeu um boa noite cinderela, foi abusada sexualmente por um colega de trabalho e, dias depois, cometeu o suicídio.

No primeiro caso, houve uma série de protestos e vários comentários culpando a cultura indiana pelo ocorrido, tal como a postura um tanto quanto secular do país no que diz respeito aos direitos das mulheres.  Já no segundo caso, a mídia brasileira publicou a notícia praticamente um mês depois do ocorrido e, ainda assim, sem grandes comoções.

A estudante de Nova Délhi teve seus órgãos destroçados porque não deveria andar na rua à noite e, segundo o líder espiritual Asharam,

“esta tragédia não teria acontecido se ela tivesse evocado o nome de Deus e caído sobre os pés de seus agressores. O erro não foi cometido apenas de um lado”.

Já a estudante de São Paulo – que havia dito que sofria assédio do chefe, foi protagonista de um boato que surgiu na empresa de que ela havia feito sexo com um colega na festa -, teve a sua memória ““respeitada”” pela empresa, que, por sua vez, alegou que

“não há indícios de qualquer relação direta ou indireta entre o evento comemorativo do escritório e a morte”.

Ou seja, a mulher é culpada pela agressão e pela legitimação das barbáries cometidas e, infelizmente, isso não é restrito à Índia, nem ao Brasil e tampouco aos outros BRICS.

A verdade é que não vivemos em um país livre. Liberdade não pressupõe medo, coerção ou receio. O temor da violência sexual existe e não escolhe classe social, aparência física e nem lugar. Ele pode estar presente no ambiente de trabalho, na cautela com o copo em festas, no medo de pegar táxi à noite, na preocupação de andar sozinha, entre outros. Não obstante, a hostilidade à sexualidade da mulher é visível na “encoxada” nos transportes públicos, nas piadinhas de mau gosto, na violência doméstica, no famoso teste do sofá etc.

A imposição de códigos de vestimenta, mesmo que indiretamente, é o maior exemplo de que a sociedade brasileira também tem um pezinho no secularismo. Não é raro ouvir comentários como “ninguém mandou se vestir desse jeito” ou “ninguém mandou beber tanto… afinal, c* de bêbado não tem dono”, como se alguém fosse incitar ou provocar o próprio estupro.

Para muitos, a aparente fragilidade feminina se traduz na obrigatoriedade de que o “NÃO” significa um “SIM” com charminho. Ainda que disfarçado, a cultura do estupro existe e é, muitas vezes, legitimada pelo mercado – como o caso da propaganda da Prudence, que afirmou que tirar a roupa e abrir o soutien de uma mulher sem o consentimento dela gasta mais calorias. De qualquer forma, os dois casos supracitados não são exemplos de violência isolada. A mulher – seja brasileira ou indiana – é desrespeitada, subjugada e estigmatizada todos os dias, e na maioria das vezes, em silêncio.

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Cessar-fogo

por Luís H. Deutsch

Não precisamos ir até Gaza, Sderot ou até à Síria para nos depararmos com a violência. Não é necessário viver nas periferias perigosas de São Paulo, de Florianópolis, ou do Rio de Janeiro para ver de perto a truculência. A violência vive perto de nós, e mais perto do que imaginamos.

Viver em um mundo que preza pela meritocracia acima de tudo, quando oferece mesmas metas a pessoas que não têm os mesmos poderes já é uma violência. Uma violência aos desfavorecidos.

Transitar em ruas que parecem vias expressas para o Inferno, onde o pedestre consegue ir para o outro lado apenas por misericórdia de motoristas que cada vez mais se assemelham a quimeras sem cérebro, incapazes de esperar e de ensinar, também é uma violência. Uma violência à civilidade e à educação. Sem esquecer o praticamente abuso sexual aos ouvidos que é escutar uma pessoa que não tem dó de enterrar sua mão na buzina quando algo a desagrada…

Desrespeitar a vontade da maioria e a escolha dos interessados e crivar atos de barbaridade autocrática em um ambiente que preza pela livre escolha, pelo pensamento sem fronteiras e pela qualidade de formação humana e altamente reconhecida é outra face da já tão falada violência. Uma violência à democracia.

Para viver essa violência toda, realmente não precisamos estar naqueles prédios sempre esfumaçados do Oriente Médio, nem presos em uma selva na Colômbia ou morando em uma favela brasileira vendo um busão pegar fogo dia sim, dia não.

Dentro de nossos condomínios, dentro de nossas escolas, dentro de nossa sociedade, dentro dos nossos Facebooks… Nas nossas avenidas, alamedas arborizadas e pacatas vilas… Na nossa Universidade e no nosso trabalho. Há violência onde quer que nossos olhos possam alcançar. Essa infelizmente é a verdade por trás de tanta hipocrisia dos defensores da paz, que esquecem qualquer pomba branca na hora de serem atendidos no super-mercado e mandar a velha da fila preferencial tomar no coelhinho, se eu fosse como tu…

Para essas violências, cadê o cessar-fogo? Quem vai mediar isso? Quem vai anunciar isso?

Espero que não estejamos esperando ninguém fazer isso por nós, né? Ao contrário da violência que gera violência… A gentileza gera gentileza por sua vez… E parte das nossas pessoinhas pensar isso.

Nunca quis ser doutrinador, muito menos utópico. Acho que só basta ser plausível. Verossímil e possível… Assim quem sabe, essas várias guerras diárias terminam em vários e mais que necessários armistícios.